
Poemas
Gabriel Ribeiro
PROCURO UM RAPAZ
Procuro pelas ruas da cidade um rapaz
Não sei sequer seu nome ou sobrenome
Não sei seu endereço, onde vive e mora.
Não sei sua história, origem, de onde vem
que já fez, se fez ou o que faz agora.
Parece - me que sua mãe atende por Maria
E seu pai, um homem do proletariado, é José.
Disseram que vieram de um conjunto da periferia
Talvez de um bairro da Baixada ou da Galiléia
Quem sabe um povoado de Arbata ou da Judéia.
Procuro pelas ruas da cidade um rapaz,
Procurei em um livrão: Páginas Amarelas
Li, reli, busquei, não consegui, não fui capaz
Nada enfim encontrei apesar de toda cautela.
Me passaram o Balcão, um grosso jornal
Mas eu ainda não sabia o que este rapaz fazia
Minha busca foi em vão, inútil, senti-me mal
Pois não sabia se ele comprava, se vendia.
Procuro-o por todos os cantos desta capital
Só sabendo que era filho de José e de Maria.
Procuro-o por todos os cantos desta cidade
E lá no parque, um tal de Marcos informou,
Que nas bandas do cais, havia uma novidade
D'um moço novo, barbudo, que nunca pescou
Mas, mesmo faminto, não perdeu a hombridade
E vendo nos cestos, que a pesca não contemplou,
Dois peixes e cinco pães, com muita generosidade
Aprontou um lanche modesto e a todos a fome saciou.
Seria ele de uma ONG ou da Legião da Boa Vontade?
Não se sabe como conseguiu, ou mesmo como pagou.
Procuro encontrá-lo e saber coisas a respeito da sua vida.
Soube ter modificado a ganância de Zaqueus, o cobrador,
E que quando nasceu, pessoas simples deram-lhe acolhida
Uma estrela o iluminou, e que o anjo Gabriel, a José visitou.
Com Batista banhou-se nas águas frias do chafariz da avenida
E quando o mar estava de ressaca calmamente nele mergulhou.
Medicou o cego Bartimeu e atendeu ao policial do Centurião,
Bebeu na bica d'água com Samaritana e com ela conversou.
Salvou um paralítico para espanto de escribas e da multidão
E na hora do rancho, seu vinho e seu pão aos amigos partilhou.
Procuro sem encontrar notícias deste homem
Disseram que formara uma equipe de categoria,
Simão Pedro, João , Felipe e Tiago de Alfeu,
Mateus, Simão o Zelotes, Bartolomeu, e Tomé,
Judas Iscariótes, Tadeu, André, e Tiago de Zebedeu.
Fizeram piquetes, comícios, pregaram justiça e amor,
Incomodaram o "dono do local" que armou uma arruaça
Em uma jogada o X - 9, Judas, por trinta contos se vendeu,
Utilizou o subversivo Barrabás como cortina de fumaça
E ao tal rapaz, pancadaria, sofrimento e tortura submeteu.
Procuro cada vez mais informações do tal rapaz,
Soube ter sido executado, e ainda investigo seu itinerário
Cafarnaum, Central, Gamboa, Jericó, Estácio e Belém
Saúde, Jerusalém, Rocinha, Alemão e Monte do Calvário.
Nem no Instituto Médico Legal, nem no Pronto Socorro,
Nem nas DPs, ambulatórios, nem nas biroscas dos morros,
Ninguém sabia ao certo seu paradeiro, nem vira seu corpo.
Zé de Arimatéia e Nicodemos o enterraram como indigente,
Maria Madalena e suas amigas resolveram velar o morto,
Mas encontram o túmulo aberto, vazio, nada ali presente.
Procuro ouvir a voz e as palavras do tal rapaz
Desejo saber do que ele sabe e que ainda não sei,
Aprender a jogar a rede ao lado direito do barco,
Coletar todos pescados que a vida há de me provir,
Dividir sempre o pão, mesmo sendo este ázimo e parco,
Encontrar, na dor, a força-sentimento que me faça sorrir,
Acreditar que aos quarenta dias ele ascendeu aos céus,
Que sua benção, sua bondade, seu amor há de porvir,
Crer que sua caminhada não findou na estrada de Emaús,
Descubro, enfim, seu nome meu rapaz, mestre, amigo: Jesus!