Poemas

Gabriel Ribeiro

Alpendre

Saudades bailarinas em vapor fumegante

Preto  bico da chaleira delira em ebulição

Pardos grãos de café torrados neste instante

Viram pó, moídos agora, pelos calos da mão

Um cheiro alfazema e dengo da nêga Zefinha

O sal cristal do suor de Zito da Conceição

Temperos e mingaus da Sinhá Vó Belinha

Pitadas de pimenta,  coentro e manjericão.

 

Jabuticaba rasteira, pretinha, brejeira

Alvo lençol quarando ao sol de meio-dia

Relva macia bom p’ro beijo e brincadeira

A cadeira de balanço sacudindo vazia

Beijos roubados à prima namoradeira

O calor carinhoso do regaço da tia

Só, no alpendre, sujas botas, lama barreira

Uma cantiga mucama na voz de Maria.

 

Horizonte que chega em namoro com o poente

Na casa do sol escondendo  vales e outeiros

Crescendo nas copas dos jequitibás reluzentes

Bailado de besouros na luz trêmula dos candeeiros

A caldeira de sopa desmancha o jerimum e a baroa

O curau já exala canela seu verde milho cheiro

O torresmo crepita, doura, liberta sua salmoura

Janta-se, então, a saudade de um sonho campineiro.

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