Imaginário - Textos

Sonhos de Água & Sal (parte 2)
Madalena Barranco

Vaninha: eu estava aqui... Quietinha cuidando do Portal Vânia Diniz e do Espaço ECOS, algo que eu adoro fazer, porque para mim, a literatura como meio de inclusão social me faz respirar melhor na cadência feliz das letras cultivadas com carinho, quando aconteceu algo estranho. Eu ouvi um barulhinho velho conhecido meu, da época em que eu morava no Rio de Janeiro: as ondas espumantes do mar quebrando na praia. Aí, curiosa, vim para o Canal Imaginário para saber por que o mar havia invadido o mundo virtual! A Maria Fantasia me recebeu com alegria, enquanto as nadadeiras de uma sereia que se dizia Algalinda me saudavam; um gnomo Verde me cumprimentava com as orelhas pontudas; e uma criatura esquisita, que se parecia a uma bruxinha de mil anos acenava para mim com o livro de Amyr Klink nas mãos. O mais curioso é que as quatro personagens estavam dentro de um bote que as ondas haviam trazido para o Imaginário... Nisso, surgiu a Magalena de dentro de um castelo de areia despedaçado. Ela estava e completamente sem jeito e ruborizada pelas travessuras de suas criaturas fantásticas e também pela sua demora em aparecer no ECOS... Aí, animou-se com o sorriso da querida Vaninha e continuou a contar seu “Sonhos de Água & Sal – parte 2”.

Magalena: esse trecho do livro que reproduzo a seguir tornou-se para mim o coração da narrativa:

(...) O Paratii foi cercado de forte ardentia. Noite escura, céu cinzento, nada de lua, a esteira de espuma ganhou luz como nunca antes eu vira. Flocos e cristais de espuma, todos os movimentos brilhavam na luz esverdeada. Os paredões escuros de água abaixo das cristas iluminadas confundiam-se com o céu negro. Eu tinha a impressão de navegar no espaço, em meio à luz de estrelas e cometas. Não importa quantas vezes um sujeito assista, não é possível deixar de embriagar os sentidos com o espetáculo do céu transformado num espelho tridimensional do mar iluminado. (...)” Amir Klink.

Maria Fantasia: com esse “quadro” navego em sonhos de água & sal, simplesmente pelo prazer de deixar-me levar pelas ondas da imaginação, apenas mantendo uma pontinha da alma atada ao mastro da realidade.

Magalena: há livros que são feitos de água & sal, onde havemos de descobrir-lhes o segredo de fluir pelas letras ondulantes sob as estrelas no céu refletidas.

Naquilo, Magalena reparou que o gnomo Verde tremia de medo do oceano. Então, ela levantou-se para oferecer-lhe uma tigela de sopa de cenouras quente e escorregou numa poça de água. Se não fosse pela Maria Fantasia que a amparou, ela teria voado para a realidade da dor. Foi aí que Magalena viu a responsável pela poça... Uma sereiazinha de dez centímetros sorria meio sem jeito, enquanto batia as nadadeiras como se fosse o leme do Paratii.

Sereia Algalinda: oh, é que o assunto de sua coluna me fez viajar até aqui... Não se preocupe, pois fora do mar eu não posso cantar. Não ofereço perigo. Além do mais estou rouca – a cidade de São Paulo me deixa com faringite e minha viagem pelas tubulações de água doce tirou-me todo o sal das cordas vocais...

Bruxauva: que sereia atrevida! Este é o território da bruxa e essa peixenta vai acabar desviando a atenção do leitor de minha belafeia e incrível e fantástica imagem de força, inspiração, etc... E aos meus mil e tantos anos de idade eu não temo as águas da vida como essa medrosa rouca. As águas é que me temem...

Sereia Algalinda: nada disso – eu jamais me compararia a você... E, continuando... Eu nadava acompanhando o Amyr Klink e até acenei para ele, mas apesar de ele estar realizando sua fantasia, o navegador estava tão condicionado às baleias que ele me confundiu com uma baleia-anã (baleia minke). Eu até vi quando o Amyr lançou âncora na baía da Estação Antártica Comandante Ferraz - a base brasileira! Ele até teria ficado por lá apreciando a hospitalidade dos comandantes Aquino e Iran se não fosse por mim.

Bruxauva: ah, claro, você finalmente cantou e ele perdeu o barco. Agora estou até gostando um pouco desta historieta marinha.

Sereia Algalinda: eu já estava rouca e contive meu canto. Então, eu silvei com muito esforço junto ao vento forte para tentar embarcar no Paratii, só que exagerei na ajuda do vento e o barco se soltou. Meu silvo apenas serviu para alertar o Amyr que o Paratii havia se desgarrado da baía. Ele saiu patinando no piso de madeira, somente de meias, mas foi contido pelo comandante da estação. Era preciso passar pelo container e vestir as roupas de sobrevivência antes de sair. Enquanto isso foi acionado o alarme para preparar o bote do resgate. Após um grande esforço despendido pelos três marinheiros, eles conseguiram alcançar o barco e Amyr pulou na popa juntamente com um dos marinheiros. O Amyr estava desesperado, se não fosse pela calma e firmeza daqueles homens da estação, o Paratii teria ido às baleias de fato...

A sereia resfolegante falava sem parar, quando foi silenciada pela Maria Fantasia, que lhe fez um sinal.

Maria Fantasia: com isso já temos uma boa idéia do que é o livro “O Mar Sem Fim”, que eu gosto de comparar a mim: “Fantasia sem Fim”, às vezes polar e outras tropical, mas sempre com uma aventura a ser vivida.

Gnomo Verde: mas, espere, não encerre ainda a coluna... É que eu queria falar sobre a última parada do Amyr Klink antes do retorno triunfal. A sereia me contou que ele parou de novo na ilha de Grytviken onde foi recepcionado calorosamente pelo casal Carr, o Harold e a Hedel! E eles lhe perguntaram:

- “Mas, filho, para que serve uma viagem dessas?”

- “Precisamente para nada, e não há de fato nada útil em viajar meses a fio para simplesmente voltar ao ponto de partida. Porém a inútil circunavegação que eu completara era a minha realização mais deliciosa. Difícil explicar. Há montanhas de inutilidades na história da humanidade, atos e obras que se tornaram importantes pelo simples fato de estarem completos, pelo modo como foram feitos, pelo símbolo que representam. Completar a viagem era a mais importante tarefa que eu tinha pela frente.” Amyr Klink.

Sereia Algalinda: e quando finalmente o Amyr aportou em Paraty, ele me viu no mar e achou que eu era o reflexo de um raio de sol... Claro, estava magérrima de tanto nadar atrás do barco e eu me parecia mesmo com um filete de hidromedusa. Aí ele disse, olhando para o brilho dos meus cabelos translúcidos:

- “Nem grego nem romano. O mar sem fim é brasileiro.” Amyr Klink.

Magalena: a “Fantasia sem fim” vive feliz em autores brasileiros, assim como nosso navegador de mares e histórias.

Naquilo, o gnomo Verde olhou para a Sereia Algalinda e achou que tinham algo esverdeado em comum. Por isso, ganhou coragem para deixar a terra e visitar o mar, que não era seu elemento, mas que a Maria Fantasia lhe permitiria, nem que fosse por um dia, ser uma criatura da água... Afinal, o gnomo Verde e fiel escudeiro da Maria Fantasia merecia férias de verão.

A agonia espuma verde-azulada, e toma conta de uma onda, que profundamente branca desponta no peito de um oceano. Madalena Barranco

FIM

Bibliografia:
Livro “Mar Sem Fim” de Amyr Klink, editora Companhia das Letras, 2000.

Com a participação efetiva da turma das criaturas fantásticas do blog Letras de Morango, da Madalena Barranco.

Acesse o texto anterior “Sonhos de Água & Sal – parte 1”.

Visitem os escritores convidados do Canal Imaginário, clicando em “Colaboradores”. Conheçam o novo convidado, o Prof. Dr. Sílvio Medeiros e seu lindo conto “Nitschewo”. Obrigada.

Madalena Barranco, 41 anos, escritora paulistana, escreve prosa & poesia, temperadas com fantasia. Dedica sua produção aos leitores dos 8 aos 108 anos, pela manutenção da fantasia na literatura.


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