
Cartas
José Ernesto Kappel
Caro Irmão
Nada mais poderoso do que a natureza quando expande suas raízes e faz de nós esplendorosos, cativos, apaixonados, iluminados ou aparentemente ocasos.
Tenho um irmão,você, igual a todos, feliz como todos, ama a a vida, suas coisas. Tem suas quedas, depressões e ansiedades. Mais humano do que isso não poderia ser.
Meu irmão é gay.Não se admoeste com esta palavra. Mas ai começam a se abrir e fechar portas. Ai começa outro mundo dentro de nossas linhas e limites.
Tenho o maior amor por você e, desde pequeno, você me contava suas tendências, que, na época, chegavam a ser surpreendentes para mim.
Com o tempo e o amadurecimento, tentei comprendê-los e passei a amá-lo mais ainda.
Amor de irmão pela sua ansiedade diante das coisas, pelo repudio que sofre diante das miudezas do mundo e dos outros. Principalmente a dos outros.
Às vezes você é objeto de descaso, vilipendiam sua honra, sua altivez e tentam demoli-lo da condição ser humano normal.
Aqui não interessa analisar a história,as particularidades fisiológicas ou psicanalístas de um homem e de sua tomada de posição diante da vida.
Muitos não aceitam esta ordem. Você tem seus valores subjugados pela família, por antigos amigos, no trabalho, na universidade.
Você é orientado pelos deuses para ser encarado por diferente. E por ser diferente, todos, de soslaio, o olham surpresos. E sussuram por todos os cantos: ele não é normal.
Mas é muito normal, muito inteligente, vive seus 26 anos, na maior alegria anterior e já colocou uma parede entre aqueles que o aceitam ou não.
Apesar da animosidade e da inflexão de alguns em negá-los, você já passou da fase do desespero interior e plenamente assumiu sua tendência.
Para saciar os avulsos de uma sociedade falcatruosa e não amigável, você fez seu círculo de amizades, onde reúnem e discutem seus anseios, medos, alegrias e tristezas.
Mas, o que mais me dói nesta história é que a família é a primeira a rejeitá-lo, ao ponto de dispersá-lo ao vento e mandá-lo viver sozinho.
Minha mulher e eu o visitamos periodicamente em seu apartamento onde vive com outro homem. Também em igual situação.
E lá sentimos o alijamento que a sociedade o impôs.
Até para alugar o apartamento - contam - sofreram discriminações como se fossem débeis. Onde vão - num teatro o, num restaurante, são fatalmente e disfarçadamente colocados no chamado ponto de reversa.
Num canto, numa mesa mais escondida, ou em cadeiras mais afastadas.E quantas vezes não o flagrei chorando na luz de seu mundo?
Amo você pela sua vontade de viver, pela sua ânsia das coisas e pela sua força em não odiar ninguém.
Tentar apenas compreender o que se passa dentro de uma sociedade recatada, que realiza seus sonhos somente noite adentro, onde absurdas realidades acontecem. No dia seguinte, são homens "normais". Normais demais.
E daqui, sem você ao menos saber onde encontrar, enviou esta singela carta para você. Para que cada dia tenha mais forças e realize seus sonhos e nutra cada dia mais com que a natureza lhe presenteou: o amor.
Um beijo de seu irmão.
Obs.: Alguns pensamentos que estão dispesos em meu tempo:
"Há flores que nascem em qualquer jardim e não foram feitas para sem julgadas e sim para serem amadas".
"Quando Deus fez a natureza a fez com inúmeras ramificações. Nada de escandaloso ou fatal. Apenas gente igual a gente, pronta pra dar e receber o amor que lhes brotam no coração".
"Nada mais lógico do que repudiar o que é diferente. Os diferentes vivem angústias e temores, mas são ricos em amor e bondade. São as purpurinas de Deus".
"Não me peça par explicar o que não entendo, mas o que amo".
"Não faça de sua vida um mistério. Se você tem um, exponha-o à luz do sol e deixe-o frutificar".