Joaquim Evónio

Oásis

Eram horas de pensamento e meditação, de tâmaras dependuradas e revérberos cristalinos de água, areias ausentes sob a oscilação meditativa de escassas e esfarripadas folhas de palmeira.

O pior já passou, o tempo voltou a ganhar a dimensão que nunca teve, ansiedade do amanhã, incerteza de ver germinar sol em novo dia.

Pausa, filosofia, Aristóteles e Platão, discípulos de anfiteatro, epitáfio adiado, epistemologia e escatologia, despropósito intempestivo, instinto bioquímico de sobrevivência.

Relatividade do conforto, predomínio anímico sobre a inconsequente impotência da nudez física perante a hostilidade eloquente do deserto, reconstrução lenta da pirâmide intelectual, aborto transitório de todas as despedidas.

Pensar, só amanhã. Hoje, dormir e sonhar. Depois, talvez acordar. Sonhos ou miragens, para o caso tanto faz.

O cansaço convida réstias de lua a povoar as bermas de vida, esperança residual de futuro imediato ou próximo.

Sonhar continua a ser bom.

Despertar é quase sempre violento.

Se não tivesse sobrevivido, como poderia estar aqui a contar-vos este sonho?

Joaquim Evónio

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