Das buscas inúteis por pastos e
relvas
Das mentes inertes, sem sons, decadentes
Dos rostos sem traços, de sombras e trevas
Dos anjos noturnos, de vôos dementes.
Busquei meu abraço em portos de mágoas
E por valas e fossas meu reflexo vi
Molhei-me em regatos, cobri minhas chagas
Sem moldes, sem marcas, do sonho bebi.
Tua face, entre tantas, foi mera figura
De atores num palco, numa trama pagã
E o trabalho do mestre, eterna escultura
Doou-te, indolente, uma alma vilã.
Embriaguei-me de infindável juventude
Cicuta, alquimia maldita, vinho sagrado
Ousei sorver a vida, mergulhei no teu açude
Enfeitei-me de mim mesma, de momentos já passados.
Ergui montes de ilusões, fui santa, fui noviça
Escrevi mil bíblias de amor mais que utopia
Morei contigo em castelos de areia movediça
Fui senhora, fui escrava, sem carta de alforria.
Da minha carne, retirei teu alimento
Da minha alegria, construí teu abrigo
Da minha vontade, teu contentamento
Da minha dor, teu troféu, teu castigo.
Navegando por lágrimas, orando em simples lamentos
Houve momentos de luz, em meio ao breu do coração
Em breves lampejos de quem sou, por momentos
Reavivei a mais antiga chama de devoção.
E, enfim, renasci para dentro do corpo
Num parto difícil, solitário, ao inverso
Deixarei o cordão que nos une bem solto
Como um convite a integrar meu novo universo.
E a nova criatura de pernas e braços
Com vontades, desejos, cantares, desditas
Seguirá seu curso, sem bússola ou compasso
Como anfitriã herege de uma casa bendita.
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