Cartas

José Ernesto Kappel

O Quadrado de Três Pontas
26/10/2000 - 16:09

Paris, Dezembro de 1989:

Cheguei sem muita importância,debaixo de um sol suarento e de uma saudade veroz de você. Não parei um minuto sequer de amá-la por entre paisagens, por entre o vento morno que apaziguava a mente e de querer transformar distâncias em pecados próximos.

Pensei muito em você. Imaginava o que estava fazendo toda hora. Passei os olhos nos poemas e os achei muito profundo. Com frases bastante marcantes e dolorosas para quem está tão longe.

O ponto chave da questão: até onde vai esta querência? De minha parte me inquieta porque pode me levar aos extremos de minha paixão.

É perigoso porque nós estamos lidando com dois sentimentos. E há nisso muito cuidado para não haver feridos. Tenho medo destas brechas que o tempo pode abrir e nos separar.

É uma meditação amena do que sinto por você: um amor muito grande que , agora, começa a me completar.

É como você enchesse um tanque vazio, mesmo que seja com poucas gotas d'água mas , com o tempo, se transforma numa coisa imensa cheia de valores. E transborda em luzes.

Eu vejo você assim e também me vejo assim. Nosso problemas são diferentes em tudo e iguais em tudo.Somos dois pontos de partidas que acharam a paz.

Você me completa e eu te completo. E, em todos os momentos fazemos uma colheita deste amor para plantá-lo em nossos corações desvairados de amor e desejos.

Tão loquaz, é inquieto e burburinha pela noite em sonhos de criança.

Você, pouco a pouco, me leva a acreditar em mim mesmo, no meu valor, no que eu tenho de melhor, a proveitá-lo da melhor maneira possível.

Antes, não sentia isso, uma vontade cada vez maior de dizer o que sinto, sem vexames do que sinto e porquê.

A vida passa mais rápido do que a gente imagina. E as coisas se transformam da mesma maneira.

Somos várias coisas ao mesmo tempo e somos todas as coisas juntas. reunimos fragmentos do passado e o atiramos à frente de nosso tempo para ver o que acontece.

A primeira parte já aconteceu. Falta a segunda. Mas você disse ou eu estou dizendo agora: não importa como vai ser.Importa que seja.

E neste desepero de amor marfim nunca espere demais de mim - como nunca esperou. E eu também não espero muito.Mas morro de esperas.

Porque se você sobe muito, se eu subo demais, a queda é mais dolorosa. E as pedras de amor são as mais dolorosas. Ai vira um quadrado de três pontas, onde não há saídas.

Digo isso porque são pensamentos e coisas que me atravessam. Nós já se conhecemos batante para saber que, pelo menos, existe duas coisas: honestidade e amor, e desejo, e vontade de ficar juntos, e vontade de falar.

Neste calendário as datas contam. Um dia faz falta, dois nem se fala.No terceiro, a gente vria criança e vai se distrair cm bonecas ou soldadinhos de chumbo.

E é nesta saudade de dois nomes, que às vezes tenho ímpetos de me aproximar mais de você, mais há pedras pelo caminho e tenho que saber andar sem ferir a mais ninguém. E sem me ferir. A isso dão o nome de dualidades.

Meus perdidos estou achando agora, com você. Por isso te prezo muito. Você só quer ajudar e me empurrar prá mim sair de angústias pessoais.

Te quero porque você tem ânsias de mim e me julga alguém digno. Todos estes valores eu julgava que tinha perdido. Não sei se cedo ou tarde demais. Mas se abriram um atalho vou seguir por ele.

É uma saída para o que sabia fazer de melhor: amar.

E deste meu amor que eu guardo porque é impoluto e sem rédeas. Eu passo a viver exclusivamente dele , eu me perco. fico vivendo de sonhos e ternuras. Depois não sei me achar.E quanto a ser aquilo que era antes: vi o que deixei de fazer e sinto por não feito mais. Por isso tenho que deixar que as águas me levem a qualquer porto que me abrigue. E este abrigo é você.

Queria que fôssemos tocáveis.

Não esqueça de me escrever. Moro agora na rua Sat'Van, s/n.

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