Cartas

José Ernesto Kappel

Meus Pecados São os Seus
31/10/2000 - 15:39

Torta d'alma que enclausura os mensurados de falsa paz. De longe revejo restos do passado. Mas Ah! nada se iguala a um presente tão tortuoso.

Nada refaz o espírito que se anlaceia por entre ciprestres úmidos da madrugada. Nada refaz o regato que antes era de paz morredoura, agora atiça a pena e os dedos, à procura de palavras que digam o bem.

De roupa lavada, atroz me perserguem lembranças sem fim.

Na oitava parte eu morro por amores mal-dormidos. Na oitava parte a sinfonia acaba e me vejo com três músicos indolentes que de flauta nem de sôpro entendem. Me deleito na minha paz que se entrevera com minha guerra.

Ah! lampejos cristam o céu que quer me guardar e me fazer esquecer pecados que cometi. Pecados de dois a dois, que varam à noite, a procura de outro ser. A procura de mais e mais, num redemoinho que carrega nosso espírito e devassa nossa alma atormentada de paixões.

E digam os homens. Não há horas para começar, nem hora para o inimigo atacar.

De longe eu vejo, como uma pluma dolorida e indefesa, o meu rosto cravado em algum lugar que dizem ser o futuro,e de de lá não saio, porque não acredito no tempo.

Encerro meu alvará de permissões. Se há vida, se ela,purpurina dança à minha frente e,perspicaz, faz com que o tempo não exista, eu me perco em sonhos e doces pecados.

Os sonhos não são daqui. Aconteceram ao mancebo que trás a carta, ao padeiro que me trás o pão e o garçon, de meia-idade, que me trás o aguardente.

Quero lavar meus pecados. Mas não sozinho, porque não sou pai ainda, nem parente indefeso. Quero lavar meus pecados, não sozinho, como a ave atrocidada pela flexa anônima, que não se abate e alça mais seu vôo.

É a queda assustadora que lasciva os homens e, igual ao pássaro,que alcança mais alturas para mais longa ser sua queda e mais tempo viver, somos nós filhos da terra e, crentes em espíritos,e nós ajeitamos para mensurar pecados e pecados, dúzias deles, que vão nos levar o fim de seu mundo e ao começo de nós mesmos.

Sonho indireto com a paz que ninguém me deu. Calço três quartos e parto em direção a oeste.

E cometo, antes dela subjugar,pecados e pecados, que, certamente não é este o nome,e sim, amores endividados e meigos.Tormentos azulados que o poeta alcunha de enamorados.

Mais esse pecado eu não pago sozinho porque não sou rei que não paga impostos.Nem príncipe de duas rainhas.

Pior pecado é pecar no amor sozinho, no adeus isolado, na carta cheia de algruras e permissões de amor.

E por isso , me perdoem os puros de alma: esse pecado eu não pago sozinho.

Neste vôo de véus e cetins enloquecidos,pois meus pecados,agora, também são os seus. Que nos levem algures para o fim da terra, pois nosso pecado é suplício, feito a dois, fatal para dois e tão grandioso que os deuses não ameaçam nem chegar.

Seu eu vou pagar, você irá comigo. E juntos e juntos, depois de purificados, começaremos tudo novamente.Ardor de plumas macias e pele aveludada!

Pois é neste suplício que mora a redenção, a vida, e um dia a morte,e prá dizer: lá vão eles pro fim do mundo,pro início das coisas que não tem fim.

Se Deus não mora lá, um dia, viajante, bem disse, de passagem, estes dois são agora santificados.

Mas que paguem à dois seus pecados!

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