Joaquim Evónio

O Lisboês

Trabalhava num escritório da Baixa. Ao princípio até gostava, a cidade tinha um sabor a bilhete-postal dos que antigamente se vendiam em colecções articuladas e os turistas gostavam de abrir como se fossem concertinas. Os tempos é que foram mudando e cada vez mais se alargava o fosso entre as recordações e a realidade.

Lembrava-se, como se fosse hoje, do primeiro dia de trabalho como paquete daquela empresa de solicitadores, com direito a placa na porta e divisões em balaústre, de madeira escura e polida, um prestígio em relação às lojas vizinhas e até a outras empresas do mesmo ramo.

O salário não era grande coisa mas as circunstâncias em que arranjara o emprego também não o podiam fazer almejar muito mais.

 De vez em quando ia à tabacaria mais próxima comprar dois maços de definitivos e aproveitava para tomar as suas ginjas.

O cinema era, na altura, uma das maiores atracções para os lazeres de qualquer solitário. Às vezes, quando tinha as energias mais contidas, ia às sessões de boxe no Parque Mayer.

Enquanto no cinema se esperava pelo beijo final, consagração duma história nem sempre bem contada, no boxe a expectativa resumia-se ao K.O. com que habitualmente terminavam esses rounds – às vezes pareciam combinados – de realização pessoal e colectiva.

Acamaradava com os marginais da rua do Coliseu, tipo Júlio Salaico – que dormia à porta da Igreja de S. Domingos, com um olho fechado e outro aberto, sempre atento ao que desse e viesse…

- " Então que fazes aí a uma hora destas, seu cara de caraças mais velho?" – era o que lhe perguntava quando descia para o largo, após o costumeiro culto de Baco.

- " Estou a ver se pinga algum das beatas de S. Domingos!

E lá ia pingando, cobre aqui, prata acolá, talvez as esmolas estivessem de acordo com o peso de consciência com que se saía da vetusta igreja.

- "Olha aquela, tem mesmo cara de quem me vai dar cinco coroas..."

E era uma festa, quando acertava e acontecia. Lá iam ambos tomar mais umas ginjinhas que tanta falta faziam para lavar a inteligência carcomida por noites de vigília.

Considerava-se um lisboês de boa cepa, embora nascido algures no interior. Só vira o mar depois dos quinze mas, por razões de identidade, esta cidade dizia-lhe tudo e, às vezes, quase nada.

Quando chegava a casa, se casa podia chamar-se àquele pardieiro em que sobrevivia, era sempre um rebuliço. A filha da mãe só queria era dinheiro, exactamente aquilo em que a vida que levava o fizera menos provido.

Farto de tanta discussão à volta de tostões e cifrões, acabou por tomar a grande decisão da sua vida: separar-se. Lá custar, custava, mas não aguentava mais! Num prato da balança, a pequerrucha de quem tanto gostava, do outro, a megera que o não deixava em paz e o acusava constantemente, – Oh! que injustiça! – de estar com a mesma bebedeira do princípio do ano.

Passou a conviver ainda menos com a filha pequena. Ia dar milho aos pombos, ver os cacilheiros no seu vaivém entre as duas margens, e umas ginjas pelo meio, único calor espiritual que durante tanto tempo recebeu como oferenda da vida.

Sentava-se no Cais das Colunas, fizesse bom ou mau tempo, a ouvir as gaivotas e a apreciar as peripécias dos seus voos acrobáticos em busca de algum naco de peixe.

Frequentava também o jardim de Belém e o Aquário Vasco da Gama e, nesses sítios, sempre encontrava reminiscências dum passado que lhe tinham vendido na escola mas que nunca comprara inteiramente.

Construíra com a cidade uma relação cheia de magia e sonho, daquelas que temos quando não estamos a dormir e nos perturbam quando queremos descansar.

Um dia, quando foi à procura da filha, não a encontrou.

Os vizinhos diziam que tinha ido para o Brasil. Terra estranha para partir, sem dúvida, no período de que estamos a falar. Até estava convencido de que os brasileiros já tinham passado de moda e havia secado a árvore das patacas.

Então o homem, o nosso lisboês, com o grande desgosto que lhe avassalou a alma, abandonou o escritório, passou a beber pelos copos maiores e a conviver cada vez mais com os que na área viviam à margem da vida.

Depois de ter gasto tudo quanto era economia, o que conseguira amealhar, apesar de tudo, para a filha que lhe levaram, a situação agravou‑se. Passou a dormir na rua, só encontrava ecos de solidão, já não podia pagar quarto e encontrava nos seus vizinhos sem‑abrigo uma amizade que nunca lhe fora proporcionada em família.

Começou a pedir às portas da Igreja de N.ª S.ª de Fátima.

Repartia esmolas com os confrades de infortúnio, especialmente o Manel, por quem nutria sólida amizade. Era um mangano apaixonado pela sua cadela – a Laica – e dormia num pátio da avenida ao lado, proporcionando todo o conforto à sua companheira animal, mesmo em detrimento do seu próprio.

Distraíam-se a conversar e a beber, espécies distintas em cósmica comunhão de interesses, mas um dia chegou à conclusão de que aquilo não era vida. E afinal o que é a vida?

Será o que se vê na televisão, em telenovelas que invadem os serões da burguesia que não tem mais que fazer senão colocar‑se, indefinidamente, defronte da horrível caixa falante?

Lembrou‑se então de fazer de homem-estátua mas, como já havia uma caturrada deles na baixa, abandonou a ideia.

De noite, continuava a pensar numa situação bem diferente, acalentada pelos seus sonhos de homem cada vez mais doente e saudoso duma felicidade que tardava.

Foi então que, ao recordar o seu tempo de infância, associado à chegada do circo Torralvo, acabou por descobrir.

Começou a aparecer nas ruas vestido de palhaço, a vender balões às crianças.

Corria o Metro, o Jardim Zoológico, tocava trompeta, e bem, e a verdade é que começou a ganhar mais do que quando era escriturário. Toda a sua vida lhe parecia correr melhor.

A vida de palhaço trouxe-lhe a antiga dignidade, o paraíso perdido que tantas vezes procurara em vão sem encontrar.

Ao fim  da tarde ia arrumar as roupas num quarto com janela para o Tejo e lá marchava até à rua do Coliseu para beber as inevitáveis ginjas. Mas nada de excessos. Cada vez mais contido e sóbrio, estava a tornar-se um verdadeiro empresário de si próprio. Já conseguia ajudar com menos parcimónia os companheiros da noite. Treinou‑se em momices e dichotes, aprendeu maquilhagem, comprou telas, pincéis e tinta e viu que até tinha algum jeito para a pintura.

-" Mãe, pai! Vamos ao palhaço!"

A sua presença começou a tornar-se um hábito naquele recanto da R. Augusta, uma atracção cuja ausência começava a ser notada. O boné das moedas ia-se recheando ao longo do dia, às vezes até aparecia uma nota pelo meio.

O que lhe faltava em criatividade sobrava-lhe em coerência. Os bonecos eram cópias fidedignas uns dos outros, parecia um oleiro que artesanalmente repetia as suas ânforas sem se desviar um milímetro. E assinava sempre "o palhaço".

Assim começou a moda das crianças terem um palhaço no quarto, já o artista não chegava para as encomendas. A clientela subia e as receitas também.

"Já tens? Fica mesmo do baril! Pede à tua mãe para te levar à R. Augusta!"

Ninguém o reconhecia quando dava as suas fugidas pela baixa sem o "traje de luces", mas mal despontava à esquina, artefactos e cavalete a tiracolo, já um pequeno mundo o esperava.

- "Lá vem ele, lá vem o palhaço!"

Conseguiu esquecer completamente a mulher mas lembrava-se a cada momento da filha que lhe fora levada para terras distantes. Era a parte da paleta onde ia buscar o tom de tristeza que fazia contraponto com a alegria fictícia do palhaço.

Já não lhe faltava muito para juntar o dinheiro que custava a viagem ao Brasil. Nunca desistiu de reencontrar a sua menina e tinha a certeza de vir a ser compensado.

De vez em quando pensava que afinal não passava dum palhaço! E não havia por aí tantos mais escondidos do que a pobreza envergonhada? Ele ao menos assumia a sua condição!

Digam o que disserem, enchia-se de gozo. Depois de tantas vicissitudes, encontrara finalmente uma profissão liberal.

joaquim evónio

(in “Sercial & Malvasia” , Joaquim Evónio, Ed. Temas Originais, Lda., Setembro 2009)

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