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Vânia Moreira Diniz |
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1-Hélide, sua infância foi passada entre professores ou literatos? R-Não, só tenho um tio que é professor, com quem pouco
convivi. 2-Há algum fato que
tenha lhe levado á escolha de sua profissão? R-Indiretamente,
não, mas minha mãe sempre sonhou em ser professora, entretanto, não
teve condições de prosseguir nos estudos. Ela sempre me dizia que
sonhava em me ver ensinando. Em 1993, ela adoeceu e eu achei que tinha que
ocupar o meu tempo para não enlouquecer. Comecei a fazer o curso de
Letras, mas não pensava em lecionar. Em 1996, poucos meses antes da minha
formatura, ela faleceu. Senti que precisava fazer algo para não cair em
depressão, assumi, então, umas aulas num colégio perto de minha cidade.
A partir daí, nunca mais consegui deixar de ser professora. Meus tios me
dizem que o desejo da minha mãe se realizou. Na verdade, não sinto que a
minha profissão tenha sido uma escolha, mas um caminho que deu certo. 3-O que significa para
você, uma mulher independente, a verdadeira emancipação da mulher? R-Significa
reconhecimento, por parte da sociedade, que ainda tem muito a melhorar
nessa questão. A cada dia, mais e mais mulheres conquistam seu espaço no
mercado de trabalho, acho isso fascinante. Somos sensíveis e fortes,
determinadas, seguras do que queremos. A mulher tem lutado por seus
direitos e cada vez mais tem mostrado sua competência e independência. 5-Até que ponto sua
formação influiu de modo marcante na sua literatura? R-Meus pais
sempre gostaram de escrever. Eles estudaram até a 4ª. Série do Ensino
Fundamental I, antigo primário, mas liam muito. Meu pai foi político e
ele mesmo criava os textos propagandísticos dele. Minha mãe sempre pegou
no meu pé para que eu tivesse boas notas e como a paixão dela era a Língua
Portuguesa, as cobranças em cima das redações que eu fazia na escola
eram muito intensas. Outra coisa legal é que tínhamos o costume de
deixar bilhetes e cartas uns para os outros. Eu acordava e encontrava uma
cartinha do meu pai grudada na geladeira, uma da minha mãe dentro do meu
caderno. Como filha única que sou, nossos escritos eram “melados”,
repletos de poesia e de amor. Ou seja,
acabei me apaixonando pela literatura, de um modo geral, pelo que
aprendi com meus pais. 6-Saindo um pouco do
campo profissional, poderia falar de experiências infantis ou
adolescentes que constituíram uma base para sua vida adulta? R-Como eu
disse acima, fui exageradamente amada. Sentia falta de irmãos, mas meus
pais sempre procuraram fazer de tudo para que essa falta não me fizesse
ser infeliz. Fui uma criança e uma adolescente muito presa, em função
do medo que eles tinham de me perder. Era um cuidado exagerado. Aos 13
anos de idade, tive uma doença chamada melancolia, comecei a perder o
gosto pela vida, não comia, só chorava, os médicos recomendaram uma
viagem bem longínqua, e sozinha, pois eu precisava crescer, sair das
barras das calças dos meus pais. Com muita dificuldade, eles me mandaram
passar um mês na casa de uma tia, que morava em Brasília. Essa foi a
primeira vez que eu saí sem meus pais. Foi aí que eu cresci, que
amadureci, voltei para casa uma outra Hélide. Eu nunca os culpei, mas
procuro ser uma mãe diferente para meus filhos. Mas, o amor foi a base de
tudo para a minha formação. Além disso, sempre pude falar tudo o que
queria, nunca escondi nada deles, pois sabia que eles sempre estariam do
meu lado, ainda que eu fizesse alguma bobagem. 7-Como foi a elaboração e publicação do seu livro “catedral Eletrônica”? E como se deu todo o processo? R-Eu havia acabado de
defender minha dissertação de mestrado, aí um amigo meu me perguntou se
eu não achava uma boa idéia publicar esse trabalho. Era um sonho ainda,
mas tudo foi se encaixando de um modo tão peculiar que, quando acordei, o
livro já estava em minhas mãos. Levei um mês para mudar parte da
linguagem, adaptando para livro. O lançamento foi surpreendente. Havia
muitos amigos e alunos, o auditório da OAB de Sorocaba, que gentilmente
me concedeu o espaço, estava lotado. Foi uma emoção muito grande. 8-Hélide, sua
biografia é brilhante. Você é graduada em Letras, especializada em Língua
Portuguesa, mestra em Comunicação, doutoranda em Filologia e é
professora de Linguagem Jurídica e de Lingüística. Sente-se plenamente
realizada profissionalmente? R-Muito.
Apesar das inúmeras dificuldades, amo ser professora e não abro mão
disso por nada. Meu marido brinca que eu gosto de sofrer, mas para mim
cada turma tem as suas características, cada aluno é um, enfim, já tive
oportunidade de trabalhar como pesquisadora, como revisora de textos, como
consultora, mas aí eu teria que deixar a sala de aula e isso, nem pensar.
Sei que preciso aprender muito ainda e que preciso melhorar, pois todos
somos imperfeitos, mas creio que quando a gente trabalha por amor, por
dedicação, isso reflete positivamente na vida das pessoas com as quais
convivemos. Pretendo terminar o doutorado e batalhar por umas aulas na pós-graduação,
outro sonho que tenho. Espero poder conseguir realizá-lo. 9-Como você tem
superado as dificuldades apresentadas pelos alunos decorrentes
de um ensino deficiente ou mesmo inadequado em linguagem da Língua
Portuguesa em nosso processo de aprendizagem?
R-Não
existe nada mais gratificante do que você encontrar um aluno no ensino
superior que não sabe escrever, que briga o tempo todo com as regras
ortográficas, que não consegue pôr no papel uma resposta sequer. Aí
você vai mostrando a ele a importância da leitura e do treino da
escrita, vai tentando passar para ele que escrever não é um bicho de
sete cabeças e que não se deve ter medo da escrita, além disso, vai
promovendo atividades que despertem nele o gosto e o prazer pela pesquisa,
pelo nosso idioma, em especial. No final, o resultado é surpreendente. Os
bloqueios são muito menores e a conscientização é maior. O professor
precisa acreditar nesse aluno, dar oportunidades de crescimento a ele, não
simplesmente dizer que ele não tem competência para estar na
universidade e reprová-lo. Se esta abriu as portas para recebê-lo quem
somos nós para julgá-lo incompetente? Sei que essa é uma questão polêmica
e muito complicada, mas tenho tido experiências incríveis, tenho tentado
superar essas dificuldades a cada dia. 9-Como você
classificaria o termo “Comunicação” de um modo geral?
9-Hoje, muito se fala em
Comunicação. Para mim, esse termo significa muito, mas de um modo geral,
penso que seja a possibilidade de interação entre as pessoas sem nenhum
ruído, o contato eficaz entre elas, no mesmo idioma, ou seja, na mesma
linguagem. Uma troca de
informações em que tanto o emissor quanto o receptor possam se entender. 10- Consegue conciliar
com facilidade as duas
vertentes de sua vida: familiar e profissional?
R-Meu marido e meus filhos me apoiam muito. Às vezes penso que não
vou conseguir dar conta das minhas atividades, mas eles estão sempre por
perto me inspirando, não me deixando desistir. Tudo o que consegui até
hoje devo a eles, à força que me dão. 11- Quais foram os
grandes mestres de sua vida que a influenciaram como mulher, escritora e
Professora?
R-Em primeiro lugar, meu
Deus, que é meu grande mestre e está sempre me acompanhando. Depois,
meus pais que me ensinaram a viver com garra e determinação. Meu marido
que é o companheiro de todas as horas, uma pessoa centrada, ponderada,
que está o tempo todo me ensinando. Meus filhos, que são adolescentes,
mas o tempo todo estão me mostrando alguma coisa nova e boa. Minha filha
também escreve (poesias) e ela me influencia bastante. Além deles, tenho
amigos que me servem de exemplo, não os cito pelos seus nomes, pois posso
cometer a injustiça de esquecer algum. Meu orientador, Dr Hudinilson
Urbano, que tem me acompanhado desde o mestrado, ainda que, indiretamente,
e agora, no doutorado, mais diretamente, tem sido para mim um grande
exemplo de competência e determinação. Drª. Margarida Cantarelli,
presidente do TRF do Recife, a quem eu chamo carinhosamente de minha
co-orientadora, a qual tem apoiado as minhas pesquisas, essa mulher é uma
inspiração para todos que com ela convivem por seu caráter, sua garra,
e por sua vontade de fazer justiça . Vânia-
Obrigada, querida Hélide, pela sua brilhante entrevista que muito me
gratificou. Sei que os seus leitores vão vibrar. |
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