Fahed Daher

Num Hospital De Recuperação

            Hora da entrevista.  Os que estão em atendimento com a psicóloga Marta, sigam para a sala 03 no primeiro andar.

            =Esta chatice! Comentou o Herculano ao grupo com o qual mantinha conversa animada e contava piadas, alegremente.

-          17 dos membros do grupo se deslocaram desordenadamente  pelo pátio, atravessando a seguir porta de ferro, onde estava um vigia e, seguindo pelos corredores, subiram as escadas e se alojaram nas carteiras da sala, entre zum zum de comentários  aleatórios.

-          Atras, um mulato, esguio, olhos fundos aparentando cansaço, batia ritimadamente uma caneta na carteira.

-          Não havia silêncio, as conversas eram continuação do que havia no pátio, até que entrou uma senhora jovem, descuidadamente trajada, cabelos presos  na nuca.Era a psicóloga Dna Marta.

           =Bem, meus amigos!  - Iniciou. - Porque vocês estão aqui internados? Logicamente sabem que  se trata de permanecer um período isolados do contato com as drogas, para que  tenham o raciocínio mais apurado e  com capacidade de entender  que a droga realmente parece que lhes dá um beneficio, mas que este benefício é ilusório, só do momento em que ela atua sobre o sistema nervoso e que depois vem por conseqüência a depressão.  Quando retornam ao consumo, acarretam lesões dos neurônios que podem ser irreversíveis...

           Pausa. Os internos ficavam se entreolhando  como que perguntando um ao outro onde ela pretendia chegar.

            =Algum de vocês tem alguma observação a fazer?

            = Eu tenho! _Declarou o Juarez, um mulato franzino que ali estava sentado de lado _ Eu tenho!  Muito bem, eu fico aqui trinta dias. Ficamos neste bate-papo. Eu me desintoxico em 30 dias? Ou ainda saio daqui  com a carga  do vício e na primeira ou segunda semana não consigo dominar a fissura? E se não conseguir dominar? Começa tudo outra vez? Volto aqui para a mesma preleção que escutamos hoje?

              Risos no grupo. Comentários diversos pouco tumultuados.  O funcionário que acompanha a psicóloga chama a atenção e pede silêncio. Ela retoma a palavra e prossegue:

          =  Depende muito de  você. Nós mostramos o caminho. Estimulamos e após a internação permanecemos aqui esperando vocês para o trabalho de apoio  de grupo. Vocês têm de adquirir vontade e coragem para autodomínio.

             =É! _ Interveio  o Antunes que sentava ao lado de Herculano _  Já ouvi esta preleção  e agora após seis meses estou aqui, depois de 30 dias em Porto Alegre, durante outros 30 dias.

             O hospital, um prédio antigo, assoalho de madeira, escadas de madeira, com corredor largo dando para salas laterais   nas quais se desenvolvem sessões de encontros  com psicólogos e auxiliares e onde raramente se encontra o  psiquiatra, encarregado ou dirigente dos serviços.

               Ao fundo do corredor uma porta de ferro onde permanentemente está um vigia, mais parecendo um ambiente penitenciário do que  ambiente de tratamento  de saúde.

                Após a porta um grande pátio com construção relativamente recente e  um campo vazio.

                Nesta construção, quartos onde são alojados os internos em  conjunto de dois ou três, quartos constantes de camas e armários  moveis. Sanitários comuns no corredor

               Refeitório com mesas longas, comuns, cadeira fixas  na estrutura das mesas e todas as participações dos internados  em comum, lembrando  o quartel..

                 Fora das horas das entrevistas com os psicólogos, individualmente ou coletivamente, nada a fazer alem de algum jogo de baralho, xadrez, bate-papo ao correr da cuia de chimarrão  e sem atividade física ou ocupação mental.

              Novamente o Antunes chama o assistente que permanece entre os internados e interroga sobre a presença e a assistência do médico psiquiatra, argumentando que através da maior presença dele  sentiria mais seguro o seu tratamento.

             Como resposta ouviu que o profissional atendia a mais de um hospital e tinha seus compromissos na clínica particular e suas horas de presença neste hospital eram por pequenos períodos determinados.

             O campo de futebol tomado pelo mato.

            Momentos de Apenas ócio. Risos por pilhérias ou anedotas banais.

FAHED DAHER- Médico – Apucarana PR

voltar