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1-VMD-Você nasceu no interior da
Bahia. Relembrando essa fase, hoje que já passou por lugares
diferentes e mais requintados, quais as lembranças que conserva?
GD. Sim.
Nasci no povoado de Recife dos Cardosos, no município de Ibititá -
Região de Irecê - Chapada Diamantina Setentrional - Baixo Médio São
Francisco. Conservo as melhores recordações de minha infância
e do meu passado lá no Ser Tao da Chapada Dia man tina... Sertão
da lavoura, dos vaqueiros, do gado, dos garimpos, dos bodes e
cabras da peste, dos pássaros enigmáticos. Universo de
viajantes e aventureiros pelo vasto mundo dos mistérios e da expressão
oral e escrita. Sertão de Conselheiros e de muitos Canudos,
cenário dos Sertões de Euclides da Cunha, das Vidas Secas de
Graciliano Ramos, da Guerra do Fim do Mundo, de Mário Vargas Llosa,
Sertão de Cem Anos de Solidão de Gabriel, de O Quinze, de Rachel
de Queiroz; de Além dos Marimbus e de Cascalho, de Herberto
Sales e de Terra em Transe, de Glauber Rocha; sem esquecer de Maria
Dusá; do Coronel Horácio de Matos de Lençois e de Militão
da Barra do Mendes e das Brotas de Macaúbas e das Lavras
Diamantinas da Chapada Velha... e do Hermógenes, do Grande
Sertão:Veredas, de Rosa...Hermógenes existiu e foi um personagem
real concreto que habitou de verdade as pairagens do Sertão da
nossa encantada e decantada Chapada Diamantina. Da Bahia às
Minas... Sertão dos Revoltosos da Coluna Prestes, dos jagunços
e cangaceiros, de Lampião, Corisco, Zé Baiano, Manoel Quirino,
Volta Seca, Volta Grande...da mulher rendeira, da asa branca, da
triste partida e da feliz chegada...Sertão que meu cor ação
habita agora e sempre...sertão de meus sonhos e fantasias, dos
devaneios e navegações pelo infinito das estrelas...Conservo na
lembrança um tempo mágico inesquecível...uma epopéia poética e
fantástica de um menino do interior do Sertão da Chapada
Diamantina: Os tanques Velho e Novo, as pequenas lagoas e
aguadas...as cacimbas...os canoões, o açude, as lapas e
grutas, os caldeirões na rocha. as pedras, arrecifes e os
rochedos monumentais...as serras azuis a perder de vista no
horizonte do além...os tropeiros, loucos , aventureiros, os carros
de boi; os vendedores ambulantes, o circo; feirantes,
modistas, aventureiros... As história de defuntos-almas do outro
mundo... do lobisomem, de João Cego, de Dona Hilda do Pescoço
Torto e da Senhora que não se pode falar o Nome A Pelada...histórias
do Romãozinho...As peripécias de Pilão Deitado, de Zé Preto, Zé
de Lé e de tantos Zés e Marias... ah os ciganos
errantes e as belas ciganas, as jogadoras de cartas, de tarô
e as leitoras de mãos... Os tanques...A venda, empório que
abastece os pequenos lugarejos, arraiais e vilas perdidas na imendidão
sertaneja...são tantas as lembranças que daria alguns
causos, contos e romances...quem sabe um dia? Talvez eu memo posso
escrever algo..Um dia desses...
2-VMD-Seus pais estimularam o amor
à genealogia, ou nasceu de seu próprio estudo e curiosidade?
GD-Sempre
houve uma tradição genealógica que me foi transmitida pelos meus
antepassados de ambos os lados. Há um forte laço de consangüinidade
entre os meus familiares.Além de um culto às raízes, às
tradições e aos antepassados, suas gestas, feitos, lutas
e epopéias... Tenho origem nos antigos bandeirantes da
Bahia(Gabriel Soares de Souza; Melchior Dias Moréia; Matias Cardoso
de Almeida, Matias Cardoso;Mateus Nunes Dourado)) das Minas, de
São Paulo e de Portugal, que alcançaram os sertões de
Jacobina, do Morro do Chapéu, do Gentio do Ouro, das Lavras
Diamantinas, da Chapada Velha e da Nova América/América
Dourada/Rochedo/Lapão (Irecê), em busca do ouro e das pedras
preciosas e também influenciados pelo ciclo do gado e
pelo desbravamento e conquista do Rio São Francisco e de seus
vários afluentes(Verde;Jacaré;) ... Os Dourados sempre
estiveram ligados ao ouro, desde tempos imemoriais lá pelas bandas
do Rio Douro, do Porto e muito antes, com os Douros, os Dórons
e os Celtas da Idade Antiga e da Europa medieval. Houve um estímulo
natural da família(pai, mãe, tios, primos,parentes e avós) e
e também a pesquisa, a curiosidade e muito estudo.Além da Bíblia
que é um tratado de Genealogia e epopéias, principalmente o
Pentateuco e os livros do Velho Testamento e a Bíblia foi o
meu livro de cabeceira na infância e na adolescência
e ainda hoje o é. Recebi influências de alguns genealogistas da
Família: Roldão e Sebastião Dourado, quando morei na cidade de
Irecê, a nossa amada Terra do Feijão. Também fui
influenciado por Maria de Messias de Castro Marques Dourado;Anália
França Dourado; Dalila de Castro Dourado e por João
Cardoso,Tolentino e João Azevedo Dourado, além de Ulisses Marques
Dourado(Pai) e Edelzuíta de Castro Dourado(Mãe) e pela marcante
cultura oral do interior.
3-VMD-Acha que um ambiente agreste
pode ter mexido com sua imaginação trazendo todo um mundo de fantasia
e facilitando seu dom natural?
GD-Sim...e
como...muito mesmo. O sertão é uma fantasia permanente. Uma ilusão
real como um oásis no meio do deserto. Em nós sertanejos
habitam desertos repletos de oásis e estrelas vadias. O sertão nos
inspira com a Caatinga, as cantigas, as procissões, as fogueiras, os
pássaros e animais, os vaqueiros;as lendas,as inscrições
rupestres, os répteis e cobras; os rasos, os groseiros, os
lajedos, os mandacarus, os xique-xiques, cabeças-de-frade, os
caroás, as juremas, os mulungus, as barrigudas, as palmas, os
quiabentos, as faveleiras, os icós, ingás, os juazeiros e os
umbuzeiros...o umbuzeiro é uma entidade no meio da caatinga. Ele
prolonga a vida dos sertanejos. As dificuldades nos impostas pela
natureza fazem do sertanejo um ser duro, seco, esquálido, resistente,
mas de alma gigantesca e fraterna. O Sertanejo é antes de tudo um
Forte, como disse o mestre Euclides da Cunha. A vida no sertão é
drástica, difícil, caótica. Mas tem momentos de grandiosidade, de
romance, de novela e de alegria...somos personagens de contos e
causos a cada rancho, choupanas, casebres e pequenas roças e
fazendas. A roça é uma extensão da casa e de quase tudo. É na roça
que o homem do sertão se realiza. O Sertão é um dom natural,
uma fantasia que nos encanta por toda a vida...lá se diz: Aqui é a
terra onde pouco chove, mas o mato é verde...por isso as ilusões
da seca verde. São provocados pela riqueza do solo e pelos aqüíferos
e rios subterrâneos que precisam ser melhor aproveitados para
a irrigação da lavoura e para facilitar a realização dos
afazeres do cotidiano e mudar a vida agreste que se leva, sem
assistência, sem governo, sem Estado.
4-VMD-Algum fato ali já o ligava
à literatura? E por que?
GD-Tudo...praticamente
tudo...O Sertão é uma gesta, uma epopéia permanente. A literatura
oral está na alma e no convívio das pessoa no dia-a-dia. Há os
causos, contos e histórias incríveis, fantásticas, maravilhosas e
muitas histórias reais, tristes e difíceis de acreditar.Convivi no
meio de contadores de histórias, autênticos cronistas, contistas,
narradores e romancistas. Quase todos os sertanejos tem uma história
para contar.A aventura faz parte de nossa lida.O sertão é pura
literatura...é um grande romance que quer ser decifrado e
compreendido... e que já o foi em parte por nomes como Luiz
Gonzaga; Zé Ramalho; Graciliano Ramos; José Lins do Rego; José
de Alencar;Guimarães Rosa;Valfrido Moraes; Américo Chagas; Afrânio
Peixoto; Lindolfo Rocha; Herberto Sales; Jorge Amado; Adonias
Filho; Bernardo Élis; Domingos Olímpio; José Américo de
Almeida; Raquel de Queiroz; Franklin Távora; Dias Gomes; Patativa
do Assaré; Raul Seixas, entre tantos outros....
5-VMD-Escrevia desde a infância?
E o que realmente o motivou?
GD-Sim...a
própria vida que se vive em nosso Sertão do Deus
Dará... e muita leitura e observação dos fatos e
acontecidos.Desde que me entendo já tinha a mania de escrever
e de inventar palavras e frases. Comecei com a Poesia Oral. A
literatura verbal, as adivinhas, as parlendas, causos e contos, que
por lá se chama história. Prestava atenção no que falava os
mais velhos, os familiares e os transeuntes. Tive muitos motivos
para escrever e improvisar. Os encontros na Venda, nos tanques, nas
roças, nas feiras dos povoados, nas casas de família. As histórias
de reis e rainhas e dos seres mitólogicos e dos bandos de jagunços
e cangaceiros. É forte a presença da passagem dos "Mandiocas
e Mosquitos"; da Coluna Prestes, de Horácio de Matos,
Militão,Vítor, Zé Matias, Hermógens, Eusébio e Manoel
Quirino, de Lampião, Corisco, Volta Grande, Volta Seca,
Labareda e de tantos outros líderes e chefes de bandos. A lei
era feita à base da faca, do punhal, da cartucheira, da espingarda,
do parabellum, da repetição e da palavra... A palavra sempre foi a
principal arma. A palavra por lá era uma entidade...hoje tudo está
meio mudado com a tal da televisão, da Internet e de tantos
modernismos e novidades.
6-VMD-Quais os escritores que
marcaram sua vida literária.?
GD. Foram
e são tantos. Em primeiro lugar (num momento inicial), os
autores populares, contadores de historias e cultores da
Literatura Oral e da Literatura de Cordel. o Poeta Castro
Alves; Jorge Amado; Graciliano Ramos; Euclides da Cunha; Raquel
de Queirós; Monteiro Lobato; Ruy Barbosa; Charles Dickens; José
de Alencar; Ellen White; John Bunnyan; David Wilkerson; Os
cordelistas e cantadores repentistas: Zé de Duquinha e Rota,,
os Irmãos Bandeiras; os Irmãos Batistas;os autores bíblicos: São
João do Apocalipse; Daniel; Moisés; Ezequiel; Salmos e Provérbios; livros
religiosos e evangélicos; Erich Von Daniken; Colunas do Caráter;
Nutrição e Vigor; Então Virá o Fim; A Ciência e o Espaço
Cósmico; As Plantas Curam; os catecismos; os folhetos de cordel/ABCS;
as cartilhas; livros de admissão ao Ginásio; o Burrinho
Pedrês; o Flautista de Hamelin; os escritores e artistas
ambulantes... livros de bolso, revistas em quadrinhos; Flash Gordon;
livros de ficção científica; revistas Planeta e Veja. Enciclopédias
Rumo à Cultura; Delta La Rousse; Conhecer; Life; Time; Tecnirama;
Dicionários; Coleção Livro Eletrônico; Livros de Estudos
Sociais; História;Geografia; Português e Literatura em
geral. É preciso destacar a presença determinante do Rádio.
Rádio Tupi; Globo; Sociedade da Bahia; Sociedade de Feira de
Santana; Rádio Clube de Pernambuco; Jovem Pan; El Dorado;
Excelsior; Mundial. Rádios estrangeiras e um pouco da televisão de
1972 a 1975. Autores e livros que me influenciaram
ainda na Bahia, até 1975. É preciso destacar que de 1972 a
1975 trabalhei como auxiliar de biblioteca na Escola
Polivalente de Irecê, onde li muitos livros e fui Diretor
do Clube de Leitura. Participei do Clube de Ciências e fui
Diretor e Orador do Grêmio Estudantil Assis Chateaubriand. Recebi
também a influência dos irmãos Altamirando e Carlos Augusto
Macedo; do bibliotecários Clélio e Neurizete; dos professores Luiz
Antônio; João Almeida; Margareth; Luís Antônio; Luís Orlando, Augustos; Lauro
Galvão Dourado e de Lauro Adolfo Dourado, à época, intelectuais
da Região.
Num
segundo momento, já em Brasília, a partir de 22 de dezembro
de 1975 até 1985 tive uma fase de muita leitura. No Colégio Agrícola
de Brasília onde estudei e residi de 1976 a 1978, tive a
oportunidade de conhecer melhor novos autores como Machado de
Assis; autores russos, franceses e americanos: Reich;
Freud; Gibran; Carlos Drummond de Andrade;Autran Dourado; Michel
Quoist; Lobsang Rampa; Alan Kardec; Chico Xavier; Émile Coué; Henry
Charriére; Robert Charroux, vários autores estrangeiros e
outros diversos.
A minha
fase áurea de leitura foi na UnB, de 1979 a 1985, onde li centenas
de autores, por recomendação dos professores Cassiano Nunes; Maria
de Jesus Evangelista; João Ferreira; Aglaeda Facó; Oswaldino
Marques; Yves Challout; Danilo Lobo; Diana Bernardes;
Antônio Salles; Luiz Piva; Domingos Carvalho da Silva; Lílian
Zamboni; Sérgio Waldeck de Carvalho; Antônio Barros; Stella
Bortoni; Júlio Melatti; Lúcio Castelo Branco; Angélica
Madeira; Venício Lima; Manoel Vilela; Climério Ferreira; Fernando
Correia Dias; Luís Tarlei de Aragão; Eudoro de Sousa;
Guillermo Termenon de Sollis; Celestino Pires, Ronaldes de
Mello e Souza, entre tantos outros mestres. Li os clássicos da
Literatura Mundial e os livros fundamentais da Literatura
Brasileira e da Literatura Latino - Americana. Tive a oportunidade
de participar dos Encontros Internacionais da UnB; dos Encontros
Nacionais de Escritores e de vários seminários, simpósios e
debates literários. Em 1980 conheci Ferreira Gullar; Paulo Freire;
Luís Inácio Lula da Silva; Fernando Henrique Cardoso; Ignácio
de Loyola Brandão; Márcio Souza; Roberto Schwartz; Jorge
Mautner; Pompeu de Souza; Fernando Gabeira, Florestan
Fernandes, Antônio Houaiss, José Paulo Neto, Paulo Leminski, no
meu período de militância estudantil na UNE, no Centro Acadêmico
de Letras e no Diretório Central de Estudantes. Tive a oportunidade
de conhecer e dialogar com Jorge Amado; Umberto Eco; Octávio
Paz; Mário Vargas Llosa, Cora Coralina; Bernardo Élis; Gianfrancesco
Guernieri; Gilberto Gil; Haroldo e Augusto de Campos; Antônio
Callado; João Antônio; Caetano Veloso; Tom Zé; Cristovam Buarque;
Ziraldo; Francisco Alvim; Plínio Marcos; Orlando Tejo;
Ivanildo Vila Nova; Machado Nordestino; Sebastião Nunes Batista;
Raul Seixas; Zé Ramalho; José Celso Martinez Correia; Itamar
Assunção; Arrigo Barnabé; Affonso Romano de Sant'Anna; Márcia
Macedo; Darcy Ribeiro; Paulo Mendes Campos; JJ Veiga; Mário Chammie;
Mário Quintana; Renato Russo; Vladimir Carvalho e Sílvio
Tendler. A Biblioteca da UnB era de bom nível e
tive a oportunidade de ler bastante, pois era residente no Centro Olímpico
da Universidade - Alojamento Estudantil, relativamente próximo à
Bilioteca Central. Praticamente li de tudo na UnB. De Marx a James
Joyce; de Mário a Oswald de Andrade; os Modernistas e os contemporâneos
de todas as tendências. Na UnB tive uma boa participação no
Movimento Estudantil. Fui Delegado da UNE; do DCE e Diretor criador
do CALEL - Centro Acadêmico de Letras, com Sâmia Kouzak e Maria do
Rosário Caetano.A minha maior participação foi no Movimento
Cultural com performances; recitais de poesias; eventos
literários e culturais; As Semanas Culturais como a Expoarte 6; 7 e
8; o Show do Arroto; o Flimpo; o Cuca - Movimento
Candango de Dinamização da Cultura; O Movimento pela Anistia Política
e pela Autonomia de Brasília, com Pompeu de Souza e Maurício
Correia...
7-VMD-Quando sentiu que seria
realmente um escritor houve algum fato que o predispôs a isso?
GD-Senti
que seria Escritor quando observei as estrelas do magnífico céu do
Sertão e percebi a grandeza da sua gente...Quando senti as
dificuldades vividas pelo povo e o sofrimento imposto pelo descaso
das autoridades e do Estado autocrático e discriminatório...Aí
vi e senti que teria de escrever algo para denunciar
tantas arbitrariedades e mentiras impostas pelos poderosos...Ao
constatar que apesar de tanta riqueza, a distribuiçao de renda é
muito concentrada nas mãos de poucos, fato que provoca a injustiça
e a miséria tão presente em nosso País...Até quando?
8-VMD-Você é autor de nove
livros.No primeiro que publicou poderia falar como foi esse processo
de elaboração e a sensação quando viu o livro em suas mãos?
GD-Quase
morri de emoção...Foi um momento mágico. Tentei por vários anos
publicar o primeiro livro e sempre era barrado pelas
dificuldades ou pela má fé de alguns pretensos editores. O livro
é como se fosse um filho, um pedaço de nossa alma.
Meu
processo de criação é amplo é complexo às vezes
simples...quando cordelo, elaboro a linguagem da poesia viva, da
poesia oral, presente na criatividade de nosso povo...o cordel é
poesia pura, tem do mais simples até o mais elaborado...é uma
linguagem riquíssima que influenciou grande escritores e artistas
como Zé Ramalho, Gláuber Rocha, Raul Seixas, Chico Science,
Jorge Amado e Guimarães Rosa... Em mim o cordel vem do berço, de
nascença... aprendi a ler em cordel ouvindo os cantadores
repentistas, aboiadores, emboladores, coquistas, trovadores,
contadores de história... Convivi muito com pernambucanos,
alagoanos, paraibanos e nordestinos em geral, lá nos primórdios de
minha infância. Meu pai foi lavra.dor de dia e dono de venda à
noite e nos fins de semana...sempre ouvia causos e cantos, contos,
loas, aboios, lendas, estórias da carochinha...o sertão é repleto
de histórias, mistérios e superstições. É riquíssimo o
misticismo da caatinga e do cerrado. Misturei a mística da Chapada
Diamantina e do Rio São Francisco, com a magia e a modernidade do
Planalto Central, a inovação construtiva e arquitetônica de Brasília.
Aqui, convivo com artistas de todas as tendência e matizes.
Busca-se uma nova arte que sintetise a vertente sertaneja com a pós-moderna...Creio
que Phalábora seja um pouco dessa mistura entre o erudito e o
popular, entre o concreto e o abstrato, com pinceladas do místico e
doses do dialético...A minha criação dá-se no cotidiano, é flexível
e variável, sou um matuto com trejeito de intelectual, trans-piro
com a palavra, respiro o verso a cada instante, leio sempre, admiro
(a)os mestres da linguagem, Machado, Graciliano, Pessoa, Joyce e
Guimarães Rosa, por excelência. Tem também o lado bíblico,
apocalítico, profético, glauberiano, proveniente do misticismo
sertanejo e ecológico do Cerrado e da Magia da Chapada Diamantina e
do Planalto candango. Meu misticismo é cósmico, vai de Apocalipse,
Padre Cícero, Frei Damião, Lampião, Antônio Conselheiro até Tia
Neiva, Yokannam, Pietro Ubaldi, General Uchôa, São Francisco de
Assis, Chico Xavier, Vedas, Mahabarata, Aknaton, Plêiades,
Tutankamon, Ybez, Fawcett, até o universo dos governantes invisíveis,
do misterioso desconhecido, dos mistérios da umbanda, dos orixás,
dos xamãs e pajés, até à sabedoria iniciatica das idades, da
teosofia, Teurgia, Eubiose, da cabala/caabala, dos povos antigos,
dos incas, dos egípcios e dos maias...Sou um espiritualista com os
pés no chão. Um pan-materialista trans dial ético nas estrelas e
no cosmos...sem esquecer a realidade do dia-a-dia e da noite - a -
noite de nossa sagrada Poesia de cada momento...
9-VMD- A literatura é primordial
para você ou a pratica para exteriorizar suas inspirações e
talento?
GD-É
primordial...é tudo...é minha vida...minha alma...Com a literatura
exteriorizo o meu sentimento e as minhas emoções. Literatura é
uma mistura de talento, inspiração e muita transpiração, muito
esforço pessoal e bastante suor derramado, além de leitura
constante e atualização permanente.
10-VMD-Como escritor, professor de
português e literatura o que acha da educação em nosso país e o
que deveria ser feito para que conseguíssemos definições?
GD-A Educação
no Brail precisa ser prioridade, como é prioridade a dependência
ao FMI e o desmonte do patrimônio público e a entrega de
nossas riquezas por moedas podres e a preço de banana...Sem educação
de qualidade seremos uma eterna província dependente dos países
ricos, dos organismos e empresas internacionais... Mais
investimento e amor à camisa... à causa do saber . Precisamos de
um exército de Paulos Freires, Anísios Teixeiras e Darcys
Ribeiros para lutarem pela Educação e pela Cultura.. É preciso
priorizar a educação em todos os níveis e democratizar as
oportunidades. Livros e estudo gratuito para todos. Construir
escolas e bibliotecas públicas de qualidade em todos os municípios
brasileiros. Menos enrolação e mais verba para a educação...parodiando
o movimento estudantil.É preciso uma força-tarefa atuante em todos
os municípios brasileiros para acabar com a chaga do
analfabetismo que atravanca o nosso País...Urge.
11-VMD-As figuras de Lampião e o
cangaço no Brasil são descritas por Gustavo Dourado com sabedoria.
O que o levou a escrever sobre o assunto de forma tão abrangente?
GD-A
realidade em que se vive. As contradições do meio...As injustiças
que se cometem sobre o assunto, principalmente sobre Lampião, que
foi um grande bandido e ao mesmo tempo foi poeta e
contestador.Tornou-se uma lenda , um herói...um anti-herói...um
personagem da poesia, do folclore, do romance e da literatura de
cordel. Lampião nasceu das contradições do sistema oligárquico e
das mazelas do latifúndio. Precisamos de um Lampião para por
o FMI e os opressores na Roda...Viva Lampião...
O rei
do cangaço
Gustavo
Dourado
Lampião nasceu das contradições e conflitos da terra, da
violência do campo imposta pelos coronéis latifundiários, políticos
corruptos e do clero aliado da aristocracia sertaneja e da burguesia
litorânea. Eternizou-se como mito da cultura popular. Virou lenda
no Brasil de Sul a Norte, principalmente nas regiões Norte e
Nordeste. Influenciou a música popular nordestina. Apimentou os
acordes de Luiz Gonzaga e de centenas de sanfoneiros, violeiros,
repentistas e cordelistas. Seu sangue corre nas veias do xaxado (dança
dos cangaceiros), no xote, no baião e no forró.
“É Lamp, é Lamp, é Lamp. É Lamp é Lampião. Seu nome é
Virgulino, o apelido é Lampião”. Este é o hino consagrado ao
rei do cangaço pelo Brasil. Um canto que eclode nas caatingas, no
agreste, no Raso da Catarina, na Serra do Apodi, nos cariris, Serra
Talhada, tabuleiros, lugares por onde passou o célebre cangaceiro.
Virgulino Ferreira da Silva nasceu
em Vila Bela, atual Serra Talhada – alto sertão pernambucano –
no ano de 1897. Ano trágico do massacre de Canudos, onde foram
assassinados milhares de camponeses. Da estirpe de Antônio
Conselheiro, o famoso beato e líder político-religioso que
inspirou Os Sertões, obra-prima de Euclides da Cunha, Lampião foi
cangaceiro, uma categoria acima de jagunço. Com ele, muitos jagunços
– vassalos dos coronéis – ascenderam à posição de cangaceiro
que era símbolo de independência e individualidade. O soldo do
cangaceiro dependia do que se conseguia em saques, sequestros,
assaltos a fazendas e cidades. Lampião era generoso e bom pagador.
Franqueava aos cabras do bando ações individuais que rendiam
alguma remuneração.
O reino de Lampião durou de 1914 a 1938. Atraiu muitos jagunços e
coiteiros de todo o Nordeste numa época crítica, sem muitas opções
de trabalho. Calcula-se que seu grupo tinha em torno de 120 membros.
Lampião viveu todos os conflitos de seu tempo quando o sítio de
seu pai, José Ferreira, em Vila Bela, foi invadido pelo fazendeiro
João Nogueira e seus capangas. Invadiram as terras dos Ferreiras,
cortaram orelhas dos animais. Fizeram emboscadas e trapaças, em
1911. Os Ferreiras fugiram para um sítio no interior de Alagoas e
se desentenderam com o subdelegado da região que invadiu o local e
matou o pai de Lampião.
Aos 23 anos, após o assassinato do pai, Lampião tornou-se
cangaceiro. Levou consigo os irmãos Ezequiel, Antônio e Livino. O
apelido de Lampião foi dado pelos homens do bando de Sinhô Pereira
que iniciou o jovem Virgulino no cangaço. Reza a lenda que
Virgulino atirava muito bem e que o seu fuzil parecia iluminado.
Atribui-se a ele a frase: “Meu fuzil não nega fogo”. A frase
foi retrucada por outro cangaceiro que disse: Então não é fuzil,
é lampião”. O apelido pegou e virou mito no sertão de Deus-dará.
Lampião herdou o comando do bando de Sinhô Pereira aos 25 anos. A
partir de 1926 algumas mulheres foram incorporadas ao bando. Lampião
conheceu Maria Bonita em 1929, então mulher de um sapateiro. Fez a
corte à bela Maria que abandonou o marido e optou pelo cangaço.
A caçada a Lampião e seu bando terminou no dia 12 de agosto de
1938. O cangaceiro foi morto aos 40 anos, a 3 quilômetros do Rio São
Francisco, na grota da fazenda Angico. Época em que o rei do cangaço
estava distraído, preocupado com a sua Maria Bonita que vivia o
drama da tuberculose. A tropa do tenente João Bezerra recebeu o
serviço do coiteiro de Lampião Pedro de Cândido que, segundo
consta, teria levado bebida envenenada para os cangaceiros. Não
houve luta. Os homens estavam bêbados e dormentes. Onze cangaceiros
foram mortos, incluindo Lampião e Maria Bonita. Vinte e quatro
cangaceiros fugiram pelo sertão. Acabou-se, aí, o reinado de Lampião.
Mas a lenda continua.
12-VMD-Você é um mestre em
cordel. Acha que essa categoria expressa a verdadeira riqueza de
nosso povo?
GD-Muito. o
Cordel é a alma da Poesia do Nordeste e do Sertão. Influenciou os
principais autores da Literatura Brasileira. Autores como Ariano
Suassuna; Castro Alves; Jorge Amado; Luís da Câmara Cascudo; Mário
de Andrade; Graciliano Ramos; José de Alencar; José Lins do
Rego; Rachel de Queiroz; Guimarães Rosa; Orígenes
Lessa; Monteiro Lobato; Hermilo Borba Filho; Hermínio Bello de
Carvalho; José Américo de Almeida; Franklin Távora; Ascenço
Ferreira; Cora Coralina; Bernardo Élis; Manuel Bandeira; João
Cabral de Melo Neto; Mário Lago; Marcus Accioly; Antônio
Callado; João Antônio; Dias Gomes; Carlos Drummond de Andrade; Orlando
Tejo; Vânia Diniz; Luiz Alberto Machado; Soares Feitosa;
Franklin Machado; Paulo Dantas; José Condé; Glauber Rocha e
artistas como Raul Seixas; Luís Gonzaga; Zé Ramalho; Ednardo;
Belchior; Alceu Valença; Quinteto Violado; Chico Science;
Chico Cézar; Raízes; Miran; Nando Cordel; Zeca Baleiro;
Fagner; Elba Ramalho; Geraldo Azevedo; Tom Zé; Caetano
Veloso; Gilberto Gil; Geraldo Vandré; Chico Buarque; Téo Azevedo;
Elomar; Xangai; Décio Marques; Americano;Jorge Mello; Elba Ramalho;
Amelinha; Catulo da Paixão Cearense e tantos outros. Nomes
importantes estudaram o cordel como Raymond Cantel e Silvie Raynal,
da Sorbonne; Mark Curran, da Universidade do Arizona; Joseph Luyten
e no Brasil nomes como Luís da Câmara Cascudo; Leonardo Mota, Cavalcanti
Proença; Manuel Diegues Júnior; Jerusa Pires Ferreira, Sebastião
Nunes Batista e Adriano da Gama Khoury...Transcrevo aqui um
breve artigo que fiz sobre a Literatura de Cordel:
Literatura
de Cordel
Gustavo
Dourado
A Literatura
de Cordel, mais que centenária... tem suas origens ocidentais e pré-medievais
no universo poético de Provença, França, e ganhou estatura poética com
os trovadores provençais albigens(com destaque para Arnaud
Daniel e Rimbaud Daurenga).
As influências são multidiversas: desde a poesia árabe, mediterrânea,
hindu e persa à poética egípcio-hebréia- greco-latina e afro -
indígena...
Entretanto,
a Poesia de Cordel tem a sua força na expressão ibero-lusitana -
brasilíndia - nordestina e galego-castelã...
Foi na Espanha e em Portugal, que a poesia de cordel ganhou feição
e essência literária.
É na poesia cavalheiresca e trovadoresca que o cordel se inicia de
forma pungente e pujante, pricipalmente a partir dos 12 pares da
França, de El Cid, O Campeador e da obra monumental de Camões, Gil
Vicente e Cervantes, ambos influenciados por Dante Alighieri.
Os reis trovadores Dom Diniz e Dom Duarte foram os nossos mais
destacados precursores ibéricos.
A Literatura de Cordel foi enriquecida pela criatividade e maestria
de Gil Vicente, Camões, Gregório de Matos, Bocaje, Castro Alves,
Rabelais, Cervantes, Catulo da Paixão Cearense, Ascenso Ferreira,
Juvenal Galeno e dos mestres e pesquisadores da cultura
popular: Leonardo Mota, Luiz da Câmara Cascudo, Ariano Suassuna,
Cavalcanti Proença, Jorge Amado, Glauber Rocha, João Cabral
de Melo Neto, Rachel de Queiroz, José Américo de Almeida, Manuel
Diegues Júnior, Sebastião Nunes Batista, Sílvio
Romero,Vicente Salles, Téo Azevedo, Orígenes Lessa, Mário Lago,
Jerusa Pires Ferreira, Joseph Luyten, Mark Curran, Silvie Raynal,
Raymond Cantel, Zé Ramalho e tantos outros nomes de destaque.
No Brasil, o cordel ganhou estatura poética no Nordeste do Brasil,
pelas bandas do Sertão do Cariri, do Pajeú, da Serra do Teixeira,
Campina Grande, João Pessoa, Caruaru, Juazeiro do Norte, Crato,
Recife, Fortaleza, Salvador, Serra Talhada, Mossoró, Caicó, Paulo
Afonso, Feira de Santana, Juazeiro, Petrolina, Irecê, Chapada do
Apodi, Serra da Borborema, Chapada Diamantina, Rio, São Paulo, Brasília,
Ceilândia e pela vastidão dos lugarejos, arraiais, vilas e
cidadelas da caatinga e do agreste, com os vates - poetas Leandro
Gomes de Barros, Rodolfo Coelho Cavalcante, Francisco Chagas
Batista, Francisco Sales Areda, Manoel Camilo dos Santos, Minelvino
Francisco da Silva, Caetano Cosme da Silva, João Melquíades
Ferreira da Silva, José Camelo de Rezende,Teodoro Ferraz da Câmara,
João Ferereira de Lima, José Pacheco, Severino Gonçalves de
Oliveira, Galdino Silva, João de Cristo Rei, João Ferreira de
Lima, Antônio Batista, Laurindo Gomes Maciel, Manuel Pereira
Sobrinho, Antônio Eugênio da Silva, Augusto Laurindo Alves(
Cotinguiba), Moisé Matias de Moura, Pacífico Pacato Cordeiro
Manso, José Bernardo da Silva, Cuíca de Santo Amaro e João
Martins de Athaide, Francisco Gustavo de Castro Dourado,João Lucas
Evangelista, Zé de Duquinha, Audifax Rios e Rubênio Marcelo, entre
outros nomes significativos do passado e da atualidade, dentre
tantos baluartes da Poesia Popular e do Romanceiro do Cordel..
Convém ressaltar figuras de destaque, mistura de cordelistas e
cantadores como o Cego Aderaldo; Zé Limeira, lendário Poeta
do Absurdo, de Orlando Tejo e Patativa do Assaré, da Triste
Partida, Zé da Luz, Raimundo Santa Helena e Franklin Machado
Nordestino. Além de centenas de cordelistas que divulgam os seus
trabalhos na Internet. Temos até uma Academia Brasileira de
Literatura de Cordel.
O cordel continua e sobrevive, apesar das idiossincrasias, intempéries
e dificuldades e das antropofagias e pilantropias da Indústria
cultural midiática e globalizante...
São imprescindíveis a abertura de espaços e fóruns de discussão
e de publicação de textos de cordel, de autores tradicionais e
contemporâneos para dinamização do movimento da Poesia Popular
Universal...A Internet é um espaço primordial...Que viva a
Literatura de Cordel...
VMD-- Gustavo, Obrigada pela brilhante entrevista.
GD-Vânia
Diniz
Mulher múltipla,
escritora filósofa e jornalista ....
Nome de destaque
na Internet e no campo das Artes e da Literatura...
Agradeço a
oportunidade de responder a tão importante Entrevista ...
Fraternalmente,
Gustavo Dourado
www.gustavodourado.com.br
www.phalabora.ta-na.net
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