©  Hugo Leal
Poeta e escritor

BURRO, PORÉM FELIZ.

Estou na hora do cansaço.  De repente, os braços pesam e o cérebro, lerdo, se recusa a trabalhar e se atordoa diante das idéias e das percepções que, indiferentes, continuam sendo processadas, oriundas de todos os cantos possíveis e impossíveis do universo, fazendo da própria tridimensionalidade uma fronteira intransponível – muros incrivelmente altos, erigidos pela mão do tempo em rocha dura, escaláveis talvez pelo entusiasmo e pela força de uma juventude que se foi e, se retorna, o faz apenas de modo efêmero, deslizando nas ondas da saudade e indo embora antes que minha lentidão desgastada consiga o gesto de retê-la.

 

E é assim, alquebrado, que o espírito continua sua jornada, de quando em quando olhando, nas ampulhetas  de Cronos, a areia escorrer levando instantes que, por sua vez, já se mostram assombrados por um ontem mal dormido, desses que insistem em serem hoje eternamente e, berrando, expulsam da mente qualquer possibilidade do novo.

 

Mas a vida, que continua sempre, continuará também desta vez, não importa a dor reumática nas articulações da alma, nem a ranhetice senil do ego. E, em dado momento, o cansaço se cansará de ser e, com a mesma pressa com que se instalou, irá de novo embora.

 

Vai começar, então, o desabrochar gradativo da flor do espanto, revigorada pelo descanso forçado, piscando sua surpresa luminosa sobre cada átimo do tempo e cada mícron do caminho. E, apesar da imensidão de negações gerada pela ganância egolátrica dos homens, seu aroma purificará com a esperança os céus poluídos, os mares cheios de lixo e a terra devastada e combalida.

 

E os milagres simples da criança, sábia em sua recusa das responsabilidades falsas dos adultos, esquecidos das cores da infância, acontecerão inexoravelmente na implacável seqüência dos dias, alterando os espaços cinzas com um branco sem preocupação com sua alvura, manchado aqui e ali - de sangue, talvez -, joelhos esfolados na travessura de um salto, mergulho ousado do rochedo até o rio, mais aqualouco do que ornamental, mas divertido.

 

Assim sem linearidade, porém matematicamente aleatória, a humanidade irá, como o faz desde os primórdios, construindo seu gráfico na evolução do universo através de elipses, curvas e retornos sobre si mesma que, vistos pela abrangência, formarão uma espiral teimosa para cima, cada vez mais ampla em sua curiosidade pelo conteúdo do todo,  e cada vez mais, talvez paradoxalmente, livre da necessidade de respostas.

 

Isso porque o homem, este ser feito de horror e maravilha, existe para buscar conhecimento, mas se move nas teias da procura apenas com o radar de uma fé mágica lhe sussurrando aos ouvidos que ele não está ali por acaso. E isso, somente isso, basta para lhe dar asas e empinar seus sonhos lá, no muito alto, onde perguntas não fazem nenhum sentido e a certeza não precisa de palavras para se expressar.

 

É por ali que eu, burro, porém feliz, cuido como um dom de minha surdez aos lulalás e lulacás, saboreando os frutos da alegria simples e deixando, para quem quiser descascar, a ironia dos eruditos com seus espinhos e o travo ácido do ceticismo intelectual.

 

Hugo Leal

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