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Canto I
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Por onde anda aquele por
quem meu coração anseia?
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O que tem a cabeça de
filho, que se quer prender entre os seios, no colo,
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para provar do conforto
dessas mãos talhadas para o carinho.
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O que tem os olhos de
abismo, por onde se quer precipitar
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e se perder em queda
eterna, sem chão ou fim,
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eu, tua amada, envolta no
negrume do teu olhar, doce amado.
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Aquele, cujos lábios são
pétalas em brasa, maciez que me queima de amor,
flor carnívora, rara
flor, a me despetalar as vontades todas, todos os licores.
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Eu, tua amada, a deitar a
língua sobre tua pele almiscarada,
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amado meu, homem entre os
homens, bendito escolhido,
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que entra na casa dos
meus sonhos e ocupa o lugar na mesa.
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Bebe meu vinho e come da
minha carne.
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Escolhe-me entre as
frutas, madura e suculenta fruta,
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à espera dos dentes
clementes.
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Canto II
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Por onde anda aquele por
quem meu coração palpita?
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O que tem mãos como
nuvens, espalhando no céu os desenhos todos,
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os rabiscos que meu amor
traça no vento.
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O que tem braços de
amarras, sete nós de marinheiro,
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trancando todas as saídas.
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Ó amado, que me envolve
entre todas as estrelas-do-mar,
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que me enleva espuma e me
faz cócegas ao piscar essa timidez sonsa.
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O que tem os ombros de
vigas, rijos pilares onde meu amor se apóia.
Sustentação e conforto,
os mesmos ombros que me carregam
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nas brincadeiras do amor.
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Vem, amado meu, encontrar
a mulher entre todas as mulheres,
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a bem-aventurada, digna
dos teus pensamentos.
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És o eleito entre tantos
bravos, tantos guerreiros,
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tantos castos, tantos
poetas.
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Escolhido por tua cabeça
de filho dileto, aconchegado entre os seios,
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por teus olhos de abismo
e teus lábios de brasa.
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Canto III
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Por onde anda aquele por
quem meu coração padece?
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Vem ter comigo, ó amado,
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o que tem ventre de
caminho de bois, umbigo de poço,
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profundo e magnético,
atraindo meus carinhos.
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Vem amado, de coxas feito
monumentos,
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pilares do altar do deus
de todos os deuses.
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Vem que te faço orações
e sacrifícios,
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e me ajoelho em frente à
tua imagem.
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Tu, muso entre os versos,
amado e esperado, como as manhãs de
primavera, escolhido por
essa pele de relva, veludo tenro de calores tantos.
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Tu, amado, por quem meu
coração suspira, de pés delicados como asas,
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voa ao meu encontro,
repousa em meu regaço, como cisne em espelho d’água.
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Vem, ó doce amado, e
ocupa teu trono no reino de meu corpo,
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dá as ordens com essa
tua voz de violinos aos meus ouvidos servos,
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que sorvem teus sons,
como sorvo teus odores.
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Canto IV
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Por onde anda aquele por
quem meu coração bate forte?
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Vós, que dizeis o
paradeiro dos ventos, que sabeis a morada dos anjos,
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peço-vos que tenhais
piedade desta mulher que ama.
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Dizei por onde anda meu
amado, que não escuta meu canto
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e não vem dissipar a
saudade.
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Ó dor de mil espinhos
cravados nos olhos,
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esses
olhos que procuram o bálsamo de teu contorno entre todos os
contornos,
para
abrandar a chaga da falta do abraço do amado.
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Ide, apressados cães,
farejar o perfume imaculado de todos os jasmins,
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que exala da pele daquele
entre todos os homens,
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porque é dele o meu
amor,
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e não há outro com quem
compartilhar meu leito e entregar minha alma.
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