Imaginário - Textos

Rosas de Gelo - Parte 1
Madalena Barranco

Afundo-me na brancura da nostalgia e a temperatura da ternura me sacode da letargia... Raios surgem na fantasia de mais um dia que se vai, e refletem a última rosa da aurora na efêmera face de um anjo de neve. Madalena Barranco

Gnomo Verde: oh, mas a heroína dessa história não derreteu no final... Eu conheço rosas mágicas na floresta do Grande Gnomo Vermelho, que são eternas e...

Maria Fantasia: não seja tão ansioso, que você ainda está longe de amadurecer! Se contar o fim da história, o ensaio da Magalena perde os pés e a cabeça. Bem, eu até gosto disso, pois é uma forma de se permitir sonhar – quando “Veronika decide morrer” (livro de Paulo Coelho) - é porque ela já havia matado todos os resquícios de fantasia. Ai de mim, Maria Fantasia assassinada...

Bruxauva: sonhos?! Bah! Para mim só se forem aqueles de padaria, para saborear com creme de sapos. Mas como hoje estou muito infeliz, serei cruel com vocês e darei minha opinião livre de custos adicionais: a Veronika que o escritor Paulo Coelho criou foi baseada em sua vida, e por aí vocês podem constatar que o excesso de sonhos mal resolvidos pode explodir os miolos e deixar a cabeça vazia. Aí, o que acontece?! Há lugar para mais sonhos ainda e a pessoa perde a noção da realidade e depois fica enjoada com tanta imaginação desenfreada! Por isso, a personagem dele, a tal da Veronika, foi parar no hospício.

Magalena: será que é por isso, Bruxauva, que você é tão viciada em comer patas de sapos e em assistir filmes da Família Adams, que até vê coisas onde nada há? No processo de despertar da magia pessoal utilizado pelo escritor Paulo Coelho em seus livros, e pelo seu saudável hábito de descrever a vida e a morte e até a forma de fugir à roda do destino, o leitor tem a oportunidade de identificar-se com a sua irmandade, que de rosas de gelo ou não, povoa o universo. Quanto ao conteúdo literário, eu afirmo que essa abordagem semântica baseada no tema mais lido no final do século XX e princípio do XXI: a magia e suas nuances, foge ao Contemporâneo e principia o que eu já denomino de era Virtual.

Maria Fantasia: isso é filosofia de flores sempre-vivas. Mas confesso que eu apoio a Magalena, quando ela defende uma “pequena dose de sonhos diária”. De qualquer forma há uma dúvida que me atormenta. Se a humanidade já está com um dos pés preso à era Virtual e a Contemporânea ficou para trás, porque as bruxas medievais estão renascendo e se fala tanto em Paraíso perdido? O que o velho tem a ver com o novo? E ainda temos também o Romantismo embutido nisso tudo? Por enquanto, vamos à história e pronto!

Trechos do livro “Veronika decide morrer” comentados pelo Gnomo Verde com a interferência de Bruxauva:

“(...), Veronika decidiu que havia – afinal! – chegado o momento de se matar. (...) pegou as quatro caixas de comprimidos para dormir. (...) resolveu tomá-los um a um, já que existe uma grande distância entre a intenção e o ato, ela queria estar livre para arrepender-se no meio do caminho.”Paulo Coelho.

Gnomo Verde: então ela não era tão birutinha assim. A dúvida existia. Eu, por exemplo, ainda não sei se sou de fato verde ou verdinho...

“Acreditava ser uma pessoa absolutamente normal. Sua decisão de morrer devia-se a duas razões muito simples, e tinha certeza de que, se deixasse um bilhete explicando, muita gente ia concordar com ela.” Paulo Coelho.

Gnomo Verde: é por isso que há tantos mortos-vivos andando apressados pelas ruas, ou simplesmente sentados em suas poltronas, sem perceberem as rosas ao seu redor!

“A primeira razão: tudo em sua vida era igual, e – uma vez passada a juventude – era decadência, (...) as doenças chegando, os amigos partindo. (....)” Paulo Coelho.

“A segunda razão era mais filosófica: Veronika lia jornais, assistia TV, e estava a par do que se passava no mundo. Tudo estava errado, e ela não tinha como consertar aquela situação – o que lhe dava uma sensação de inutilidade total.” Paulo Coelho.

Bruxauva: eu não digo sempre que a humanidade é uma cambada de gente congelada? Eu, que sou a bruxa mais velha do mundo mereço um “Oscar norte-americano”, pois consegui sobreviver e superar tudo isso e até virei imortal – eu acho... Pois já tenho mais de mil anos e quase o mesmo de verrugas, enquanto que vocês decidem morrer por tão pouco! Vocês nunca saberão qual é o verdadeiro sabor das patinhas de sapos crocantes, pois não têm tempo para aprimorar o paladar. Afinal, não tenham dúvidas de que estamos mesmo na era Virtual, onde morre-se por não saber o que é o amor. Bem, não que eu me importe com isso...

“- Duas semanas neste quarto, depois de cinco dias na Unidade de Emergência (...) – E dê graças a Deus por ainda estar aqui.” Paulo Coelho.

“- O seu coração foi irremediavelmente afetado. E vai deixar de bater em breve. (...) Cinco dias, uma semana no máximo.” Paulo Coelho.

“- Então eu não falhei”. Respondeu Veronika.” Paulo Coelho.

Gnomo Verde: a esperança que é da mesma cor de que sou feito é uma nano bactéria imortal. Veronika não contava em ter que esperar para morrer e provavelmente sofrer com aquilo. A sugestiva “doce morte” provocada pelos comprimidos colocou-a numa enrascada, e ainda por cima, dentro de um hospício esloveno: Villete.

Magalena: quantos autores já falaram de morte e esperança. Esse assunto às vezes me parece ser abusivamente explorado. Certa vez em uma palestra com o escritor e professor Luiz Antonio de Assis Brasil, ele reafirmou que tudo o que está escrito já foi reescrito inúmeras vezes. A esperança do escritor e principalmente do leitor está na forma original, culta e criativa em que a história é recontada e a mensagem atinge seu objetivo de fazer-se entender.

“- Eu não sou louca.”

“- Você não sabe o que é um louco.” Paulo Coelho.

Bruxauva: nem EU sei. Enquanto isso eu abocanho todas as delícias rastejantes que quiser e também dou inúmeras vassouradas em quem tentar se opor a mim ou me atrapalhar, quando estiver cozinhando receitas mágicas. Garanto-lhes que esse tipo de comunicação movida a vassouradas funciona!

“- Louco é quem vive em seu mundo. (...) Ou seja, pessoas que são diferentes dos outros.” Paulo Coelho.

Gnomo Verde: coitadinha da suicida! Ela tinha que tomar injeções enormes para dar sobrevida ao seu coração. Por isso, nos momentos em que se sentia um pouco melhor, a jovem tocava piano para um rapaz esquizofrênico e muito bonito, e surpreendia-se com um grupo de loucos que se autodenominava de “A Fraternidade” – eles já estavam curados e se recusavam a sair do hospício. Veronika queria falar com aquele grupo e pedir-lhes ajuda para auxiliá-la a morrer tomando mais comprimidos, mas era muito difícil aproximar-se deles. Os “loucos” jamais interrompiam o que lhes dava prazer somente para ser simpáticos com estranhos.

Vaninha: para saber o que acontece com a desventurada Veronika, nossa “rosa de gelo” da história, e ler as intervenções xeretas das criaturinhas fantásticas, aguarde a segunda parte deste ensaio da Magalena. O tema abordado: “loucura”, é responsável muitas vezes pela inclusão ou rejeição social – e aqui no Espaço ECOS, nós lutamos com todas as letras para defender “a literatura como meio de inclusão social”.

Continua...

Madalena Barranco

Bibliografia:

Livro “Veronika decide morrer”, de Paulo Coelho, Editora Objetiva.

Com a participação especial das criaturas fantásticas do blog “Flor de Morango” da Madalena Barranco.

Visitem também o espaço dos escritores convidados (colaboradores) do Canal Imaginário e leiam suas histórias fantásticas. Obrigada!

Madalena Barranco, 41 anos, escritora paulistana, escreve prosa & poesia, temperadas com fantasia. Dedica sua produção aos leitores dos 8 aos 108 anos, pela manutenção da fantasia na literatura.


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