Joaquim Evónio

Sinergias

Era uma vez um grande matemático capaz de dominar os diferentes aspectos da sua Ciência e de levar ao paroxismo as mais eloquentes combinações de números e sinais. Um dia, cansado de andar de fórmula em fórmula pela aridez dos computadores, resolveu dar um longo passeio para arejar as sobrecarregadas circunvoluções cerebrais. Nada melhor que o contacto com o meio natural para a reprogramação dum espírito fatigado de tanto debitar equações, afinal só compreendidas por um escasso rol de prosélitos.

Abandonou, pois, o seu Sanctum Sanctorum mas, apesar de tudo, não conseguiu resistir à tentação de se fazer acompanhar dum bom maço de papéis em que havia estado a tomar notas toda a tarde.

De cabeça refrescada, enfrentou com a coragem possível o tempo instável que emoldurava aquele cinzento crepuscular. Mas a silhueta, habituada à consulta dos ábacos modernos e sofisticados, mantinha a postura atenta e recurvada dos santos dias que passava em interacção com a inteligência artificial dos seus costumeiros interlocutores.

Entretanto, na outra margem do burgo, um eminente compositor mal conseguia já digerir, e sublimes que eram, as inefáveis partituras que da sua criatividade tão fácil e profusamente se evolavam. Por entre as risonhas claves de sol do estúdio, começava a desprender-se uma penumbra algo fatigante que nem a beleza das notas musicais conseguia dissipar.

Resolveu, pois, errar pelos arredores, na expectativa do reconforto que iria decerto encontrar no ar, para ele balsâmico, do precoce entardecer outonal.

Mas decididamente não podia abandonar, e levou consigo, entre outras pautas, os rascunhos em que registrara uma nova série melódica só interrompida pelo incontrolável  desejo de evasão que o assaltara.

Habituado como estava a debruçar-se sobre o teclado e a envolver-se com as músicas, os seus passos deambularam por entre a sinfonia que a alma sensível continuava a descortinar em cada folha caída no chão atapetado que pensativamente percorria.

Matemático e musicólogo, ambos saídos, por razões semelhantes, da privacidade dos seus casulos, deixaram-se guiar, instintivamente, por caminhos aleatórios e, depois de muito andarem em profundo alheamento, em boa verdade sem terem  desfrutado o que mais procuravam, encontravam-se em extremos opostos da principal alameda da cidade.

E pensativos continuaram a passear sem se aperceberem de que seguiam em rota de colisão.

Enquanto pelo cérebro de um deles continuavam a perpassar sistemas numéricos, o do outro vibrava de antecipação perante as harmonias que conseguira gerar na inspiração do rosicler indolente aguarelado pelo sereno pôr-do-sol.

E mais e mais se aproximavam, compenetradíssimos da importância dos seus pensamentos e da beleza ímpar, quase transcendental, do preclaro produto das suas lucubrações mentais.

A profunda sensibilidade poética que a ambos envolvia levou-os a conduzir a criatividade pela margem oblonga do lago simpático, bordejado por árvores frondosas a despir-se das folhas que a estação do ano lhes aceitava pacificamente. Cada vez mais ensimesmados, estão já tão próximos que quase se adivinha uma combinação híbrida e extra-sensorial entre as emanações sinusoidais dos cérebros, de natureza diferente, é certo, mas comungando da dimensão etérea da arte.

E eis que surge o embate, já previsível, entre as duas distraídas figuras!

Tão desajeitado foi ele que tudo quanto era papel em posição periclitante de consulta lhes vai cair aos pés, numa amálgama em que não era possível discernir, numa primeira observação, o que eram pautas ou folhas quadriculadas.

A compor ramalhete tão inusitado, até um diapasão e uma máquina de calcular haviam tombado sobre a jacente confusão.

Alguns monossílabos pronunciados à laia de desculpa e em ambos o sentimento profundo de que algo do que estava a ser criado podia correr o risco de perder-se com esta súbita descida aos terrenos objectivos da vida quotidiana.

Encaram-se, titubeiam, e num discernir instintivo logo descobrem afinidades nunca antes suspeitadas entre dois seres que jamais se haviam encontrado mas que afinal partilhavam de atitudes comuns perante a perfeição e a beleza.

Os criadores, tal como os pedagogos, sabem sempre quando estão em presença uns dos outros!

Pouco tardou para que começassem a fluir as suas linguagens próprias, em ambiente caloroso, cordial e cúmplice, inicialmente premonitor e logo consubstanciador duma estranha sinergia que a ambos enlevava pela novidade e potencialidade.

Música e matemática assim se enleavam pelos meandros das suas intersecções e quem passasse por ali, àquela hora vesperal, bem surpreendido havia de ficar perante um diálogo tão original em que o matemático tanto se entusiasmava com a música e o compositor já defendia com ardor a precisão da matemática, começando depois a derivar para formulações que se configuravam como autênticas e novéis criações da matemúsica e da musemática.

E perderam a noção do tempo!

Quando o escurecer mais profundo os chamou à realidade e pretenderam apanhar do chão os teres e haveres, até uma jovem curva de Gauss (imagine-se!) estava perdida de amores por uma valsa de Strauss.

Joaquim Evónio

(in “Sombra em Clave de Sol”, Contos, Esgotado, Universitária Ed., Lisboa, 1999)

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