Dr Antonio Paulo Filomeno

Meus amigos

Graças ao honroso convite de minha querida amiga Vânia, escritora, poetisa e humanista, estou estreando esta coluna em seu “site”. Como sou médico, pretendo adotar como linha literária, assuntos ligados à medicina, e vez por outra, narrar “causos” médicos interessantes. Enviem suas sugestões e dúvidas na área médica. Aceitarei as primeiras com prazer, e os questionamentos procurarei responder de forma atualizada e o mais rápido possível.

 até breve.

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 Reeducação Alimentar

Você, caro leitor, se tiver mais de 45 anos deve se lembrar, quando criança, dos almoços domingueiros em família e das refeições de um modo geral no dia-a-dia.

Aos domingos a tradicional galinha procedia de galinheiros próprios ou era adquirida viva. Engordava com milho ou restos de comida. Quando o prato principal era carne bovina, o açougue fornecia a peça resfriada de gado recém-abatido cuja procedência conhecíamos.

Os vegetais, fossem crus ou cozidos eram da própria horta ou também adquiridos em quitandas de pequenos produtores que usavam quando muito, adubos orgânicos em suas plantações.

As frutas eram da estação, amadurecidas no pé ou “de vez”.

Como complemento, a boa água do filtro ou sucos naturais. Comia-se o trivial variado: arroz, feijão, bife e salada.

-         O que se vê hoje?

Para atender ao mercado e à demanda crescente, a indústria de alimentação modernizou-se, como é óbvio, mas sem sombra de dúvida, em que pese hoje a facilidade na aquisição de produtos de excelente aspecto, sabor e fácil preparo, houve algum prejuízo.

E não é pequeno. Começamos pela galinha domingueira. Hoje, os frangos(já não são mais galinhas), são padronizados, desenvolvidos rapidamente à base de rações cujo teor desconhecemos(hormônios?). O sabor é sem graça e há pouco caldo. A carne bovina tem uma cor artificial de um vermelho vivo, graças à adição de produtos químicos. O gado também é engordado em pasto, tudo bem, mas ajudado por uma força-tarefa veterinária que faz de um bezerro boi adulto em curto espaço de tempo. Os legumes são monstruosos como cenouras, beterrabas e rabanetes gigantes, fruto, dizem, da ciência japonesa de transformar o pequeno em grande e vice-versa.

Os hortigranjeiros são adubados quimicamente e pulverizados com “defensivos” agrícolas de enorme agressividade ao organismo humano. As frutas são amadurecidas “na marra”, em estufas controladas com aspersão de produtos químicos. Come-se qualquer uma delas em qualquer época do ano em flagrante desrespeito à natureza que tem o seu ciclo e biorritmo sazonais.

As refeições ficaram sofisticadas, cheias de estrangeirismos, com molhos gordurosos e temperos exóticos regados a “katchup” e mostarda, descaracterizando o sabor original.

Finalmente, engole-se a comida sem mastigar, de olho no relógio e empurramos tudo isso com litros de bebida gaseificada.

Como a vida se modernizou, por exigências diversas ou comodismo, buscamos no “fast-food” salgado e gorduroso, congelados e no microondas a rapidez necessária para atender ao tempo cada vez mais escasso. Para completar este quadro “salutar”, pulamos da mesa para o computador ou TV. “Nada de fazer o quilo” ou gastar sola de sapato após as refeições.

Não é a toa que a população está cada vez mais obesa se comparada como as décadas passadas. O colesterol elevado, privilégio de faixas etárias mais avançadas, hoje está presente de forma significativa nos jovens e crianças. A hipertensão arterial toma conta de 30% da população mundial e o diabetes avança de modo preocupante.

A doença cardiovascular, apesar de todas as conquistas no campo diagnóstico e terapêutico, permanece como líder da mortalidade, com 5 milhões entre 10 milhões de óbitos(países industrializados), e 10 milhões entre cada 40 milhões de mortos,(países em desenvolvimento).

Por tudo isto, que foi exposto, é que às vezes temos saudades dos velhos tempos e da boa alimentação trivial e segura.

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