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O Sacristão E O Cão De Caça A vida na paróquia decorria com a felicidade possível face às agruras com que o destino teima em fustigar as pessoas. A isso não eram estranhas a experiência e a personalidade do pároco, verdadeiro cimento da comunidade, atencioso e cordial, a quem nunca faltava a palavra certa para consolar os que procuravam o seu arrimo ou a decisão justa para dirimir os conflitos, de pouca monta, diga-se, que de vez em quando ocorriam. Mas não há bem que sempre dure... A figura solene de conselheiro e amigo, afectada por doença incurável, começou a definhar, deixou de aparecer em público, limitava-se a dizer missa, depois já nem isso, era o padre duma freguesia próxima que o vinha substituir de vez em quando. E, numa manhã de romaria, correu célere pelo Povo a notícia de que acabava de finar-se o reverendo João. Indescritíveis foram as manifestações de pesar e profundo o sentimento de orfandade que a todos envolveu de forma indelével. O funeral, como a sua vida, foi um acto de generosa e sincera solidariedade. Na freguesia de Alvedrio de Baixo passava-se praticamente o negativo do que acabo de contar. Os ânimos iam ficando cada vez mais exaltados e um dia, pela manhã, quando o padre vai a sair para a Igreja, encontra à porta de casa estranho arsenal de utensílios: um alguidar, um fardo de palha e uma faca. O simbolismo não podia ser mais expressivo. A má‑nova serviu para confirmar junto do Bispo da Diocese os rumores e queixas responsáveis pelo progressivo desentendimento entre o pastor e o seu rebanho. Chamou‑o, pois, à sua presença, teve com ele uma longa conversa, falou de moderação e apostolado, inserção cultural, humildade e compreensão. Ouviu também as suas queixas. No fim, julgou não haver razão para não tentar a transferência para outra paróquia de gente mais humilde e simples. Não estava apenas em jogo o prestígio do padre, mas o de toda a Igreja, e dava-se a circunstância de ter falecido o padre João, por que não experimentar aquela comunidade sempre tão dócil e onde o índice de religiosidade era dos mais elevados da diocese? E assim ficou aprazado, para uma semana depois, que o padre Crispim seria deslocado para Bastões de Cima, o próprio Bispo estaria presente na cerimónia de apresentação. Alguns dias antes da sua chegada, já o povo sabia a prenda que lhe estava reservada como sucessor do padre João. Isso não impediu, todavia, uma recepção digna e hospitaleira, como era timbre da região. Quando lhe disseram que iria precisar dum sacristão, pois o anterior tinha acabado de reformar‑se, a sua resposta foi seca e pronta, um desprezo bem patente em cada palavra pronunciada: - “Um sacristão é mais fácil de arranjar que um bom cão de caça!” Mas a realidade provou não ser bem assim. Ninguém quis constituir equipa com tal rês e o tempo lá foi passando sem que o lugar fosse preenchido. Outra sorte, no entanto, mereceu uma das suas exigências. Achou a casa que lhe fora destinada sem condições para nela viver uma pessoa exercendo o seu ministério. Nisso o povo transigiu, embora o seu antecessor nunca lhe tivesse posto defeito, mas a casa era mesmo modesta, valha a verdade que se diga. E como se albarda o burro à vontade do dono, começou a colecta de fundos para pagar a residência que logo escolheu. Quermesses, peditórios, cortejos de oferendas sucederam-se durante tempo interminável. Uma devota que encontrei numa Orada dos arredores, cerca de cinco anos após a chegada do padre Crispim, a quem já chamavam “O Crispado”, não se inibiu de, mesmo ali, junto às imagens que venerava, exprimir o que andava na boca do povo: - “A puta da casa nunca mais está paga!...” E prosseguiram quermesses, peditórios e cortejos de oferendas... com mais alguns negócios pouco claros pelo meio... Tudo isso, para já não falar nos berros que dava sempre que alguém ciciava dentro da Igreja, - com ele era tudo a toque de caixa - foi contribuindo para alargar o fosso entre paroquianos e pároco. A casa do Senhor estava cada vez mais vazia, já de nada valiam os avisos drásticos ou as ameaças com as penas do Inferno, muita gente aproveitava as manhãs de domingo para ir até a freguesia vizinha, onde o oficiante era uma pessoa humilde e simpática e os sermões transmitiam calma e cristandade. - “E até tinha sacristão...” - murmuravam com um sorriso irónico. Enfim, a vida lá ia continuando e, se o padre era ainda para muitos o confessor, pelo poder de que estava investido, o professor passou a ser o verdadeiro confidente. Muitos anos passaram, mais duma vintena, sem que tivesse podido voltar a Bastões de Cima. Quando por lá finalmente passei, tive de satisfazer a curiosidade, fui a um café, meti conversa com o dono e fiquei a saber que o Crispado ainda lá estava, talvez o povo até mereça, isto anda cheio de pecadores, a casa já estava paga, sim senhor, vai aí para cinco anos, mas não, sacristão ainda não havia, nem novo nem velho, nunca ninguém quis cair daí abaixo, não senhor. Fui dar uma volta pelo povoado, acerquei‑me da vivenda do padre e logo sou surpreendido por uns ladridos que quase me assustaram. Num recanto do quintal, um canil bem cuidado albergava três belos perdigueiros. - “O padre passa mais tempo na caça do que na Igreja”, - confidenciou-me um velhote que ia a passar - “E se são bons os raios dos cães, é do melhor que já se viu por estas bandas... não há lebre nem perdiz que lhes escape...” Troquei ainda algumas palavras aqui e ali e cheguei à conclusão de que só um grande fatalismo permitia àquela gente suportar ainda presença tão incómoda quanto antipática. Estava na hora de partir, comecei a rodar para a estrada principal. E ia pensando cá para os meus botões: - “Com que então um sacristão é mais fácil de arranjar que um bom cão de caça! Lá perdigueiros tinha ele, e dos bons, o que nunca vi foi um cão de caça capaz de ajudar à missa!” Joaquim Evónio
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