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Dr Antonio Paulo Filomeno Será só falta de atenção, tempo... ou haverá algo mais (1)? O artigo intitulado “Aliança Contra Pressão. Só o Remédio Não Basta...”, publicado na revista “Isto É” de 31/05/2006, poderia ter sido mais abrangente e justo. Nele, a articulista faz um alerta baseado em pesquisa realizada pela empresa LARC, especializada em estudos médicos, a pedido da “NOVARTIS”, conhecida indústria farmacêutica. De acordo com o estudo, 75% dos consultados afirmaram que a atenção e interesse do médico são fundamentais para o correto cumprimento das orientações e prescrições. Para 24% dos pacientes ser melhor informado de sua doença é fator importante de adesão ao tratamento. O dado mais significativo, segundo a pesquisa, é que 79% dos entrevistados, portanto a imensa maioria, gostaria de ter um relacionamento melhor com seu médico. Para 37% dos entrevistados os especialistas consultados não deram a atenção necessária durante a consulta, apenas prescreveram medicamentos, sem ouvir o que os pacientes tinham a dizer ou a perguntar. A pesquisa, exagera ao mostrar que 76% dos entrevistados afirmaram mudar de médico por não ficarem satisfeitos com o primeiro atendimento, gerando assim aumento de custo para os convênios, já que o outro profissional inicia novos exames etc. Vamos analisar melhor esta situação. Comecemos pelo profissional. Ele sobrevive de seu trabalho, deve sentir-se honrado pela escolha de seu nome pelo paciente, gostar do faz, e acima de tudo respeitar o Código de Ética Médica que estabelece em seu capítulo I artigo 2º : “O alvo de toda a atenção do médico é a saúde do ser humano, em benefício do qual deverá agir com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade profissional”. Contudo, no artigo seguinte do mesmo código existe outro importante princípio: “A fim de que possa exercer a medicina com honra e dignidade, o médico deve ter boas condições de trabalho e ser remunerado de forma justa”. O descontentamento dos pacientes tem sua razão de ser. Contudo, uma importante parcela que motiva essa reclamação se deve às empresas contratantes dos serviços de saúde, ao governo que não promove condições mais justas de trabalho e a parte da sociedade que desconhece os seus direitos. Ao remunerar o profissional de forma insatisfatória e não proporcionar condições, pelo menos razoáveis, de trabalho algumas entidades contratantes, governamentais ou não, são co-responsáveis por essa situação. Na medicina privada, para bancar as despesas de um consultório médico e assim atender aos requisitos mínimos de conforto, precisão diagnóstica e eficiência terapêutica que o paciente merece, o profissional é onerado em um número assustador de itens: aluguel, condomínio, IPTU, luz, telefone, funcionários, obrigações sociais, vale-transporte, vale-restaurante, vestuário, material de limpeza, IRPJ, ISS, GPS, gráfica, visitas técnicas, equipamentos, atualização médica, transporte e por aí vai! Sobre o valor bruto pago por alguns convênios pela consulta, que sabemos ser irrisório, recaem todas aquelas taxações já mencionadas. A sensação que temos é desalentadora. Mesmo assim, a grande maioria dos médicos atende os seus clientes com seriedade e competência e jamais menciona, para não constrangê-los, a remuneração que recebe por seus serviços, quanto mais não dar-lhes atenção. O artigo da revista “Isto É” dá exemplo de um paciente, que por não ter recebido a atenção merecida de seu médico, procurou outro profissional de reconhecida competência, figura de destaque no meio cardiológico nacional, sendo atendido como merecia, com direito a foto de ambos na revista. Não há referência a outros detalhes, como tempo de reconsulta, valor da mesma, se foi preço de convênio ou particular. Sabemos que em consultórios “estrelados” quase não se aceitam convênios, e o valor astronômico das consultas permite ao médico dispender um bom tempo com o paciente, como deveriam ser todas as consultas independentemente da categoria do paciente. Só que no mundo real as coisas são um pouco diferentes. A pesquisa encomendada pela Novartis e realizada pela LARC trata dos efeitos sem analisar ou pesquisar as causas com mais profundidade. Não fornece os dados numéricos da análise estatística, testes de significância etc., que poderiam ser decodificados de forma simples para entendimento e melhor juízo dos leitores. Como já disse, o médico tem o dever de atender corretamente o paciente não só por norma ética, mas também pela satisfação profissional oriunda de seu trabalho. Aos convênios e entidades contratantes, deve ser exigida a correta e justa remuneração do profissional, e nessa cruzada todos devem se empenhar: Conselhos de medicina, Sindicados, Associações Médicas, Legisladores e a Sociedade como um todo. Ao governo cabe esclarecer a população por meio de campanhas éticas e inteligentes, orientando e informando corretamente sobre o reconhecimento das principais doenças e cuidados preventivos. E, ao paciente, cabe não só fiscalizar, denunciando o mau profissional, baseado em evidências sólidas do atendimento irregular, como também ser solidário com o bom profissional, protestando como usuário junto aos contratantes de serviços de saúde, pela remuneração, às vezes vil, do profissional que o atende. Dr. Antônio Paulo Filomeno Diretor-Presidente do Centro de Estudodo Hospital Santa Lúcia |