Estou na hora do cansaço. De repente, os braços pesam e o
cérebro, lerdo, se recusa a trabalhar e se atordoa diante
das idéias e das percepções que, indiferentes, continuam
sendo processadas, oriundas de todos os cantos possíveis e
impossíveis do universo, fazendo da própria
tridimensionalidade uma fronteira intransponível – muros
incrivelmente altos, erigidos pela mão do tempo em rocha
dura, escaláveis talvez pelo entusiasmo e pela força de uma
juventude que se foi e, se retorna, o faz apenas de modo
efêmero, deslizando nas ondas da saudade e indo embora antes
que minha lentidão desgastada consiga o gesto de retê-la.
E é assim,
alquebrado, que o espírito continua sua jornada, de quando
em quando olhando, nas ampulhetas de Cronos, a areia
escorrer levando instantes que, por sua vez, já se mostram
assombrados por um ontem mal dormido, desses que insistem em
serem hoje eternamente e, berrando, expulsam da mente
qualquer possibilidade do novo.
Mas a vida, que continua sempre, continuará também desta
vez, não importa a dor reumática nas articulações da alma,
nem a ranhetice senil do ego. E, em dado momento, o cansaço
se cansará de ser e, com a mesma pressa com que se instalou,
irá de novo embora.
Vai começar, então, o desabrochar gradativo da flor do
espanto, revigorada pelo descanso forçado, piscando sua
surpresa luminosa sobre cada átimo do tempo e cada mícron do
caminho. E, apesar da imensidão de negações gerada pela
ganância egolátrica dos homens, seu aroma purificará com a
esperança os céus poluídos, os mares cheios de lixo e a
terra devastada e combalida.
E os milagres
simples da criança, sábia em sua recusa das
responsabilidades falsas dos adultos, esquecidos das cores
da infância, acontecerão inexoravelmente na implacável
seqüência dos dias, alterando os espaços cinzas com um
branco sem preocupação com sua alvura, manchado aqui e ali -
de sangue, talvez -, joelhos esfolados na travessura de um
salto, mergulho ousado do rochedo até o rio, mais aqualouco
do que ornamental, mas divertido.
Assim sem
linearidade, porém matematicamente aleatória, a humanidade
irá, como o faz desde os primórdios, construindo seu gráfico
na evolução do universo através de elipses, curvas e
retornos sobre si mesma que, vistos pela abrangência,
formarão uma espiral teimosa para cima, cada vez mais ampla
em sua curiosidade pelo conteúdo do todo, e cada vez mais,
talvez paradoxalmente, livre da necessidade de respostas.
Isso porque o
homem, este ser feito de horror e maravilha, existe para
buscar conhecimento, mas se move nas teias da procura apenas
com o radar de uma fé mágica lhe sussurrando aos ouvidos que
ele não está ali por acaso. E isso, somente isso, basta para
lhe dar asas e empinar seus sonhos lá, no muito alto, onde
perguntas não fazem nenhum sentido e a certeza não precisa
de palavras para se expressar.
É por ali que
eu, burro, porém feliz, cuido como um dom de minha surdez
aos lulalás e lulacás, saboreando os frutos da alegria
simples e deixando, para quem quiser descascar, a ironia dos
eruditos com seus espinhos e o travo ácido do ceticismo
intelectual.
Hugo
Leal