Imaginário - Textos

Rosas de Gelo - Parte 2
Madalena Barranco

“-(...) A loucura é a incapacidade de comunicar suas idéias. Todos nós já sentimos isso. (...) de um jeito ou de outro, somos loucos.” Paulo Coelho.

Magalena: já que todos eram loucos mesmo, então, no hospício Villete, Veronika não se importou em tocar piano a altas horas da noite, e ela teria que caprichar, porque só tinha alguns dias para viver. Às vezes a garota sentia pontadas no coração e achava que não passaria daquele dia. Sem perceber ela se agarrava aos seus últimos dias de vida, e aproveitava para fazer tudo o que não fizera e desprezara em vinte e poucos anos, nas limitadas dependências do hospício. Um dia em que Veronika sofreu uma terrível crise e foi parar na sala do Dr. Igor, seu psiquiatra, ele a observou e pensou consternado que o “Vitríolo” – o vírus da amargura ainda não a abandonara...

Gnomo Verde: oh, oh, Magalena, lembre-se de contar sobre o amor que Veronika começou a sentir pelo rapaz esquizofrênico que adorava vê-la tocar piano. Sou o gnomo da esperança e adoro essa parte do livro! A moça de olhos verdes, aquela noite tocou com toda sua alma e depois amou-se em frente ao rapaz como nunca havia feito. Ela foi além do que sabia ser... E o esquizofrênico sentiu vontade de sair do isolamento do seu mundinho e provar a ternura que o planeta azul de Veronika, a garota que ia morrer, lhe oferecia.

Dona Maria Fantasia: e o mundo dos loucos deixou os loucos mais loucos ainda para festejar cada minuto de suas vidas como se fosse o primeiro, permitindo-se não somente sonhar, mas materializar seus sonhos até personificá-los, em um mundo em que precisariam amar e sofrer, para sentirem-se vivos... Tudo por mim! (Maria Fantasia, claro!) Contudo, amigos, perdoem-me a interrupção, porque isso ainda é utopia.

“- Estou curada?”

“- Não. Você é uma pessoa diferente, querendo ser igual.”

“- É grave ser diferente?”

“- É grave forçar-se a ser igual: provoca neuroses, psicoses, paranóias. (...) isso é forçar a natureza, é ir contra as leis de Deus – que, em todos os bosques e florestas do mundo, não criou uma só folha igual a outra.” Paulo Coelho.

Gnomo Verde: eu conheço profundamente a natureza de uma floresta. O Grande Gnomo Vermelho fez uma flor para cada ser vivo. As mais belas, porém mais complicadas, são: as rosas! E esta Veronika é uma raríssima “rosa de gelo”!

Bruxauva: é óbvio que sim! Se Veronika não descobrir a tempo a energia do gerador para manter o gelo vivo, sempre translúcido e belo, ela derreterá. Hehehe! Porque esse último trecho do livro, acima, não aconteceu com a Veronika, não!! Foi com a personagem Mari (também interna do hospício), quando ela tinha sua última conversa com o psiquiatra antes de decidir deixar o hospício para ganhar o mundo!

Magalena: continuando... No dia em que a garota deveria morrer, ela desapareceu do hospício e o esquizofrênico também. Os loucos achavam que a jovem estava morta e sentiram uma pontada de vontade de viver. Afinal, eles não estavam condenados a uma semana de vida. Os loucos tinham maiores chances do que Veronika. Pena que isso não durou muito... Ao lerem o bilhete que uma das internas, a Mari, lhes deixou antes de sair afirmando-lhes que tanto no hospício como além de suas muralhas a vida era exatamente igual, os loucos passaram a acreditar que Mari havia de fato: enlouquecido! Naquele fatídico bilhete ela lhes revelava que em todos os lugares as pessoas se reuniam em grupos, criavam muralhas e não deixavam que nada de estranho lhes perturbasse a existência.

Gnomo Verde: mas a sementinha de esperança foi plantada pelo escritor Paulo Coelho! E enquanto isso, a dupla formada pelo ex-esquizofrênico e a ex-suicida se divertia incondicionalmente como o mais louco e apaixonado casal de namorados. Veronika queria viver com amor seu último dia de vida... E graças à força da vida a rosa de gelo não derreteu. O milagre se eternizou no sol da manhã refletido nos olhos verdes e desmesuradamente abertos de Veronika, que adormecera e acordara aninhada em seu amor próprio, amparada pela vida e pelos braços daquele rapaz que misturava seu mundo ao dela.

“Talvez existissem outros medicamentos, mas o Dr. Igor decidira concentrar sua tese no único que tivera a oportunidade de experimentar cientificamente, graças a uma menina que entrara – sem querer – em seu destino.”

“Aplicando um remédio conhecido como Fenatal, conseguira simular os efeitos dos ataques do coração. Durante uma semana, ela recebera injeções da droga, e devia ter ficado muito assustada – porque tinha tempo de pensar na morte, e de rever sua própria vida. Desta maneira, conforme a tese do Dr. Igor (“A consciência da morte nos anima a viver mais”, seria o título do capítulo final do seu trabalho), a menina passou a eliminar o Vitríolo (a amargura) de seu organismo, e possivelmente não repetiria seu ato.” Paulo Coelho.

Gnomo Verde: viram só como eu: a esperança verde em forma de gnomo sou vivo e contagiante?

Dona Maria Fantasia: e Veronika me deixou florescer em sua vida. Ela permitiu que sua rosa de gelo se desfizesse em lágrimas de alívio, para renascer em seguida em uma das rosas vermelhas de pétalas abertas mais bela e fantástica do planeta...

Vaninha: serão as pessoas com todas suas palavras, rosas multifacetadas de pétalas perenes e espinhos removíveis?

Magalena: quando o gelo do inverno derrete a roseira volta a respirar. Os botões brotam inspirados para conhecer o Sol. Todavia, dizem que há de fato rosas de gelo, que se perderam do jardim do Éden.

Vaninha: por isso o Espaço ECOS produz palavras para adubar todas as rosas!

Madalena Barranco

Bibliografia:

Livro “Veronika decide morrer”, de Paulo Coelho, Editora Objetiva.
Com a participação especial das criaturas fantásticas do blog “Flor de Morango” da Madalena Barranco

Visitem também o espaço dos escritores convidados (colaboradores) do Canal Imaginário e leiam suas histórias fantásticas. Obrigada!

Madalena Barranco, 41 anos, escritora paulistana, escreve prosa & poesia, temperadas com fantasia. Dedica sua produção aos leitores dos 8 aos 108 anos, pela manutenção da fantasia na literatura.


Fale Comigo

voltar