Joaquim Evónio

Inquietação

Ao escritor Orlando Neves,

solilóquio para "Conversas com..."

Penumbra ciliar de pestanas inquietas, fantasmas de retina ferida, mil sóis. Tão fácil ver para dentro. Sem fora. Espaços rasgados, contornos irregulares. Arco-íris, cascata indefinida, sonolenta e agreste, mácula de proscénio fragmentado. Roturas, ilusões. Momentaneamente, um enorme ponto negro. Depois, só luz. Dolorosa.

Nasceu poema. Acarinhá-lo é vocação e o sentimento comanda. Ordenados, dedos mirrados buscam ogivas cósmicas. Afloram ritmos de posição relativa, procuram  eros no universo, quase sombra, quase nada, quase tudo. Falanges orbitam epidermes, brotam emoções. Tudo se desmorona. Realidade, apenas foco. Quimeras. Fogem. Nunca se deixarão colher por terráqueas mãos.

Olor de primavera pinta de sonho a não realidade. Tudo é nada e nada emana odor de corpos entrelaçados, aroma de flores humanas que se dão e trocam, bodas de florescência amorosa, deliquescente. Eternizam‑se estações de vida, transferem‑se para além. Delicodoce, mistura de húmus e rosas, terra e vida, falsa promessa. Sempre foi.

Melodia ténue. Recrudesce. Ruído. Ausência de som entre fímbrias de intelecto. Crânios vazios, ferocidade, pensamentos no chão.

Papilas chovem caminhos de macadame, música que já foi pauta, recordações noctívagas, falar difícil, língua grossa, mar Adamastor.

Alvorada demente dos sentidos, dor que fica. Felicidade vai.

Lisboa, 08 de Agosto de 2000

                                                                         joaquim evónio

 

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