Dr Antonio Paulo Filomeno
A respeito de um livro

Quando escrevi o volume I das minhas memória, nos idos de 1994, tive a intenção de resgatar lembranças da minha infância, adolescência e juventude, nas décadas de 50 e 60. Narrei fatos corriqueiros, comuns a quase todas as pessoas daquela geração, principalmente os que nasceram e viveram parte de suas vidas em cidades do interior. Achei que deveria registrar hábitos e episódios de um cotidiano que na época, não imaginava, iria se extinguir tão rápido.

A geração seguinte nascida na minha adolescência sofreu uma abrupta transformação, com a chegada da televisão, posteriormente dos jogos eletrônicos e bem depois o computador. A sociedade mudou radicalmente. As crianças abandonaram os quintais e as ruas. Brinquedos e brincadeiras foram sendo esquecidos e substituídos por outras práticas menos criativas. As cidades cresceram verticalmente na mesma proporção que a violência e as pessoas foram ficando prisioneiras de seus lares.

Hoje nas ruas, quadras residenciais ou locais de lazer raramente vemos crianças brincando de cantiga de roda, amarelinha, ou pique-esconde.

Perdeu-se a técnica do pião na unha, das acrobacias com bilboquê e da construção dos carrinhos de rodas com rolimã. Devido à violência crescente, as crianças e jovens ficaram restritas às cercanias, debaixo dos blocos residenciais ou dentro das casas e apartamentos. As brincadeiras que conseguiam se salvar, como “soltar pipa”, perderam o romantismo que consistia em vê-las subir, ziguezagueando e evoluindo em movimentos graciosos. Hoje com os fios encobertos por cola e vidro moído, elas se atacam nos céus em luta selvagem, procurando eliminar umas às outras como se fossem gladiadores em um circo romano.

 

Fiquei surpreso com receptividade do primeiro livro, e mais ainda com os comentários de amigos e contemporâneos não só em Laguna, minha terra natal, mas também em Brasília onde vim tentar a vida ainda jovem, em 1966. Referiam-se à coincidência das experiências vividas. Fiquei feliz em saber que compartilhamos daquela vida simples, intensa e feliz sem a sofisticação e o consumismo de hoje.

Este foi o grande mérito do livro, segundo minha opinião.

Somos remanescentes de uma geração de ouro, oriundos do pós-guerra, onde o mundo ansiava por paz e reconstrução. Promovemos mudanças no modelo do estilo de vida americano adotado pelos jovens da década 40/50. Começamos a valorizar nossa cultura, na música, literatura e outras manifestações artísticas nacionais. Adotamos a rebeldia, protestamos contra a presença americana no Vietnâ, fomos solidários com o protesto estudantil mundial e lutamos contra as ditadura, repressão e manutenção do modelo arcaico de ensino. Enfrentamos a sociedade “certinha” e ultrapassada. Partimos em busca de nosso destino, longe da segurança e proteção dos nossos lares. Ousamos migrar. Adotamos o lema: “- É proibido proibir”. Fomos uma geração ímpar.

É inevitável, como já disse antes, a comparação com as gerações seguintes, mais dependente da tecnologia, talvez, sem a mesma criatividade e ousadia.

Com o advento da TV e da informática, aliado à maior permissividade, os jovens tiveram acesso ilimitado à cultura, mas paradoxalmente, passaram a ler e escrever menos. A informação tomou lugar da formação. Estes resultados aparecem nos provões e testes de qualificação das escolas e universidades, nas redações, nas conversas e na maneira de falar e agir.

Muitos outros fatores sócio-econômicos e políticos contribuíram para tornar o panorama mundial e as perspectivas do futuro mais sombrias. A globalização, injustiça social, mercado de trabalho precário, aumento do desemprego, fome global, escalada da violência urbana e o império das drogas.

Mas há esperança. E em nome dela ousei escrever o segundo livro de memórias, não mais para mostrar ecos de um passado perfeito e distante, mas para talvez dar um pequeno testemunho de que, com luta e trabalho e acima de tudo, fé, pode-se construir um futuro e um mundo mais justo e melhor. Daí o título deste 2º volume: Luta e Esperança.

( a ser lançado em setembro)

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