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Vânia Moreira Diniz |
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1- Você nasceu em Leopoldina. Guarda alguma lembrança da sua cidade? R
- Realmente
nasci em Leopoldina, Vânia, uma pequena cidade da Zona da Mata mineira.
Apesar da minha pouca idade na época em que ali vivi, as recordações
são inúmeras e claras. Trago comigo o cheiro de terra molhada após o prazer da chuva, o
canto das cigarras e um esplêndido arco-íris embelezando o céu...A
minha mãe era muito católica, daí a lembrança dos cânticos religiosos
e a chegada da imagem de Nossa Senhora em minha casa pra
novena do mês de maio. Havia muita alegria na família, com inúmeras
visitas e a diversidade de influências dos irmãos mais velhos, cada um
com a sua peculiaridade. Aos meus quatro ou cinco anos, minha família
mudou-se para o Rio de Janeiro. Como sete dos seus nove filhos já
haviam concluído o colegial, meu pai optou por uma cidade maior, com
Universidades e possibilidades profissionais que melhor lhes
atendessem. Além dos meus avós maternos, tínhamos alguns tios que já
moravam no Rio, o que tornou a coisa mais agradável. 2-
Algum fato marcou nitidamente sua infância? R
– Chegando ao Rio, o ingresso no Colégio Assunção
representou um divisor de águas. Estava
acostumada ao microcosmo da cidade interiorana e embora este se situasse
no tranqüilo bairro de Santa Tereza, onde fomos morar, um novo mundo
descortinou-se. O espaço físico era excessivo e o refeitório acessado
por um elevador panorâmico. Da imensa quadra de vôlei, avistava-se toda
a cidade minimizada abaixo, o mar estendendo-se pelo horizonte como num
belo cartão postal. Para completar, exigia-se o regime de semi-internato,
com o relativo afastamento da minha família sendo compensado pela
disciplina dos horários de estudo, biblioteca, aulas de música e
esportes. Foi, portanto, uma mudança um tanto drástica, embora não me
tenha absolutamente causado danos e perceba hoje o quanto me beneficiou. 3-
Quando descobriu a literatura? R-O
meu processo de criação é bastante catártico e elaborador das minhas
questões internas. As poesias são como partos.
Penso, repenso e não consigo chegar a uma definição que melhor
corresponda à concretização das mesmas. São egocêntricas, visto que ao fazê-las, salvo as exceções em que
se pressuponha um envolvimento empático ou se pretenda homenagear alguém,
esqueço-me do fato de que serão apreciadas ou expostas a julgamento. A
minha realização, nessa forma de expressão, diz respeito
unicamente à minha referência subjetiva e aos pressupostos que,
externalizados, aliviam a minha tensão interna.. 5-Ter vivido no lindo bairro de santa Tereza no Rio, teve alguma influência
em seus escritos? R-
Sim
,Vânia. Santa Tereza é um bairro mágico e inspirador. Pena que
atualmente haja um descaso por parte das autoridades quanto à segurança
dos seus moradores, fato que se torna altamente pernicioso, haja vista a
tipicidade do bairro, com suas curvas e contrastes sociais. Ainda hoje, os
inúmeros artistas que ali residem abrem as suas portas para exposições,
onde podem ser apreciadas as suas pinturas e trabalhos artesanais.
Lembro-me da pintora Djanira, a sua simplicidade escolhendo legumes
na feira e do escritor Odylo Costa Filho. O bairro possuía um
vanguardismo oculto, um silêncio que resguardava um grito de modernidade. R-
Segundo
o próprio Freud, numa entrevista concedida em 1926 a George Sylvester
Viereck : ”A vida muda. A psicanálise também muda. Estamos apenas no
começo de uma nova ciência”. Particularmente,
creio que existem excelentes estudiosos da complexidade
humana, inclusive fora da psicanálise.
A meu ver, Freud trouxe uma contribuição fantástica para a
compreensão dos recônditos do homem, ainda mais se considerando a resistência
do positivismo na época. As proposições nascituras dependiam do
cientificismo para serem aceitas e a Psicanálise teve grande dificuldade
para se impor, visto que, embora Freud reiterasse a sua condição de ciência
natural, havia uma especulação metafísica em seu trabalho. 7-
O que definiu sua opção pela psicologia? 8-
Viveria sem a literatura? R-
Creio
que a vida perderia muito do seu encanto. Certa vez, Caetano Veloso
afirmou numa entrevista que apreciava ouvir
música pelo rádio, as canções sucedendo-se anarquicamente na
surpresa da próxima que viria então. Embora não exatamente com as
mesmas palavras, a idéia foi basicamente essa. O meu
perfil de leitora constituiu-se mais ou menos dessa forma. Meus irmãos
eram bem mais velhos e cada um deles me propiciou determinados acessos
literários. Um deles, o Pedro, tinha uma biblioteca considerável, que
incluía clássicos como Dante Alighieri. Minha mãe, por sua vez, optava por romancistas brasileiros
ou autores como Pearl Buck. Meu pai apreciava
muito a revista Seleções e livros com apreciação psicológica. Uma de
minhas irmãs era adepta de fotonovelas. Inúmeros gibis lotavam a casa,
concedendo uma diversidade enorme de opções. Devido a isso, sempre me
disponho à leitura inicial do que me cai às mãos, ainda que resolva
abandoná-lo em seguida. Ler, pra mim, muito mais que erudição, é sinônimo
de prazer. 9-
Você tem um talento incomum. E é extremamente versátil em seus temas.
Quando a literatura se tornou imprescindível em sua vida
e completamente atuante? R-
Penso
que às vezes somos tomados pela impressão de que escrevemos sempre sobre
as mesmas coisas. Lembro-me de ter iniciado essa prática muito cedo e,
guardadas as devidas proporções, creio que na época o fazia com melhor
qualidade. Não em ortografia ou concordância, mas em criatividade. A
minha esperança é resgatar, na medida do possível, a espontaneidade que
o tempo apaga. Há quatro anos passei a participar da comunidade de
escritores virtuais e abriu-se uma grande oportunidade em termos de troca
e convivência. As pessoas já estão avançando ao encontro das
alternativas culturais que vêm se processando na Internet, embora não
tenhamos chegado a um acordo quanto aos abusos virtuais dos “sites
abertos”, ou seja, se são passíveis de perpetuação ou representam
uma ingênua utopia. 12-
No
mundo conturbado em que vivemos a literatura pode influenciar
o combate à violência, às doenças, à discriminação e à
falta de solidariedade, ou apenas estamos sonhando? Vânia-Obrigada Georgina e fiquei muito feliz que nós, seus leitores pudéssemos conviver com sua riqueza interior, experiências vividas que muito me emocionaram. |
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