Lilian Maial

O Cantos dos Cantos de Amor 

Canto I
 
Por onde anda aquele por quem meu coração anseia?
O que tem a cabeça de filho, que se quer prender entre os seios, no colo,
para provar do conforto dessas mãos talhadas para o carinho.
O que tem os olhos de abismo, por onde se quer precipitar
e se perder em queda eterna, sem chão ou fim,
eu, tua amada, envolta no negrume do teu olhar, doce amado.
Aquele, cujos lábios são pétalas em brasa, maciez que me queima de amor, 
flor carnívora, rara flor, a me despetalar as vontades todas, todos os licores.
Eu, tua amada, a deitar a língua sobre tua pele almiscarada,
amado meu, homem entre os homens, bendito escolhido,
que entra na casa dos meus sonhos e ocupa o lugar na mesa.
Bebe meu vinho e come da minha carne.
Escolhe-me entre as frutas, madura e suculenta fruta,
à espera dos dentes clementes.
 

Canto II
 
Por onde anda aquele por quem meu coração palpita?
O que tem mãos como nuvens, espalhando no céu os desenhos todos,
os rabiscos que meu amor traça no vento.
O que tem braços de amarras, sete nós de marinheiro,
trancando todas as saídas.
Ó amado, que me envolve entre todas as estrelas-do-mar,
que me enleva espuma e me faz cócegas ao piscar essa timidez sonsa.
O que tem os ombros de vigas, rijos pilares onde meu amor se apóia. 
Sustentação e conforto, os mesmos ombros que me carregam
nas brincadeiras do amor.
Vem, amado meu, encontrar a mulher entre todas as mulheres,
a bem-aventurada, digna dos teus pensamentos.
És o eleito entre tantos bravos, tantos guerreiros,
tantos castos, tantos poetas.
Escolhido por tua cabeça de filho dileto, aconchegado entre os seios,
por teus olhos de abismo e teus lábios de brasa.
 

Canto III
 
Por onde anda aquele por quem meu coração padece?
Vem ter comigo, ó amado,
o que tem ventre de caminho de bois, umbigo de poço,
profundo e magnético, atraindo meus carinhos.
Vem amado, de coxas feito monumentos,
pilares do altar do deus de todos os deuses.
Vem que te faço orações e sacrifícios,
e me ajoelho em frente à tua imagem.
Tu, muso entre os versos, amado e esperado, como as manhãs de 
primavera, escolhido por essa pele de relva, veludo tenro de calores tantos.
Tu, amado, por quem meu coração suspira, de pés delicados como asas,
voa ao meu encontro, repousa em meu regaço, como cisne em espelho d’água.
Vem, ó doce amado, e ocupa teu trono no reino de meu corpo,
dá as ordens com essa tua voz de violinos aos meus ouvidos servos,
que sorvem teus sons, como sorvo teus odores.
 
Canto IV
 
Por onde anda aquele por quem meu coração bate forte?
Vós, que dizeis o paradeiro dos ventos, que sabeis a morada dos anjos,
peço-vos que tenhais piedade desta mulher que ama.
Dizei por onde anda meu amado, que não escuta meu canto
e não vem dissipar a saudade.
Ó dor de mil espinhos cravados nos olhos,
esses olhos que procuram o bálsamo de teu contorno entre todos os contornos,
 para abrandar a chaga da falta do abraço do amado.
Ide, apressados cães, farejar o perfume imaculado de todos os jasmins,
que exala da pele daquele entre todos os homens,
porque é dele o meu amor,
e não há outro com quem compartilhar meu leito e entregar minha alma.

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