Dr Antonio Paulo Filomeno

A mulher ... os docinhos ... e o diabete 

Dia desses eu me encontrava matando o tempo em uma praça de alimentação de um “shopping” aguardando a hora do filme. Comecei a observar o vai-e-vem das pessoas nas diversas lojas do local. Minha atenção foi atraída para uma doceria, exatamente porque no local enxameavam (ou formigavam) diversos clientes das mais variadas faixas etárias. Até aí tudo bem. O diferencial é que todos eram do sexo feminino. Tempos depois em outro “shopping” e nas mesmas circunstâncias, tornei a observar o mesmo fenômeno, com agravantes, agora ditados pela minha maior observação. O biotipo das clientes era tendente ao sobrepeso e à obesidade. Algumas, mais jovens, para manter a forma, após ingerir uma leve salada (75 cal.) como almoço, corriam para devorar um brigadeiro (200 cal.) como sobremesa. O que está acontecendo com o sexo “frágil”? Simples! Está engordando, como resto da população e caminhando para fazer a histórica semelhança na proporção entre o diabetes masculino e feminino, tender a favor, (ou desfavor), das mulheres.

Torna-se mais preocupante o fato de que , como o alcoolismo, tabagismo e a chocolatria, existem evidências de ser genético o mecanismo de tal preferência por carboidratos.

Soma-se a isso, a observação de que as mulheres são mais resistentes à prática esportiva e sua continuidade, ganham peso extra após a gestação e no climatério, perdem peso com dificuldade e sua auto-estima é tremendamente afetada pelo excesso ponderal.

Administradoras de casa, vão às compras, escolhem os alimentos, elaboram e obviamente os provam, em maior ou menor escala. São mais chegadas a chás e lanches da tarde, recheados de docinhos e bolos, aos quais não fazem qualquer restrição, apesar de usarem adoçantes em suas bebidas. Deixam-se levar pelo aforismo: “perdido por cem, perdido por mil”, ou “quem engorda morre ... quem não engorda morre também”. O sobrepeso e a obesidade levam a diferentes graus de resistência à insulina, que pode se apresentar como intolerância à glicose e evoluir para o diabetes manifesto.

O Diabetes Melhitos Tipo-2 (D.M-2), que acomete preferencialmente indivíduos a partir da 4ª década, é a forma mais freqüente , (90%dos diabéticos) e cresce em proporções alarmantes, constituindo grave problema de saúde pública.

Estudos epidemiológicos realizados em populações específicas e isoladas como os índios Pima (México) e nativos da Ilha Nauru (Pacífico), demonstram que a mudança de hábitos alimentares associados ao sedentarismo trouxe importantes elevações nas taxas de prevalência do D.M-2 e na obesidade, atingindo níveis superiores a 25% naquelas populações.

A prevalência geral na população mundial superior a 100 milhões de casos, (30% nos E.U.A. e Europa), tende a crescer à medida que avança a obesidade, de modo que em 2010 a população diabética deve dobrar e as projeções para 2025 apontam para 300 milhões de casos.

A doença chega a atingir 17% entre os indivíduos de 60 a 70 anos. Estima-se que no Brasil existam taxas superiores a 5 milhões, metade dos quais sem diagnóstico, devendo atingir níveis superiores a 10 milhões de diabéticos em 2025.

O Diabetes compromete principalmente o setor vascular (macro e microvasculatura), que é responsável por 78% das internações e complicações da doença. O D.M-2 está intimamente relacionado à cardiopatia isquêmica, acidente vascular encefálico, hipertensão arterial e deslipidemia. É a principal causa de cegueira adquirida e amputações não traumáticas dos membros inferiores. Nos serviços de diálise Renal, 25% são diabéticos.

Estudos de Framingham demonstram que o diabetes dobra o risco de doenças cardiovasculares em homens e o triplica entre as mulheres.

Não sou contra os docinhos, mas devemos ter cuidado especial com os indivíduos tendentes à obesidade, com histórico familiar de diabetes, acidentes encefálicos isquêmicos e infartos. A doença é silenciosa e merece respeito pelo efeito devastador que provoca. 

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