Imaginário - Textos

SONHOS DE SEDA
Madalena Barranco

Nada melhor do que tomar um banho relaxante e aromático e vestir uma camisola leve, deixando o tecido suave com lindas estampas deslizar nas vias da pele. Ângela se rendia a esse mimo depois de um dia estressante. Preparou o ambiente do seu quarto com algumas velas coloridas, deixando-o à meia luz. Deitou-se sobre os lençóis macios e almofadas de lavanda, e abriu o peito convidando-os a entrar. A brisa que soprava entre os babados da cortina esvoaçante tornava o ambiente mais delicioso ainda. Tentando disfarçar a emoção, sentiu quando eles lhe acenaram. Os danadinhos já estavam lá há um bom tempo e ela ainda não tinha percebido. Começaram seu fantástico trabalho pela parte que ela mais gostava. Beijaram-lhe as pálpebras semicerradas e desvelaram seu olhar imaginário. Logo, esconderam-se nas dobras sedosas da camisola causando-lhe um friozinho no estômago. Como ela não os rejeitou, eles foram ganhando intimidade e começaram a deslizar pelas rendas do decote pulando de repente em seu coração, que bateu descompassado com o gesto atrevido. Envolvida pelo deleite, ofereceu-lhes as costas e eles pareceram gostar mais ainda. Pularam e dançaram massageando-lhe as espáduas doloridas e foram deslizando até alcançarem a parte mais macia e despencarem de cansaço, adormecendo então entre as almofadas acetinadas de Ângela, que também não resistiu às emoções e entregou-se ao sono profundo.

No entanto, como sempre acontece ao amanhecer, a mulher despertou. Contrariada, tirou a seda para vestir o jeans. Ao sacudir a camisola, viu que as estampas dos anjos que brincaram com ela à noite se soltaram e foram parar no chão. “Ainda não acordaram”. “E eles somente devem se animar quando eu estiver adormecida”. Pensou Ângela. Pegou-os um a um com uma pinça dourada e acomodou-os delicadamente de volta na camisola. Em seguida, ninou um desavisado que bocejava pendurado na renda do decote devolvendo-o ao mundo da fantasia. Assim, ela dormiria sempre em boa companhia com os anjos dos seus sonhos.

Madalena Barranco

Bruxauva: por que não poderia ser uma camisola pintalgada de bruxinhas? Afinal, isso está mais parecido comigo do que com anjos dorminhocos!

Maria Fantasia: ora, dona bruxa, se você olhar bem, verá que também está no conto da Magalena. O que conta é a mensagem: despertar os seus sonhos e acreditar em seus anjos. Eles, de fato, e com os poderes de toda nossa fantasia real, existem!

Madalena Barranco, 43 anos, escritora paulistana, escreve prosa & poesia, temperadas com fantasia. Dedica sua produção aos leitores dos 8 aos 108 anos, pela manutenção da fantasia na literatura.


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