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Dr Antonio Paulo Filomeno
Aterosclerose: a fatalidade que espera Quando queremos chamar a atenção para um fato relevante, provar uma teoria ou simplesmente compreender um fenômeno, utilizamos dados estatísticos. A frieza dos números, na maioria das vezes nos alerta, facilita a compreensão e motiva ações positivas. Vamos fazer uma pequena reflexão e para isso vamos recorrer aos dados estatísticos, que apesar de não serem inteiramente confiáveis no Brasil, servem para nos dar uma base de raciocínio enfatizando o que queremos demonstrar. As últimas estatísticas de mortalidade no mundo mostram que: 6% da população morre de acidentes 34% de doenças transmissíveis 60% de doenças não-transmissíveis; destas, a grande parte deve-se à doença cardiovascular, motivado em primeiro lugar pela hipertensão arterial, seguida dos males derivados do tabagismo e em terceiro lugar pela obesidade e suas conseqüências. Informações do DATASUS provenientes de 1999 no Brasil apontaram as doenças cardiovasculares como responsáveis por 33,4% da mortalidade em geral. A obesidade no mundo é uma epidemia. Suspeita-se de que no Estados Unidos 50% da população esteja acima do peso normal, englobando aí sobrepeso, obesos e obesos mórbidos. No Brasil a população está engordando cada vez mais, e o pior, nossas crianças e jovens estão ficando obesos. Os pais não se dão conta, não reconhecem, não tem estratégias para impedir e às vezes até acham “bonitinho” esses pequenos futuros cardiopatas, hipertensos e diabéticos. Em alguns centros de nosso país, 35% das crianças e jovens já estão com excesso de peso. As causas todos já sabemos: erros alimentares, ignorância dos pais, falta de atividade física racional e eficaz, consumo de produtos industrializados que são verdadeiras bombas, e muitas outras coisas que poderíamos listar. O que interessa para nós é uma conseqüência chamada dislipidemia infanto-juvenil, que vem a ser a elevação das gorduras do sangue, colesterol, triglicerídeos ou ambas. Dentre os inúmeros fatores de risco para o desenvolvimento de doença cardiovascular, (hipertensão arterial, tabagismo, diabetes, sedentarismo, doença vascular periférica e drogas ilícitas), o colesterol é definitivamente um dos maiores vilões para o coração, principalmente o LDL, motivo maior da nossa preocupação. Acredita-se que a incidência de colesterol alto no Brasil já superou a dos Estados Unidos Nossos maiores cuidados, portanto deverão ser direcionados às crianças, adolescentes e jovens. Existem evidências sólidas de lesões arteriais precoces, chamadas de estrias gordurosas, nas paredes arteriais que ocorrem já em crianças de tenra idade. Estes dados foram coletados em autópsias derivadas de mortes por acidentes e causas diversas. Essas estrias são precursoras das terríveis placas ateromatosas que no futuro acabam por romper-se possibilitando a formação de coágulos e obstruções das artérias, causando isquemias, infartos e derrames (AVC). Mudar hábitos nocivos e introduzir outros saudáveis em crianças e jovens não é fácil. A adesão depende fundamentalmente de uma ação enérgica eficaz e coordenada que deve acontecer em casa com a família inicialmente, estendendo-se pela escola e comunidade. Apesar de assistirmos ao longo dos últimos anos a deteriorização progressiva do ensino e da saúde pública, devemos lutar por um programa voltado à prevenção da aterosclerose na infância e juventude. Toda a sociedade deve ser envolvida. Os pais, educadores, os líderes comunitários e religiosos, a mídia, e, principalmente as sociedades médicas e nossos legisladores. Enfim, deve ser uma discussão ampla e profunda. O resultado óbvio seria a redução de doença cardiovascular e economia fantástica de vidas e dinheiro público. Algumas experiências já foram feitas com amplo sucesso como na cidade de Bogalusa nos Estados Unidos, o maior centro de estudo e referência mundial no assunto. Estudos epidemiológicos com levantamento dos fatores de risco devem anteceder à ação. O envolvimento das sociedades de cardiologia, pediatria, endocrinologia, bem como das universidades através das faculdades de medicina, nutrição e psicologia entre outras é fundamental para os trabalhos de campo e coleta de dados. Para intervir nos fatores de risco com eficácia temos que conhecer a realidade. Vamos ressaltar outros dados estatísticos preocupantes: A- Quanto maior o LDL (colesterol ruim) maior incidência de doença aterosclerótica. O inverso é verdadeiro. B- A redução de 1% no LDL reduz 1% de possibilidade de doença cardiovascular C- A elevação de 1% do HDL (colesterol bom) reduz a 3% a possibilidade de doença cardiovascular. Apesar dessas evidências científicas não existe nenhum programa governamental voltado à prevenção da aterosclerose em crianças e jovens. Portanto, quanto maior a triagem da dislipidemia nessa faixa etária, possibilitando ações eficazes, menos vulneráveis elas serão à doença aterosclerótica. Aliar à mudança de hábitos dietéticos, outras atitudes positivas, (abstenção de fumo, prática esportiva, reposicionamento mental, entre outros), melhoram sobremaneira os resultados. Vamos levantar esta bandeira, motivar com palavras e ações nossas autoridades, principalmente os legisladores. Não dá para esperar alguém crescer para se pensar em prevenção primária quando os problemas já estão instalados. - Que tal um lipidograma para começar? Deve ser realizado em crianças e jovens com sobrepeso, obesos e história de dislipidemia e/ou doença cardiovascular em familiares próximos. Achamos que os ateroscleróticos, angioplastados, infartados e safenados de hoje, são aquelas crianças que num passado não muito distante não tiveram qualquer orientação. - Vamos salvar nossos pequenos e jovens desse destino cruel? |