Imaginário - Colaboradores
(coordenado Por Madalena Barranco)
e Com a colaboração de autores convidados.

"NITSCHEWO"
Prof. Dr. Sílvio Medeiros

Atravesso um modesto cemitério; do alto, ao longe, avisto um pequeno vilarejo: uma capela, um casarão e uma carreira de casinhas todas iguais! Consulto minhas anotações. Endereço confirmado! Lentamente caminho e me aproximo do lugar, da casinha, no papel, indicada em rabiscos. À frente um jardinzinho, um primor, plantado na pequena morada, jardim ornado com mimosas flores silvestres. Bato palmas!

- Ó de casa!  Anuncio, feito um arauto.

Um vulto surge à porta. Ele se aproxima, e os traços, a cada passo, vão configurando o rosto da vovó Aksênia. A felicidade ancora em meu coração, quanta emoção! Finalmente eu a encontrei! Logo me reconhecendo, vovó Aksênia, com certa dificuldade acelera a leveza dos passos; ela vem ao meu encontro com olhos suplicantes de saudade. Atiro-me em seus braços, beijo-a, ambos choramos de alegria, por tanto tempo, tão longe, tão distantes... Vovó Aksênia um tanto assustada, pergunta-me:

- Criança, como você aqui chegou, quem afinal lhe acompanha?

- Ah, vovó! Uma moça, uma dama de longos cabelos ruivos e olhos violeta. No momento, ela passeia entre as árvores e os arbustos daquele bosquinho, ali, logo acima... Veja, verde, verdinho, próximo ao cemitério.

Vovó Aksênia, aos prantos, me abraça. Então, a ela pergunto:

- Vovozinha, vamos voltar para casa! A mamãe e meus titios precisam tanto de você! Quem a trouxe até este lugar?!

- Ah, meu netinho, agora não posso, não teria tempo de lhe falar. A vovó precisa permanecer por mais algum tempo por aqui. Veja ali o jardim que semeei! Enquanto recobro a saúde...

Contemplo o mimoso jardim da vovó Aksênia: gerânios em flor, rosas multicores; num cantinho: violetas de múltiplas cores, tudo a formar um mosaico amoroso.

- Vovó, eu quero uma mudinha desta rosinha, da vermelhinha...

Com frágil agilidade, vovó Aksênia corta um ramo da roseira e o deposita em minhas mãos. Então me solicita:

- Plante este raminho em seu jardim, e toda vez que contemplar a mudinha em flor, promete que reza por mim?! Solicitou-me carinhosamente a vovó com um soluço, como alguém que se diz tão além. Carinhosamente, vovó Aksênia retira os espinhos do raminho, enrolando a mudinha num lindo papel lilás clarinho e com um sorriso tristonho, apontou-me, lá para o alto da pequena montanhazinha...

- Veja meu netinho, aquela bela moça lhe acena. É hora da partida... Vovó Aksênia sussurra com a voz embargada e uma furtiva lágrima rola em sua face. Com meus dedos eu a toco, e a enxugo quando alcança seus lábios.

- Não, vovó, me deixa ficar aqui. Quero conhecer a sua casinha!

- Não, meu netinho. É hora de partir. Você mostrou-se valente vindo até aqui me visitar. Agora vá, veja! A bela moça começa a ficar um tanto impaciente...

- Quero um abraço e um beijo, vovozinha querida!

Então, num reticente impulso, vovó Aksênia me guarda com carinho em seus braços. E ela se põe a me contemplar. Talvez procurando identificar traços de algum filho - do amado vovô?! Os carinhosos olhos de vovó recomendam então, que eu envie feito arauto, abraços, carinhos e beijos à minha mamãe e aos meus titiozinhos.

- Vovó, assim de perto a senhora é tão bonita! Mais bela ainda do que as fotos apresentam. Prometo montanhas, maiores do que aquela, de abraços e beijos para a mamãe, para meus titios e para meu querido vovô Manoel. E insisto:

- Vovó, me deixa ficar. Eu poderia partir amanhã junto à aurora.

- Não, meu netinho, acompanhe a bela moça. Ela é filha do crepúsculo. Veja que belo poente! Agora retorno a tecer algumas roupinhas para as criancinhas deste lugar. À sua mamãe ensinei todas as lições da boa e da bela costura. Num futuro vejo algo melhor para todos nós, em algum tempo, num belo lugar. Vai, então, meu netinho, já é hora. “Nitschewo”...

- Adeus, vovó Aksênia!

- Adeus, meu netinho!

- Sigo montanhazinha acima... “Nitschewo”; palavra e som riscam minha memória. Ao poente, como a vovó indicara, me aproximo da bela moça; dos seus dedos escapam os últimos raios de luz. Ornada de purpúreo véu, uma brilhante tiara de ouro lhe ampara os longos cabelos... Levemente alaranjados. Radiante cabeleira ruiva ao vento; olhos azuis violeta. Uma deusa?! A mão é macia, delicada feito veludo... Então, em suave tom, me solicita a fechar os olhos. Eu os fecho. Tenho a sensação de uma viagem no tempo.

- Ó tempo, tempo, tempo! Rumo a jornadas, em algum lugar, em algum tempo futuro...

Prof. Dr. Sílvio Medeiros

NOTAS DO AUTOR:

1) Vovó Aksênia Schawirin nasceu em 1909, em Moscou, Rússia. Devido às convulsões sociais da ocasião, a família Schawirin migra rumo à cidade de Tblissi, na Geórgia, sul da Rússia, ao norte do Irã. Vovó Aksênia, aos 6 anos, dialogou com o líder revolucionário Lênin, amigo da família Schawirin. Uma mensagem percorre toda a Geórgia: “Há um país distante, chamado Brasil, um autêntico paraíso”! Junto à família, vovó emigrou rumo ao Brasil, em 1916, devido às devastações promovidas pelas guerras em território russo. Vovó Aksênia amou e foi bem-amada. Morreu aos 32 anos, nos braços de uma amiga negra chamada D. Conceição, numa colônia de leprosos, em Pirapitingüi/SP, no ano de 1940. Deixou cinco filhinhos e o amado vovô Manoel de Almeida Marques [1906-1968]

2) Na madrugada de hoje, sonhei com a minha mamãe Vera de Almeida Medeiros junto à minha mamãe-vovó Aksênia Schawirin. Quantas saudades!

Prof. Dr. Sílvio Medeiros, escritor profissional e poeta, de Campinas/SP, é: historiador pela "Pontifícia Universidade Católica de Campinas" - PUC-Campinas; Mestre em Filosofia Política pela "Pontifícia Universidade Católica de Campinas" - PUC-Campinas;. Doutor em Filosofia e História da Educação pela "Universidade Estadual de Campinas" – UNICAMP. Possui inúmeros escritos, alguns já editados, outros a serem editados em: http://www.recantodasletras.com.br/autores/silviomedeiros; http://www.leialivro.com.br e em seus blogs: Imprimis http://imprimis.arteblog.com.br e Arquivinhos http://arke.blog.terra.com.br .

Nota de Madalena Barranco: neste conto aureolado de fantástica saudade, os sonhos atravessam o portal do crepúsculo e se tornam uma viagem interdimensional através de uma dama dourada. Meu amigo Sílvio Medeiros foi hóspede brilhante de meu antigo site de “Prosa e poesia fantásticas”, junto com seu irmão, talentoso escritor e poeta Fernando Medeiros, que também é escritor convidado deste Canal Imaginário. O Prof. Dr. Sílvio, que é filósofo natural, pelo modo com que expressa a vida através de seus textos, traz os ensinamentos dos mestres gregos do passado e adapta-os à sua arte de escrita e poética, em um misto de lirismo & história, patente em seus artigos, ensaios, poemas e contos.

 
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