
Contos
Vânia Moreira Diniz
Generosidade
Sílvia era uma pessoa especial. Todos gostavam daquela menina tão doce, simples e generosa embora vivesse num mundo conturbado e cheio de egoísmo. Era uma pessoa incomum nos dias de hoje e seu grupo de amigos era muito grande.Eu era amiga de sua irmã Dulce e o contraste entre as duas era grande porque minha amiga era delirante, agitada, mas também excepcional. Tinha muitos admiradores e depois que ficamos moça eu nunca a vi com nenhum de modo mais constante. Muitas vezes ajudou-me em momentos difíceis e tinha por aquela família uma sólida amizade.
Quando conheci Sílvia mais intimamente ela vivia um grande e maravilhoso caso de amor. Os olhos muito azuis e profundos tinham a expressão própria das pessoas apaixonadas, contemplativas e sonhadoras e o rosto bonito era dominado por um sorriso quase constante.Ninguém conseguia olhá-la menos de duas vezes e seu namorado era um homem belíssimo. Formavam um par impressionante. Andavam sempre abraçados, um completamente engolfado no amor que sentia pelo outro. Muitas pessoas diziam superficialmente que essa espécie de paixão poderia extinguir-se rápido asfixiada mutuamente. Não acreditava nisso e torcia pelos dois com muita fé bem como quase todas as pessoas de sua amizade. Dificilmente alguém poderia deixar de gostar daquela dupla simpática, que exalava felicidade e ternura.
Casaram-se. Sílvia era enfermeira e trabalhava num hospital. Sua carreira prosperava não só pela competência que era grande acrescendo ainda o seu jeito carinhoso e amigo, que a todos conquistava. Os anos passavam e o jovem casal vivia realmente muito feliz. Bastava olhar. Conviver com eles era realmente agradável pelo lado positivo que inspiravam.
Dulce, a irmã da moça e minha amiga particular não havia se casado ou tido uma relação mais duradoura com ninguém e eu ficava admirando o carinho impressionante que ela tão jovem dispensava aos sobrinhos, filhos pequeninos de Sílvia. Levando-se em conta que a jovem era exuberante e agitada por natureza, não compreendia esse seu modo às vezes excêntrico.. Apresentara Eduardo à irmã naquela época e ficara animada quando os dois se apaixonaram. Mas ela mesma não tinha vida própria.
Quando Dulce foi me procurar naquele dia senti que não estava bem.Seus olhos estavam vermelhos e parecia ter chorado. Entrando foi satisfazendo a minha curiosidade:
- Estou muito preocupada, Silvia começou com umas dores esquisitas na perna. Foi piorando. Está fazendo uma série de exames.
Parou com lágrimas escorrendo pelo rosto angustiado enquanto comentava:
- Os médicos desconfiam de tumor. Não sei. Estou muito preocupada.
Fiquei alarmada olhando para a moça e completamente sem palavras. Há momentos na vida que falar não acrescenta nada. E aquele era um deles. Passei a mão pelo seu rosto, tentando enxugar suas lágrimas num gesto de carinho, mas a verdade era que eu mesma estava com vontade de chorar. E muito.
Soubemos naquele dia mesmo que os exames haviam se confirmado. Silvia tinha um tumor no fêmur. Restava saber se era benigno. E torcíamos desesperadamente para isso. Ela teve que se internar para que fosse feito um outro exame mais detalhado antes de se pensar em qualquer coisa. Foram dias negros e cheios de expectativa. Eduardo chorava nas horas que a mulher estava distante, porém ela mesma mantinha uma força inexplicável. Silvia era uma pessoa incomum em todos os sentidos. Acho que nunca a ouvi nem de leve insinuar qualquer coisa negativa de alguém. Muito pelo contrário. Tinha sempre uma palavra de elogio em contraposição à qualquer crítica.
2ª
PARTE
A biopsia constatou que Silvia estava com câncer no fêmur e sua perna precisaria ser amputada. Poucas dores são tão grandes como essa que acontecia naquele momento doloroso na vida de uma amiga tão jovem e bonita, condenada a um sacrifício bárbaro. Há fases na existência que nos perguntamos, desesperados para que nascemos e se isso valerá a pena.
Não adiantará contar os pedaços dolorosos desse acontecimento. Só iria emocionar e relembrar como por vezes é torturante o caminho que atravessamos.Resta dizer que Sílvia iniciou um tratamento para a conservação de sua jovem vida, embora entremeada de desilusão. Teve um processo natural de depressão e os amigos mais íntimos e principalmente sua irmã e seu marido foram incansáveis. Seus pais ficavam com as crianças o que já era para todos uma tranqüilidade.Eduardo não saíra um momento de perto da mulher e todos achavam que ele acabaria doente.
Comecei a perceber que Dulce parecia muito mais desesperada que a própria irmã. E não raras vezes enquanto Sílvia dormia com efeitos de analgésicos e tranqüilizantes, ela buscava os sobrinhos, passeava com eles e procurava substituir no que fosse possível.
As dores eram muitas, mas teve um momento que parecia que tudo se acalmaria para então começar o processo da prótese. Eduardo mantinha-se sempre muito perto da mulher e eu admirava o amor que ultrapassava barreiras complicadas e amargas. Ele fazia questão de dizer o quanto ela estava bonita. Na verdade com um chapeuzinho que lhe escondia a escassez dos cabelos perdidos na quimioterapia, quem olhasse para aqueles olhos azuis e o rosto mimoso atingido agora por uma névoa de tristeza concordaria plenamente. Mas os sorrisos eram raros nessa fase, embora por vezes procurasse fingir e geralmente resultasse num esgar muscular.
Silvia só tinha confiança total na irmã e constantemente pedia que o marido fosse resolver várias coisas com ela. Pedia que os dois ficassem juntos com os filhos e também saíssem. Eduardo negava dizendo que não era preciso e que as crianças tinham que compreender a situação, embora pequenos. Não era justo enganá-los.
Num dia calmo de abril, Dulce entra em minha casa chorando muito e eu pensei que a irmã havia piorado. Perguntei isso em expectativa e ela respondeu-me:
- Não. Por favor, ajude-me, se você puder. Esqueceu que existo?
Olhei-a penalizada, sabendo o que estava enfrentando e todos é claro só
conseguiam preocupar-se com Sílvia. Entendi sua angústia.
- Não, querida. É que é tanta coisa. Não esqueci de você. Como poderia?
- Desculpe. Jane, Desculpe. Estou fora de mim. Mas acho que não valho grande coisa.
Que quer dizer, Dulce?
Você é a única que eu poderia desabafar e Deus sabe que estou precisando.Não me julgue. Por favor.
Começou então a falar confusamente sobre uma paixão que sempre tivera pelo cunhado. Apresentara-o à irmã, mas na verdade nunca deixara de amar Eduardo embora este nunca lhe dera a menor esperança. Sentia remorsos daquele sentimento que lhe possuía sem querer, principalmente nesse momento. Logo no princípio levei um susto. Mas depois, rememorando, pensei em pequenos olhares e gestos sem importância que na hora tinham chamado a minha atenção. Nada demais. Mas o fato de nunca ter querido ficar longe deles e jamais ter sido vista com ninguém. Olhares rápidos e ternos dela que provavelmente só eu que a conhecia desde garota poderia perceber. Dulce, entretanto era reta demais para sequer tentar trair a irmã em qualquer circunstância. E eu lhe disse isso tudo. Que não devia ficar dessa forma, que ela estava fazendo tudo que alguém jamais faria em seu lugar. Olhou-me, então e com os olhos encharcados disse-me algo que eu não esperava.
Mas agora, Jane, eu acho esquisito.. Sílvia parece querer nos unir. É como se soubesse do que se passa comigo e quisesse que ficássemos juntos. É uma coisa estranha. Se ela não estivesse precisando de mim eu iria embora.
Abraçei-a com um nó na garganta pedindo que ela não fizesse isso jamais. E lamentando tudo que aquela família estava sofrendo.
Sílvia piorava cada vez mais e uma tarde quando entrava em seu quarto no hospital com voz já debilitada pediu-me sem preâmbulos que eu ajudasse a manter Eduardo perto de Sílvia. Gostaria de vê-los juntos e que fosse ela a educar seus filhos. Pedi-lhe que não dissesse isso. E ela então me surpreendeu, falando com esforço tão grande que às vezes eu nem conseguia escutá-la. A respiração estava frágil e entrecortada.
- Jane, antes mesmo de ficar doente percebi que minha irmã amava meu marido. Fiquei ansiosa, mas lamentava que não pudesse e nem tivesse forças para abrir mão de minha vida. Amo-a demais.
- Você não teve raiva?
- Raiva? Não. Surpresa, sim e uma certa tristeza. Quando descobri casualmente fiquei realmente triste. Não porque pairasse alguma dúvida sobre ela. Mas por não ter percebido antes. Afinal ela o conheceu primeiro. Já devia gostar dele.
- E o que isso adiantava se ele gostava era de você? Pense um pouco.
- Sim, é verdade.
- Como soube?
- Observava minha irmã levar uma vida apática, só dedicada à minha família. Tudo que quero agora é que meu marido venha a gostar dela. Que eles sejam felizes.
Eu queria que ela não visse, porém eu chorava muito e ela suavemente apertou minha mão e pediu que eu a ajudasse. O que dizer num momento desses? Embora eu negasse ela afirmava que morreria logo pois já estava muito fraca. E agora, por favor, chame Eduardo. Preciso falar com ele.
Beijei-a e saí, sem ter noção dos meus passos.
CONCLUSÃO
Sílvia morreu num dia de sol maravilhoso, deixando dois filhos pequenos e uma promessa do marido feita em seu leito de morte, pedindo que ficasse definitivamente com a irmã. Quando o rapaz a questionou afirmou ser a única coisa que a deixaria feliz.
Dois meses depois eles se casavam com a sombra da jovem enfermeira que pensara em tudo antes de partir. Com cuidado Sílvia nos últimos tempos procurava mostrar a Eduardo a pessoa maravilhosa que sua irmã era. Pediu que ele se casasse com ela. Disse-lhe que seria uma tranqüilidade na educação dos filhos. Mas na verdade almejava lutar pela felicidade de Dulce que julgava infeliz por sua causa. Quanto ao marido nunca lhe passara pela cabeça que ele pudesse ser infeliz com Dulce.. Achava sinceramente que logo se apaixonaria. Mas também lhe pediu que se acaso ele imaginasse que não seria feliz seu caminho estaria aberto para quem ele quisesse. Por dentro torcia pela felicidade da irmã. Pelo menos tentara. Quem sabe?
Não sei se ele teve realmente uma grande paixão pela minha amiga. Mas posso assegurar que nesses quinze anos ela tem sido, excetuando os momentos de lembranças passadas, muito feliz. Nunca o revi tão delirante como antigamente porém observo-o sempre tranqüilo e realizado. Para mim essa relação continua sendo um enigma e não posso vê-lo sem recordar-me de seu desespero quando Silvia morreu.
Espero que sejam realmente felizes. Mas, quem pode saber?