


Menina
de Rua
Maria Anatercia
Menina de rua tão linda e carente
de afeto e de pão, que ia e que vinha
na rua escura e deserta, no fim
de uma tarde de calor intenso,
tarde de verão. Não deveria ter
mais de 6 anos, um pouco menos,
talvez, aquela menina tão linda,
que ia e que vinha de uma esquina
a outra, parecia faceira. Igual
a qualquer uma que para a escola
se dirigisse, não estava maltrapilha,
limpa e bem cuidada, a diferença
era óbvia a tristeza de seu olhar.
Aproximou-se do carro parado,
sorriu, um sorriso singelo, angelical.
Parada ficou. Sorria e esperava.
Havia um pedido em seu olhar de gazela
assustada, mas nem uma palavra falou.
O silêncio era um protesto, imperceptível.
seu jeito de ser rebelde, a maneira de não
compactuar com a miséria e a fome
que a obrigavam a mendicância, com
tão tenra idade. Já não tinha opções
seus direitos violados, não tinha escola,
amigos, tão pouco, bonecas nem diversões.
Dentro da alma a revolta, nos lábios o sorriso.
Já sabia disfarçar. Foi isto que lhe ensinaram.
Nunca diria a frase maldita:
- Moço uma esmola. Isso jamais, ouviriam.
Preferia o castigo a trair sua dignidade,
único bem de criança carente sim, mas que,
no íntimo, sabia não ser ali o seu lugar.
Quando a moeda em suas mãos caiu
correu em disparada para bem longe,
não queria que, em seus olhos vissem
a dor da humilhação de uma menina de rua
que tinha belos sonhos lá fundo do coração.
Maria Anatercia Arraes Schilke.
Filha de Joaquim do Monte Arraes e Maria Mercês Libório Arraes.
Nasci em Pio IX, PI, em 07.05.1935.
Aos dois anos vim para o alto sertão nordestino, no Ceará. Sou cearence de coração.
Sou normalista. Lecionei durante 5 anos como professora da Bahia e no Senac em Fortaleza.
Morei no Rio de Janeiro onde fui bancária, por 25 anos.
Agora aposentada, moro em Santa Catarina. e comecei a escrever.
Já publiquei 5 livros de poesia, contos e a biografia do Walter, meu esposo.