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Quando
escrevi o volume I das minhas memória, nos idos de 1994, tive a intenção
de resgatar lembranças da minha infância, adolescência e juventude, nas
décadas de 50 e 60. Narrei fatos corriqueiros, comuns a quase todas as
pessoas daquela geração, principalmente os que nasceram e viveram parte
de suas vidas em cidades do interior. Achei que deveria registrar hábitos
e episódios de um cotidiano que na época, não imaginava, iria se
extinguir tão rápido. A
geração seguinte nascida na minha adolescência sofreu uma abrupta
transformação, com a chegada da televisão, posteriormente dos jogos
eletrônicos e bem depois o computador. A sociedade mudou radicalmente. As
crianças abandonaram os quintais e as ruas. Brinquedos e brincadeiras
foram sendo esquecidos e substituídos por outras práticas menos
criativas. As cidades cresceram verticalmente na mesma proporção que a
violência e as pessoas foram ficando prisioneiras de seus lares. Hoje
nas ruas, quadras residenciais ou locais de lazer raramente vemos crianças
brincando de cantiga de roda, amarelinha, ou pique-esconde. Perdeu-se
a técnica do pião na unha, das acrobacias com bilboquê e da construção
dos carrinhos de rodas com rolimã. Devido à violência crescente, as
crianças e jovens ficaram restritas às cercanias, debaixo dos blocos
residenciais ou dentro das casas e apartamentos. As brincadeiras que
conseguiam se salvar, como “soltar pipa”, perderam o romantismo que
consistia em vê-las subir, ziguezagueando e evoluindo em movimentos
graciosos. Hoje com os fios encobertos por cola e vidro moído, elas se
atacam nos céus em luta selvagem, procurando eliminar umas às outras
como se fossem gladiadores em um circo romano. Fiquei
surpreso com receptividade do primeiro livro, e mais ainda com os comentários
de amigos e contemporâneos não só em Laguna, minha terra natal, mas
também em Brasília onde vim tentar a vida ainda jovem, em 1966.
Referiam-se à coincidência das experiências vividas. Fiquei feliz em
saber que compartilhamos daquela vida simples, intensa e feliz sem a
sofisticação e o consumismo de hoje. Este
foi o grande mérito do livro, segundo minha opinião. Somos
remanescentes de uma geração de ouro, oriundos do pós-guerra, onde o
mundo ansiava por paz e reconstrução. Promovemos mudanças no modelo do
estilo de vida americano adotado pelos jovens da década 40/50. Começamos
a valorizar nossa cultura, na música, literatura e outras manifestações
artísticas nacionais. Adotamos a rebeldia, protestamos contra a presença
americana no Vietnâ, fomos solidários com o protesto estudantil mundial
e lutamos contra as ditadura, repressão e manutenção do modelo arcaico
de ensino. Enfrentamos a sociedade “certinha” e ultrapassada. Partimos
em busca de nosso destino, longe da segurança e proteção dos nossos
lares. Ousamos migrar. Adotamos o lema: “- É proibido proibir”. Fomos
uma geração ímpar. É
inevitável, como já disse antes, a comparação com as gerações
seguintes, mais dependente da tecnologia, talvez, sem a mesma criatividade
e ousadia. Com
o advento da TV e da informática, aliado à maior permissividade, os
jovens tiveram acesso ilimitado à cultura, mas paradoxalmente, passaram a
ler e escrever menos. A informação tomou lugar da formação. Estes
resultados aparecem nos provões e testes de qualificação das escolas e
universidades, nas redações, nas conversas e na maneira de falar e agir. Muitos
outros fatores sócio-econômicos e políticos contribuíram para tornar o
panorama mundial e as perspectivas do futuro mais sombrias. A globalização,
injustiça social, mercado de trabalho precário, aumento do desemprego,
fome global, escalada da violência urbana e o império das drogas. Mas
há esperança. E em nome dela ousei escrever o segundo livro de memórias,
não mais para mostrar ecos de um passado perfeito e distante, mas para
talvez dar um pequeno testemunho de que, com luta e trabalho e acima de
tudo, fé, pode-se construir um futuro e um mundo mais justo e melhor. Daí
o título deste 2º volume: Luta
e Esperança. (
a ser lançado em setembro) |