Joaquim Evónio

Suicídio 

Já tinha a pistola apontada ao meu cérebro vazio. Eram quatro horas da madrugada e a vigília fazia‑me cerrar os olhos fatigados.

O dia anterior não tinha corrido nem melhor nem pior do que os outros. A única diferença era esta espécie de chamamento para a grande viagem, corte definitivo com a rotina e a banalidade dos acontecimentos quotidianos, ainda mais insuportáveis quando orquestrados, de forma doentia e hiperbólica, pela rádio e pela televisão.

A ideia de Deus, ou de religião, não tinha lugar em qualquer escaninho dos meus sentimentos ou pensamentos. Aliás, o que me ocorria com mais frequência era que o Homem, a certa altura da sua presença na Terra, cansado de pensar, inventara Deus, tradução antropomórfica da incapacidade que sentia por não compreender os fenómenos naturais, às vezes assustadores, que se lhe deparavam. Essa crença multiplicara‑se de forma diversificada e até divergente, acentuando a falta de confiança em si próprio e apelando para uma entidade superior capaz de alterar o rumo dos acontecimentos para satisfazer os seus pequenos e grandes egoísmos.

Era precisamente contra esse tipo de superstição que me considerava vacinado. Sabia não existir essa capacidade, ou possibilidade, e que nada podia haver para além da vida terrena em que vegetava... Já o verificara pessoalmente, durante várias anestesias gerais ou através de profunda e lúcida meditação. Como uma vez me confessara um amigo a lucidez é inimiga da felicidade. E do outro lado da cortina, aquele que a nossa razão ainda não consegue abarcar devido à sua insuficiência actual, há apenas uma grande tranquilidade, ausência leve como um sonho bom.

Pensei em várias formas alternativas de transitar do efémero para o repouso perpétuo. A História e os noticiários estavam cheios dos mais caprichosos exemplos, do veneno ao enforcamento, da simples injecção à inalação breve do deletério monóxido de carbono.

Nenhuma delas, no entanto, se coadunava com a expressão viril da minha suposta personalidade. Morrer, sim, mas salvaguardando a dignidade da memória. O modus faciendi tinha de implicar uma arma de fogo. E ali estava ela à mão de semear, pronta a funcionar no silêncio da noite calma e fagueira da Primavera precoce e cheia de promessas para quem por aqui ficasse.

A retrospectiva da minha vida era um filme vertiginoso a rodar em tresloucado ecrã de computador e as ideias brotavam com uma velocidade de que só o pensamento era capaz. Dentre todas, uma surgiu que cintilou em zoom e me fez pousar a pistola, acendendo calmamente um cigarro retemperador: mas que mal me fizeram os vizinhos para os acordar a uma hora destas?

Joaquim Evónio

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