
Textos em Prosa
Fahed Daher
Um Pequeno Conto ...De Verdade
– Leonilda chame o próximo!
Lá entrou o senhor .Pouco mais de meia idade,vestido nos hábitos das pessoas de vivência rural,mão esquerda sobre o olho esquerdo, como que protegendo-o.
– Por favor, o senhor sente naquela cadeira. Baixe a mão, por favor. Assim!. Olhe na minha direção.
– Não consigo, dotor!””
– Pois não! Vou instilar uma gota de colírio anestésico ,talvez ficará mais fácil para o senhor.
– Arde,” dotor”!”
– Que tal? Melhorou?
– Sim! Agora posso abrir os olhos!
Examinei. Lâmpada de fenda. Luz oblíqua. Opacidade da córnea. Úlcera central crônica.
Curativo. Dilatação da pupila. Receita.
– Volte amanhã para novos tratamentos.
Voltou. Curativo sujo.
– O senhor esfregou este olho?
– Não! De jeito nenhum.
Mas tudo indicava que tinha esfregado o olho.
Curativos. Limpeza. Medicação.
-Volte na segunda feira por favor.
Retorno. Nada de melhora. Ainda alguma dor.
Nova medicação. Curativo.
– Volte na próxima semana.
Nada de melhora.
– Acho que deveremos interna-lo para tratamento intensivo
– ”Dotor!”Não tenho condição de internamento. Sou aposentado e não posso pagar.
– Vai pelo INPS.
– Não “dotor”. Vamos tentar mais um pouco.
Passou-se um mez e nada de melhora no tratamento. Estava ficando desesperado, cuidados, curativos, antibióticos, cultura microbiana, testes de sensibilidade a antibióticos...
Numa das idas a mandaguari, na volta paro em jandaia, num dia de muito calor, disposto a tomar um refrigerante.
Paro o carro. Desço. Tomo meu refrigerante. Sinto um alívio na sede.
Ao sair olho para o lado e avisto o meu cliente do tratamento da úlcera de córnea, sentado em um tosco banco de madeira fora do bar.
– Alo seu João!
– Ah! É o “dotor”
O homem passou o dedo na boca , juntou um punhado de saliva e esfregou no olho doente.
– Seu João! Assim não pode! O senhor está pondo cuspo no olho doente?...
– Ah! “Dotor!” Assim sinto o olho refrescar.
– Mas não pode. Assim o senhor está infectando seu olho e por isto já estamos tanto tempo tratando e não conseguimos curar seu olho.
Voltou ao consultório uma semana depois. Esclareci a ele e ao parente que o acompanhou.
Dez dias depois estava curado.
Tinha parado de cuspir no olho.
Na ocasião lembrei-me do meu sábio pai que dizia o que na escola eu não entendia:
- Meu filho! Médico não cura ninguem. O doente é que se cura, se souber entender e atender as recomendações do médico.
FAHED DAHER- Médico. Apucarana 1.993