
Ensaios
Vânia Moreira Diniz
Fé
Há
poucos dias ouvi alguém falando na mídia que de nada adianta
lutar por algo em que não se acredite. E achei interessante. Sumamente
interessante.
Hoje
as pessoas em geral são tão descrentes de tudo que se torna difícil
empreenderem alguma coisa com confiança. Houve
períodos em que isso acontecia comigo e por isso posso falar com convicção.Até
que pude entender que a fé talvez seja o primeiro requisito para o êxito e a
felicidade.
Nascemos,
crescemos, iniciamos a caminhada, amamos e temos alegrias ou decepções, mas
nada podemos realizar sem a verdadeira fé. Ela nos impulsiona de uma maneira tão
forte e definitiva que quase acreditamos estar sendo o motivo pela qual
conquistamos todas as coisas.
Compreende-se
perfeitamente a razão da desesperança numa época em que o egocentrismo, a
violência e o descaso pelo semelhante fazem desse mundo um paraíso de
inseguros e sofredores.
Não
se pensa em minorar o sofrimento de quem quer que seja e muitas vezes contribuímos
para isso pela displicência de não perceber como pessoas tão próximas a nós
sofrem por vezes inutilmente.
Aprendi
muito de fé em vários exemplos que tive em minha vida, porém um dos mais
marcantes, sem dúvida foi de uma amiga que ficou doente com um câncer e os médicos
disseram que ela tinha que cortar a perna. Era muito bonita, com traços suaves
e nobres, uma tez maravilhosamente acetinada, os olhos rasgados, verdes e
profundos e os cabelos claros e brilhantes. Durante todo o período de dúvidas
sobre a sua doença nunca
desacreditou que pudesse vir a sobreviver ilesa.
Nos
vários diálogos que mantive com ela sempre a vi com uma fé inquebrantável e
admirava aquela menina que sendo tão jovem como eu mantinha em meio à tormenta
um bom humor inacreditável. Sorrindo e deixando à mostra seus magníficos
dentes bonitos e muito claros dizia sempre com convicção:
-Eu
não vou precisar cortar minha perna. Tenho fé nisso.
Olhava-a
encantada daquela força ilimitada e muitas vezes achei que por dentro devia
estar aniquilada.
Um
dia perguntei-lhe isso e ela me respondeu com carinho:
-
Há momentos que estou arrasada. Choro. Deixo que as lágrimas me inundem. Mas não
permito que o desalento seja maior que a minha esperança. Se consentisse nisso,
Vânia estaria perdida ou já teria morrido.
Olhava-a
questionando-me como alguém com tão pouca experiência podia ter tanta força
e discernimento na dor e chegava a conclusão que tudo isso vinha de uma
estrutura de espírito e fé na vida e num poder superior.
Mildred,
como se chamava depois de um período doloroso em que todos pensavam que estava
desenganada, começou a ter uma melhora inexplicável. E para perplexidade e
alegria de todos que a cercavam conseguiu realmente recuperar-se muito
lentamente sem que fosse preciso cumprir a previsão dos médicos
sobre o corte de sua perna.
Nunca
esquecerei a expressão de seu rosto bonito quando entendeu que realmente sua fé
havia contribuído para isso. Todos acreditamos nisso. Não sei como nem porque,
mas a verdade é que a minha amiga voltou a ser a moça saudável que alegrava a
todos que a conheciam. E foi um exemplo de positividade nunca esquecido por mim.
Pouco
depois disso conversando com ela numa tarde ensolarada em que nos reunimos para
trocar nossas idéias e que eu estava com vontade de ouvi-la falar da experiência
que passara ela me disse:
-
Nunca duvidarei de nada, minha amiga. Nada. Alguma coisa me dizia que tudo
terminaria bem. Era uma certeza muito forte que não sei donde vinha, mas que eu
confiava.
Até
hoje precisando acreditar em alguma coisa me reporto com enorme ternura aquela
fase de minha vida, que foi um exemplo de convicção e certeza e fruto de uma fé
inabalável.