
Ensaios
Vânia Moreira Diniz
Estímulo
Creio
que não haja nada mais importante para conduzir a vida ou o trabalho do que o
estímulo. Muitas vezes as pessoas perdem muitas oportunidades justamente porque
falta esse elemento importantíssimo. Elemento esse que é a base talvez
primordial da vida.
Conheci
alguém cuja saúde estava seriamente comprometida. Sua doença se deu numa época
em que tinha passado por complicações de ordem afetiva. A relação com a
mulher que ele amava estava podemos dizer “mornas” o que é a pior
temperatura para o amor. E ele se encontrava á beira de um colapso nervoso. Em
conseqüência sua produção profissional carecia de força e entusiasmo e
trouxe danos quase irreversíveis.
Seu
rosto de traços bonitos estava pálido e desanimado dando a impressão de falta
de vida e proporcionava uma sensação negativa para quem o olhava. Sempre fora
bonito sem ser considerado como tal porque seu semblante estava continuamente
sombreado pela tristeza e negatividade.
Quando
o conheci achei-o no mínimo estranho. E imaginei que era um desperdício um
homem com uma aparência imponente estar sempre tão desestimulado.Sua mulher
era bonita e extremamente charmosa. Chamava a atenção não só pela beleza
como pelo seu modo gentil e a vivacidade do gênio exuberante. Ao contrário do
marido delirava por pequenas coisas e tudo a levava realmente a vibrar. Era
agradável sua companhia tanto quanto desanimadora a de Roberto. E ela já não
conseguia empreender nenhum esforço para animá-lo. Estava cansada de reiniciar
sempre.
O
advogado estava habitualmente doente, e havia se submetido a vários exames
com resultado negativo mas começou a ter problemas na coluna. Chegou a
ponto de não conseguir andar. Foi internado, mas a verdade é que ninguém
sabia o que ele tinha. Os médicos realmente estavam admirados com aquela
paralisação repentina e esquisita. Havia se separado de Luiza e sabido que ela
estava bem com outra pessoa e isso o fizera ainda mais amargo. De uma amargura
que consumia sua saúde e seu ânimo. Finalmente com fisioterapia e um
tratamento à base de relaxantes voltou a andar.
Por
acaso conheceu Márcia numa pequena reunião que promoveram seus amigos. Arredio
a princípio deixou-se pouco a pouco se envolver pelo encanto da moça até que
ficou realmente apaixonado. Ela soubera conquistá-lo. Restava concluir se com o
gênio esquisito conseguiria manter aquele romance que tendia a se transformar
num caso de amor.
Quando
o encontrei nessa época vi que seus olhos brilhavam o que jamais havia ocorrido
e comentei feliz:
-
Roberto, como você está bem! Parece que está começando a realmente viver.
Olhou-me
com a antiga falta de entusiasmo
expressa até nos gestos lentos
-
Será? E se tudo acabar?
-
Não acontecerá. Mas se ocorrer você viveu! É muito importante. Por que está
constantemente achando que nada dará certo?
-
Fui criada numa família estranha, Vânia. Minha mãe sempre me dizia que era
melhor que eu não esperasse que as coisas dessem certas, pois assim eu não me
decepcionaria.
-
Roberto, mas isso foi horrível, desculpe-me. Vocês não tinham direito de se
estimularem por um acontecimento, depositando fé e acreditando em seu sucesso?
-
É exatamente assim. Agora que estou vendo que estava tudo errado. Márcia
praticamente está me ensinando a ver a vida de modo diferente.
-
Graças a Deus! Mas de vez em quando você tem umas recaídas. Embora seja
natural porque o estímulo não deixa de ser um treinamento.
-
Sim, estou tentando me conscientizar que a vida tem seu lado bom e estimulante.
-
Além disso, você tem a seu lado o especial ingrediente do estímulo: O amor. Não
precisa fazer tanto esforço para enxergar isso, Roberto. Márcia não está
apenas lhe ensinando está ali, exemplo vivo.
Roberto
sorriu e pude entender por sua luminosidade que jamais vira em seu rosto, pela
declaração esperançosa que revelava em palavras sinceras, e a espontaneidade
daquele depoimento o valor intransponível
e valoroso do estímulo.
Vânia Moreira Diniz