
Poemas
José Donizete Gonçalves
Vida no Deserto
Tendo
o mar a centenas de milhas,
Banhando as encostas da jovem nação
E rios que não acenam ao país
Para nenhuma pescaria feliz.
Peixes só falam a linguagem do mar.
Como também as pessoas nesta terra
Falam todas as línguas , menos a minha
Idiomas tribais, canibais, mundiais
Da Ásia, América do Sul, da África,
Da Oceania, Europa, América do Norte,
Numa feira lingüística sem igual
Verdadeira Torre de Babel!
A mais dura língua falada aqui
É a do medo e da desconfiança:
Para comprar lugar-comum na farmácia,
Tem interrogatório de crediário.
É como nos saloons do Velho Oeste,
Onde só bebe uísque quem mostra a grana.
O peixe que abunda no oceano
É bem escasso no mercado cigano.
De congelado, basta o inverno local!
Neste deserto sem mulher bonita,
A gente se diverte olhando p’rás feias.
Os Kudus fugindo dos forasteiros,
Como se foge da bala do caçador
Nesta fatia exposta de vida sub-saárica
Estaríamos expostos à margem da vida,
Não fosse acalentar-nos a cada instante
O pavilhão da pátria , bandeira flamejante!
Da Terra de Santa, torrão de Vera Cruz!
Wndhoek, 13/07/00