
Textos em Prosa
Fahed Daher
Mulher de Feijoada
- Moça! Sessenta reais é muito pra mim. Ganho salário. Já estive no “nps” e marcaram a consulta do meu filho pra março do ano que vem. Não posso esperar mais seis meses.
- Pois não! A senhora pode pagar vinte reais?
- Ah! Isto eu posso.
- Então aguarde que a senhora vai ser atendida.
- Moça! Demora muito? Eu tenho pressa. Tenho de esperar depois destes ai?
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- Entre . Quem é o paciente? A senhora ou o menino?
- O menino, dotor”” . Ele está com o olho “” anuviado” e eu não sei o que é.. Esteve no “nps”e me receitaram este colírio.
- Ótimo. Menino(era um menino de 14 anos, parrudo...) sente alí na cadeira dos exames.
Uveite . Sinéquias da iris no cristalino.. Caso já evoluído. Primeiros cuidados.
Fazer midriase para livrar a pupila. Aliviar a dor. Medir a p.i.o.
Receitar
- A senhora volte com o menino depois de amanhã.Leve este colírio e use cedo, à tarde e à noite. Esta medicação da receita vê se encontre no inps
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- “Dotor” O menino não sarou. Ainda queixa que não enxerga.
- Por certo, minha senhora. O tratamento deste tipo de doença é demorado e exige muito cuidado. O tratamento está ainda no começo.
Revisão. Lâmpada de fenda. Ainda alguns pontos de aderência da Íris no criatalino. Mais algum curativo na clínica. . Marcado novo retorno.
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- Dr. Está ai aquele menino que o senhor atendeu há mez e meio com o caso de uveite. A mãe diz que ele continua doente.
- Mas eles sumiram tanto tempo.Que será que fizeram pois deveriam ter retornado com mais quatro dias... Faça-os entrar.
- Pois é,”dotor”. O menino não está bem.
-Mas a senhora deveria voltar com quatro dias e está voltando depois de mez e meio?!...
- Eu fui no “dotor” “Fulano” gastei duas “consurtas” e ele me receitou este remédio...
- Calma, minha senhora. Assim não dá. Ou a senhora trata com o dr. “Fulano “ou trata comigo. Duas cozinheiras na mesma feijoada estragam a comida.
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Novos tratamentos, curativos, marca de retorno.
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- Dr. Está ai na sala de espera a mãe do garoto da uveite. Quer falar com o senhor.
- O paciente está com ela? Foi atendida ontem. Disse o que quer?
- Não, apenas insistem em falar com o senhor.
- Mande entrar.
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Lá aparece ela na porta da sala de consulta, quase violenta e furibunda, falando em em voz alta:
- O senhor me ofendeu. Me chamou de mulher de feijoada. Eu não sou mulher de feijoada. Só porque sou pobre pensa que pode me ofender... Isto não vai ficar assim.. e blá....bla...bla...
Tentei dialogar. Foi impossível.
Estava transtornada.
Passei para outra sala e a deixei falando sozinha até que esgotou o repertório e se retirou batendo os ‘pés.
Destino do olho do “menino”?
Não sei. Nunca mais vi.
Fahed Daher- 02 de outubro de 1.997 08 horas