Encontro Com a Palavra
Milene Arder

Poética

Algumas pessoas acham que, para escrever poesias, basta dispor as frases em versos e estes em algumas estrofes, que são distribuídos pelo papel, de forma simétrica e bonitinha, apenas.

E "pronto!" está feito um poema.

Ledo engano... Fosse assim, qualquer tratado, ou até a cópia de um processo jurídico viraria um poema.

Para que um poema seja impregnado de poesia, por assim dizer, há que fazer, antes de escrevê-lo, algumas viagens ao nosso interior e ter uma "conversinha" com o nosso "eu-poético". Este dará os recursos necessários: primeiro o andaime, que é a inspiração; 

depois, o tijolo, o cimento, a areia...

Ou seja: as pequenas e necessárias técnicas que só se adquirem através de uma boa leitura. 

Isso mesmo:

LEITURA!

João Cabral de Melo Neto (Recife, 1920) diz em um poema:

"O lápis, o esquadro, o papel
fazem o sonho do engenheiro.
O engenheiro sonha coisas simples..."

Creio que o poeta, assim como o engenheiro, tem de cuidar de sua obra poética: projetar os andaimes do edifício, que será a inspiração; selecionar o material de boa qualidade para que a construção não sofra nenhum abalo, ou seja, o cuidado com as palavras, para, então, pensar no seu acabamento, que será a forma final, que vai dar realmente o efeito agradável à visão e a vontade de morar nesta obra, agora lindamente aparelhada...  O belo através do ritmo. Mesmo sem rimas, o poema necessita de musicalidade. E isto só se consegue com a escolha e combinação  adequada de cada palavra, cada verso, na harmoniosa disposição das estrofes, quando houver. Estas formarão os pavimentos do edifício, com suas janelas arejadas e seu terraço florido, a chamar os pássaros e as nuvens que, às vezes, vêm cobri-lo no seu "status" pomposo de arranha-céu... 

Só assim, a luz do sol entrará pelas vidraças,

tornando tudo florescente, num doce prenúncio

de felicidade e sorrisos, dos que ali vão habitar...

Quem não cultiva o hábito de ler, dificilmente terá em mãos os meios para construir textos.

É preciso elaborar, depois "rascunhar" as frases no papel, para não incorrer no risco do desagrado de quem lê... ou, mais ainda, de si próprio!

Sabe-se que qualquer pessoa é capaz de "tocar de ouvido" quando tem sensibilidade e gosto pela música. E toca divinamente. Mas jamais terá as qualificações do músico que levou anos e anos, aperfeiçoando-se em cada nota e ritmo.

Para construir poemas é necessário estar familiarizado com a língua e suas modalidades.

Instruir-se, para misturar à inspiração outros ingredientes valiosos que só o conhecimento do idioma e o seu funcionamento podem legar.

Claro está que o quesito maior é mesmo a inspiração, a emoção e o sentimento do autor.

Pois, não basta ter o domínio da gramática ou ser versado em tratados lingüísticos, isso não.

Há os puristas, que escrevem sem uma única falha, mas jamais conseguiram fazer um verso... Simplesmente, apenas, escrevem...

Por isso, eu afirmo, parafraseando Euclides da Cunha:

"O sertanejo é, antes de tudo, um forte". 

E eu: "O poeta é, antes de tudo, um SONHADOR...

Milene Arder
30/7/2001

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