Dr Antonio Paulo Filomeno
Terapia Celular?  
A esperança que se torna realidade

       Um dos mais emocionantes capítulos da moderna cardiologia internacional está sendo escrito aqui no Brasil, e deverá ser o tema palpitante do 59º Congresso da Sociedade Brasileira de Cardiologia que acontece entre 25 e 29 deste mês na cidade do Rio de Janeiro. Trata-se da divulgação dos resultados da terapia celular com células-tronco para doenças cardíacas que podem evoluir de forma grave como é o caso de alguns tipos de infarto do miocárdio.

O Brasil é pioneiro nesta área e atualmente desenvolve trabalhos cooperativos neste setor com importantes países da comunidade científica internacional.

O uso de células-tronco para recuperar parte do músculo morto logo após o infarto, significa uma esperança real a curto prazo para milhares de pacientes que sofreram doença coronariana aguda e tiveram sua evolução complicada.

A doença coronariana mata cerca de 300 mil pessoas por ano em nosso país. Quando não acontece de forma súbita a morte, em alguns casos, sobrevem de maneira lenta, devido à progressiva deteriorização do músculo cardíaco que vai perdendo o poder de contração e conseqüentemente de potência de bombeamento, evoluindo o paciente para o que se conhece como insuficiência cardíaca.

As células-tronco são extraídas por punção da medula do osso ilíaco, um dos ossos que formam a bacia. O líquido extraído é centrifugado para separar seus diversos componentes. As células são isoladas e injetadas diretamente no coração, no sétimo dia do evento agudo. O que acontece depois é um milagre da renovação da vida. Esta linhagem de células é especial, pois são indiferenciadas, o que vale dizer que podem se transformar em qualquer tipo de estrutura do corpo humano. Elas recebem diversos estímulos no local onde foram injetadas. No caso do coração, os tecidos remanescentes em torno da lesão(infarto), são os indutores da transformação. As células-tronco passam então a se transformar em células musculares cardíacas e novos vasos, regenerando de forma importante a área afetada. Isto ocorre já no 30º dia do evento. A melhora, em um número animador de casos, é evidente, com aumento do poder de bombeamento do coração(fração de ejeção), e da tolerância ao esforço. O teste ergoespirométrico, após 12 meses mostra excepcional incremento no VO2 MAX/METS de 17+8 para 24,9+8. Estes ganhos se refletem na melhora dos sintomas (dor), na qualidade e seguramente na expectativa de vida.

No interior do músculo afetado, uma verdadeira revolução. As células implantadas se incorporam ao tecido e diferenciam-se em estruturas vitais que foram lesadas. A inflamação tecidual decorrente da injúria vai desaparecendo e com ela a fibrose, (cicatrização), tão temida, pois é um material morto que prejudica o rendimento cardíaco. Esta é a grande notícia para milhares de pessoas. A utilização deste procedimento já vai entrando na rotina dos grandes centros e a exemplo de tantas outras conquistas na área de cardiologia, logo será de uso rotineiro.

Perguntas ainda precisam ser respondidas:

-         Qual melhor tipo de célula-tronco?

-         Qual a melhor via e o melhor momento para o implante?

-         A terapia, como se comportará a longo prazo?

Estes, contudo, são meros detalhes que serão respondidos em curto espaço de tempo. O principal, a grande noticia, é que temos agora um método cientificamente correto, relativamente simples, barato e extremamente promissor para reduzir a terrível estatística de mortalidade por doença isquêmica do coração.

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