Imaginário - Textos

Sonhos de Água & Sal (parte 1)
Madalena Barranco

Dona Fantasia: Magalena! Antes que você pegue outro livro e guarde esse na estante da biblioteca, ouça-me. Sente-se aqui perto da janela e veja a serra da Cantareira. Observe como é extensa e muda de cor ao final da tarde - fica verde-azulada assim como um mar de hortelã. Sinta as folhas dos eucaliptos marulharem com a brisa, que nesse momento invade seu escritório e abre as páginas do livro que tem nas mãos. Escreva!

Naquele momento, o gnomo Verde, fiel escudeiro da dona Fantasia, acordou da sesta.  Curioso, tirou os cabelos de capim-limão que lhe caíam sobre os olhos da mesma cor, saltou do vaso de lírios da paz onde vivia e foi assuntar o que acontecia no escritório.

Magalena: eu ia deixar para outra vez, mas... Você, dona Fantasia, quebrou minha razão e me deixou sentir o quanto nós, leitores, devemos a esse navegador brasileiro, que nos brinda em seus livros com o relato de suas viagens pelos mares, cruzando montanhas de icebergs...

Gnomo Verde: o que tem a ver folhas adocicadas de hortelã com a água do mar? Eu sou um ser elemental da terra e temo a água...

Bruxauva: bah! Você ainda está verde de sono, seu gnomo distraído! E você, Magalena, será que ainda não viu que a dona Fantasia lhe hipnotizou com o balanço do mar de folhas?? Esse escritor-navegador a que vocês se referem não é dos meus, pois, até agora ele não encontrou o monstro marinho com olhos cor de pântano dos meus melhores pesadelos...

Magalena saiu do encantamento momentâneo sem perder a sensação daquela brisa de aventuras temperadas com sal marinho, e abriu o livro de AMYR KLINK, “Mar Sem Fim”, enquanto as três criaturas fantásticas aguardavam a leitura, mal disfarçando a ansiedade.

Amyr Klink conta-nos sobre sua viagem de 360º de oceano livre, onde ele deu a volta ao mundo na base circumpolar contornando a terra pelo sul. Ele iniciou a viagem em Paraty, no Rio de Janeiro, e retornou ao mesmo ponto em aproximadamente quatro meses, apenas parando na Geórgia do Sul e na estação brasileira, com seu fiel navio Paratii, com o qual já navegara em outras viagens. Daquela vez o risco seria alto e Amyr foi obrigado a preparar a viagem por mais de um ano. Seu sonho apenas poderia se concretizar quando chegasse sua encomenda do mastro do navio. O mastro novo era o principal elemento, jamais ousado por outros navegantes, ao qual Amyr lhe atribuía qualidades milagrosas, ou em suas palavras: “o tônico da longevidade – uma solução mágica”. Seria o equilíbrio em defesa dos ventos gélidos e inclementes do pólo sul, em forma de estranha cruz plantada no convés.

E Amyr Klink se deixou guiar pelas águas, a princípio quentes da costa de Paraty e depois geladas na medida em que avançava para o sul. Após cruzar o meridiano de Greenwich para o hemisfério oriental, aconteceu algo inusitado. O navegador adormeceu além do pequeno período que poderia e quando acordou quase perdeu o sonho circumpolar para a realidade de um naufrágio, onde o navio havia se desviado por milagre de um iceberg.

Se fui salvo por Deus não posso dizer. Não gosto de pensar assim. Mas certamente Deus deve ter preocupações maiores do que a de salvar barcos cegos ou navegadores que dormem demais em latitudes tão isoladas”. Amyr Klink.

Dona Fantasia: fui eu que salvei o sonho do Amyr e soprei o vento a seu favor, assim como eu sempre faço com os sonhos das pessoas que se lembram de minha existência.

Sereia Algalinda: splash! Fui eu e não você, sua dona Fantasia de água doce... Pois encantei-me com aquele imponente mastro e o charmoso navegador.

Porém, a sereiazinha que surgira inesperadamente da torneira da pia da cozinha, estava tão rouca que ninguém a ouviu... E sequer viu!

Na ilha de Grytviken, na Geórgia do Sul, antigo porto baleeiro e atual cidade fantasma, Amyr Klink sentiu a terra firme em sua esperança, onde foi recebido por um casal de velhos navegadores, os Carr, que viviam sua fantasia de habitar aquela ilha deserta e paradisíaca.

Gnomo Verde: ai, eu já estou enjoado de navegar nessa aventura. Quanto mais a Magalena conta, mais tenho certeza de que meu lugar é na terra. Para mim esse tal de mastro do navio se parece a um antipático espetinho para assar gnomos amotinados.

Bruxauva: se você não fosse um gnomo insosso, até que não seria uma má idéia...

Amyr Klink faz o leitor reviver suas aventuras nas águas, tornando-o um dos melhores contadores de viagens marítimas. Nesse livro podemos ver as raras baleias azuis e outros seres marinhos, assim como o beijo de um casal de pingüins-rei retratados pelo autor não somente em imagens, mas também em palavras. E foi assim que o autor “furando a neblina outra vez, cruzando, às vezes, com flocos de neve vindos do sul”, ele realizou sua fantástica aventura, que o fez ser poeta ao atravessar a passagem de Macquarie do hemisfério Oeste a caminho de Paraty, cantarolando o seguinte:

- “Oeste na janela, metade na panela! Viva o Ocidente! Não tenho dor de dente!...” Amyr Klink.

Magalena: esse trecho do livro que reproduzo a seguir, tornou-se para mim o coração da narrativa:

Bruxauva: CORTA, CORTA! Magalena, será que você se esqueceu que havíamos combinado publicar ao redor de 6.000 caracteres por coluna? EU quero ser LIDA. A minha fantasia de existir como bruxa precisa ser alimentada com leituras... E cortando agora, você deixa o leitor curioso... Hehehe!

Continua na próxima coluna...

Madalena Barranco

Bibliografia:
Livro “Mar Sem Fim” de Amyr Klink, editora Companhia das Letras, 2000.
Com a participação efetiva da turma das criaturas fantásticas do blog Letras de Morango, da Madalena Barranco.

Madalena Barranco, 41 anos, escritora paulistana, escreve prosa & poesia, temperadas com fantasia. Dedica sua produção aos leitores dos 8 aos 108 anos, pela manutenção da fantasia na literatura.


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