Maria Georgina Albuquerque


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Vânia Moreira Diniz 
entrevista  
Maria Georgina Albuquerque

 

1-     Você nasceu em Leopoldina. Guarda alguma lembrança da sua cidade?

R - Realmente nasci em Leopoldina, Vânia, uma pequena cidade da Zona da Mata mineira. Apesar da minha pouca idade na época em que ali vivi, as recordações são inúmeras e claras. Trago comigo o cheiro de terra molhada após o prazer da chuva, o canto das cigarras e um esplêndido arco-íris embelezando o céu...A minha mãe era muito católica, daí a lembrança dos cânticos religiosos e a chegada  da imagem de Nossa Senhora em minha casa pra  novena do mês de maio. Havia muita alegria na família, com inúmeras visitas e a diversidade de influências dos irmãos mais velhos, cada um com a sua peculiaridade. Aos meus quatro ou cinco anos, minha família mudou-se para o Rio de Janeiro. Como sete dos seus nove filhos  já haviam concluído o colegial, meu pai optou por uma cidade maior, com Universidades e possibilidades  profissionais que melhor lhes atendessem. Além dos meus avós maternos, tínhamos alguns tios que já moravam no Rio, o que tornou a coisa mais agradável.

2-     Algum fato marcou nitidamente sua infância?

R – Chegando ao Rio, o ingresso no Colégio Assunção representou um divisor de águas.  Estava acostumada ao microcosmo da cidade interiorana e embora este se situasse no tranqüilo bairro de Santa Tereza, onde fomos morar, um novo mundo descortinou-se. O espaço físico era excessivo e o refeitório acessado por um elevador panorâmico. Da imensa quadra de vôlei, avistava-se toda a cidade minimizada abaixo, o mar estendendo-se pelo horizonte como num belo cartão postal. Para completar, exigia-se o regime de semi-internato, com o relativo afastamento da minha família sendo compensado pela disciplina dos horários de estudo, biblioteca, aulas de música e esportes. Foi, portanto, uma mudança um tanto drástica, embora não me tenha absolutamente causado danos e perceba hoje o quanto me beneficiou.

3-     Quando descobriu a literatura?
R-
A escolinha em que estudava em Minas, já na época era bastante inovadora. Lembro-me muito bem da Tia Aline, professora e proprietária do pequeno estabelecimento. A proposta pedagógica do seu Jardim de Infância, por incrível que pareça, era muito mais avançada que a do tradicional Colégio Assunção, no Rio.  Os pequenos alunos eram bastante estimulados e sem que percebêssemos ou tomássemos a aprendizagem como uma exigência a ser cumprida, desenvolvíamos uma imensa curiosidade pelo que havia em volta. A criatividade era incentivada através do vasto material  que cobria as enormes mesas da escola e, ao lado das tintas e lápis coloridos, várias estantes repletas de livros faziam a festa dos alunos.  Ao chegar no Rio já sabia ler  e a minha mãe, também professora,  passou a incentivar o meu hábito de leitura,  presenteando-me constantemente com livros infantis. Os irmãos mais velhos também enriqueceram muito essa experiência.

4-
   
Como se dá o seu processo de criação?

R-O meu processo de criação é bastante catártico e elaborador das minhas questões internas. As poesias são como partos. Penso, repenso e não consigo chegar a uma definição que melhor corresponda à concretização das mesmas. São egocêntricas, visto que ao fazê-las, salvo as exceções em que se pressuponha um envolvimento empático ou se pretenda homenagear alguém, esqueço-me do fato de que serão apreciadas ou expostas a julgamento. A minha realização, nessa forma de expressão, diz respeito  unicamente à minha referência subjetiva e aos pressupostos que, externalizados, aliviam a minha tensão interna..

Com referência às outras modalidades,  permitem uma maior interação com o leitor imaginário. Preocupo-me com a clareza do discurso, na tentativa de que seja possibilitada uma melhor aceitação do material concebido, ou para que provoque uma dialética  a partir da minha argumentação. Sempre pretendo instigar a reflexão, seja através de artigo ou conto,  e considero, intuitivamente, uma melhor forma de atingir esse resultado. Mas para isso é preciso não abandonar o alinhavo propiciador da clareza do texto e preservar a possibilidade de  acompanhamento do possível leitor.  Lacunas despropositadas impossibilitam a finalização da leitura, assim como a falta de motivação consistente.

5-Ter vivido no lindo bairro de santa Tereza no Rio, teve alguma influência em seus escritos?

R- Sim ,Vânia. Santa Tereza é um bairro mágico e inspirador. Pena que atualmente haja um descaso por parte das autoridades quanto à segurança dos seus moradores, fato que se torna altamente pernicioso, haja vista a tipicidade do bairro, com suas curvas e contrastes sociais. Ainda hoje, os inúmeros artistas que ali residem abrem as suas portas para exposições, onde podem ser apreciadas as suas pinturas e trabalhos artesanais.  Lembro-me da pintora Djanira, a sua simplicidade escolhendo legumes na feira e do escritor Odylo Costa Filho. O bairro possuía um vanguardismo oculto, um silêncio que resguardava um grito de modernidade.

6-
Freud foi para você o grande mestre ou contesta algumas de suas teorias? E quais os mestres que realmente lhe influenciaram?

R- Segundo o próprio Freud, numa entrevista concedida em 1926 a George Sylvester Viereck : ”A vida muda. A psicanálise também muda. Estamos apenas no começo de uma nova ciência”.  Particularmente, creio que existem excelentes estudiosos da complexidade  humana, inclusive fora da psicanálise.  A meu ver, Freud trouxe uma contribuição fantástica para a compreensão dos recônditos do homem, ainda mais se considerando a resistência do positivismo na época. As proposições nascituras dependiam do cientificismo para serem aceitas e a Psicanálise teve grande dificuldade para se impor, visto que, embora Freud reiterasse a sua condição de ciência natural, havia uma especulação metafísica em seu trabalho.

7-     O que definiu sua opção pela psicologia?
R-
Desde pequena, meu sonho era o jornalismo. No entanto, até hoje não sei porquê, optei por Direito na ocasião do vestibular. Casei-me no início da faculdade e a criação dos filhos, assim como as constantes viagens profissionais do pai, impediram-me de me desenvolver na área. Retomei depois os estudos, optando pela Psicologia. Havia uma tendência dos amigos em me pedir conselhos e passei a interessar-me pelo assunto. O curso foi  muito estimulante, sem dúvida uma das maiores possibilidades de crescimento e compreensão que obtive na vida.

8-     Viveria sem a literatura?

R- Creio que a vida perderia muito do seu encanto. Certa vez, Caetano Veloso afirmou numa entrevista que apreciava ouvir  música pelo rádio, as canções sucedendo-se anarquicamente na surpresa da próxima que viria então. Embora não exatamente com as mesmas palavras, a idéia foi basicamente essa. O meu  perfil de leitora constituiu-se mais ou menos dessa forma. Meus irmãos eram bem mais velhos e cada um deles me propiciou determinados acessos literários. Um deles, o Pedro, tinha uma biblioteca considerável, que incluía clássicos como Dante Alighieri. Minha mãe, por sua vez, optava por romancistas brasileiros ou autores como Pearl Buck. Meu pai  apreciava muito a revista Seleções e livros com apreciação psicológica. Uma de minhas irmãs era adepta de fotonovelas. Inúmeros gibis lotavam a casa, concedendo uma diversidade enorme de opções. Devido a isso, sempre me disponho à leitura inicial do que me cai às mãos, ainda que resolva abandoná-lo em seguida. Ler, pra mim, muito mais que erudição, é sinônimo de prazer.

9-     Você tem um talento incomum. E é extremamente versátil em seus temas. Quando a literatura se tornou imprescindível em sua vida  e completamente atuante?

R- Penso que às vezes somos tomados pela impressão de que escrevemos sempre sobre as mesmas coisas. Lembro-me de ter iniciado essa prática muito cedo e, guardadas as devidas proporções, creio que na época o fazia com melhor qualidade. Não em ortografia ou concordância, mas em criatividade. A minha esperança é resgatar, na medida do possível, a espontaneidade que o tempo apaga. Há quatro anos passei a participar da comunidade de escritores virtuais e abriu-se uma grande oportunidade em termos de troca e convivência. As pessoas já estão avançando ao encontro das alternativas culturais que vêm se processando na Internet, embora não tenhamos chegado a um acordo quanto aos abusos virtuais dos “sites abertos”, ou seja, se são passíveis de perpetuação ou representam  uma ingênua utopia.

10-
Consegue conciliar com facilidade sua vida particular e profissional?
R-
A conciliação dessas duas áreas requer sempre uma certa habilidade. Embora  os filhos não sejam mais crianças, as  responsabilidades ainda persistem. O que facilita, no entanto, é o prazer  de se vivenciar coisas que fazem sentido.  Realizo-me  imensamente sendo mãe, aprecio minha profissão,  trago comigo a cumplicidade de um bom relacionamento, gosto de escrever...Enfim, isso torna a vida mais leve e produtiva.

11-
Sua experiência como psicóloga ajuda na composição de seus textos ou idéias?
R-
Não diria apenas que ajuda, mas que compõe a própria alma do texto, visto que fazem parte de mim. A minha formação, ou seja, aquilo que selecionei  ou extraí do curso se Psicologia pertence à minha  subjetividade. A compreensão e a análise, por exemplo, constituem-se como atributos indispensáveis ao exercício profissional. Um dos melhores ensinamentos que recebi na PUC e que tanto tem me servido ao longo da vida, partiu justamente de uma colega. Quase ao término da faculdade, cursávamos determinada matéria com uma professora da pós-graduação, caída de pára-quedas no curso regular. Era extremamente capacitada e dotada de uma complexidade obtida através de exaustivos estudos, inclusive no exterior. Essas características, no entanto, aliadas ao seu perfil como orientadora de monografias avançadas e  à exposição introvertida de suas aulas, dificultavam o entendimento da matéria dada. Na verdade, eram necessários pré-requisitos mais consistentes para uma melhor compreensão daquilo que nos estava sendo apresentado.  Decidiu-se a turma, então, por uma medida mais enérgica. Seria exigida, na coordenação, a sua substituição. A coisa estava nesse ponto desesperador quando entrou na sala uma colega retardatária e, já interada do assunto, acalmou os ânimos perguntando a todos se estaríamos mesmos certos da opção pela Psicologia, visto que ainda não havíamos percebido a necessidade de se compreender as situações que se apresentam com mais serenidade. Ressaltou a exigência de uma maior maturidade e entendimento, características essenciais ao exercício da profissão. Não é preciso dizer que a situação foi discutida calmamente com a professora em questão e o problema contornado através da proposta de formação de pequenos grupos supervisionados, no intuito de minorar o descompasso.  Realmente foi uma vivência propiciadora de grande aprendizado.Uma bandeira erguida contra a precipitação e a impaciência.

12- No mundo conturbado em que vivemos a literatura   pode influenciar   o combate à violência, às doenças, à discriminação e à falta de solidariedade, ou apenas estamos sonhando?

R-
Creio, Vânia, que a interferência da literatura,  por si só,  não faz milagres. Admitir isso seria particionar a humanidade e classificar algumas produções como mais poderosas que outras. Acredito, no entanto, que todos podem se esforçar para um mundo melhor, cada um revolucionando através daquilo que faz. A teia formada pelos vários segmentos, ela sim,  obterá bons resultados. Segundo Marisa Raja Gabaglia: “O escritor deve acreditar na luz. Mas o escritor não é um iluminador. Como uma janela, ele filtra a luz que lhe atravessa a alma”. As produções literárias aderem aos que possuem demanda referente a um determinado enfoque. Para uma pessoa destrutiva, versos de amor podem até mesmo incrementar o seu ódio, visto que contrariam a sua demanda afetiva. Percebe-se claramente isso nos “sites abertos”, onde a pichação virtual recai sobre alguns textos., muitos deles extremamente bem-intencionados. O leitor faz um processo seletivo e geralmente acolhe aquilo que reforça e complementa as suas próprias idéias e conceitos. Aquilo que não se coaduna ao seu espírito momentâneo, ele tende a repelir. Determinada literatura pode aprimorar aqueles que já possuem a fagulha de um mundo melhor, mas não se sobrepõe às inúmeras influências com as quais convive num processo interativo.

 Vânia-Obrigada Georgina e fiquei muito feliz que nós, seus leitores pudéssemos conviver com sua riqueza interior, experiências vividas que muito me emocionaram.