|
|
|
Um dos mais emocionantes
capítulos da moderna cardiologia internacional está sendo escrito aqui
no Brasil, e deverá ser o tema palpitante do 59º Congresso da Sociedade
Brasileira de Cardiologia que acontece entre 25 e 29 deste mês na cidade
do Rio de Janeiro. Trata-se da divulgação dos resultados da terapia
celular com células-tronco para doenças cardíacas que podem
evoluir de forma grave como é o caso de alguns tipos de infarto do miocárdio. O
Brasil é pioneiro nesta área e atualmente desenvolve trabalhos
cooperativos neste setor com importantes países da comunidade científica
internacional. O
uso de células-tronco para recuperar parte do músculo morto logo após o
infarto, significa uma esperança real a curto prazo para milhares de
pacientes que sofreram doença coronariana aguda e tiveram sua evolução
complicada. A
doença coronariana mata cerca de 300 mil pessoas por ano em nosso país.
Quando não acontece de forma súbita a morte, em alguns casos, sobrevem
de maneira lenta, devido à progressiva deteriorização do músculo cardíaco
que vai perdendo o poder de contração e conseqüentemente de potência
de bombeamento, evoluindo o paciente para o que se conhece como insuficiência
cardíaca. As
células-tronco são extraídas por punção da medula do osso ilíaco, um
dos ossos que formam a bacia. O líquido extraído é centrifugado para
separar seus diversos componentes. As células são isoladas e injetadas
diretamente no coração, no sétimo dia do evento agudo. O que acontece
depois é um milagre da renovação da vida. Esta linhagem de células é
especial, pois são indiferenciadas, o que vale dizer que podem se
transformar em qualquer tipo de estrutura do corpo humano. Elas recebem
diversos estímulos no local onde foram injetadas. No caso do coração,
os tecidos remanescentes em torno da lesão(infarto), são os indutores da
transformação. As células-tronco passam então a se transformar em células
musculares cardíacas e novos vasos, regenerando de forma importante a área
afetada. Isto ocorre já no 30º dia do evento. A melhora, em um número
animador de casos, é evidente, com aumento do poder de bombeamento do
coração(fração de ejeção), e da tolerância ao esforço. O teste
ergoespirométrico, após 12 meses mostra excepcional incremento no VO2
MAX/METS de 17+8 para 24,9+8. Estes ganhos se refletem na
melhora dos sintomas (dor), na qualidade e seguramente na expectativa de
vida. No
interior do músculo afetado, uma verdadeira revolução. As células
implantadas se incorporam ao tecido e diferenciam-se em estruturas vitais
que foram lesadas. A inflamação tecidual decorrente da injúria vai
desaparecendo e com ela a fibrose, (cicatrização), tão temida, pois é
um material morto que prejudica o rendimento cardíaco. Esta é a grande
notícia para milhares de pessoas. A utilização deste procedimento já
vai entrando na rotina dos grandes centros e a exemplo de tantas outras
conquistas na área de cardiologia, logo será de uso rotineiro. Perguntas
ainda precisam ser respondidas: -
Qual melhor tipo de célula-tronco? -
Qual a melhor via e o melhor momento para o implante? -
A terapia, como se comportará a longo prazo? Estes, contudo, são meros detalhes que serão respondidos em curto espaço de tempo. O principal, a grande noticia, é que temos agora um método cientificamente correto, relativamente simples, barato e extremamente promissor para reduzir a terrível estatística de mortalidade por doença isquêmica do coração. |