Lilly Paes Barreto

A Ilha Dos Sonhos Prateados

Por que gostamos tanto da reprimenta verbal do Rei da Espanha? Por que acompanhamos os grandes acontecimentos reais. românticos, na Inglaterra? 

Um dos motivos é que a nobreza está em nosso sangue. 

 

Todos gostamos de ser tratados com deferência, consideração e, ser convidados a pisar em tapetes vermelhos, preferivelmente sem rasgos, reservados para o Papa e outros altos dignatários. Eu, pelo menos, confesso abertamente que adoraria se trombetas anunciassem a minha chegada ao salão de cabeleireiro que frequento..

 

A atenção especial é sempre apreciada. Tem algo melhor do que ser atendido por um exército de garçons, atentos ao seu mínimo gesto, inclusive o de pedir mais uma rodada de petiscos? Fumar, 

onde é permitido, é claro e, antes de olhar em redor, desesperado, com medo de queimar a toalha do restaurante, aparecer alguém com um cinzeiro? 0u chegar em Londres e na hora de “apear” no Hotel George V, ter a porta do majestoso taxi negro aberta por um porteiro de dois metros de altura, envergando um deslumbrante uniforme de “general” e com  um largo sorriso de boas vindas?

 

Para imaginar melhor o fausto de uma época, os turistas adoram visitar os castelos do Vale do Loire ou o Fontainebleau, na França. Em escala mais modesta, mas com toques individuais, os hóspedes se sentem como príncipes quando visitam as pequenas cidades brasileiras onde, a convite de programas populares de televisão, são adulados e otimamente recebidos nos melhores hotéis e restaurantes.

 

Há, entre nós, muitas famílias quatrocentonas, com nomes e fortunas imensas. Refiro-me especialmente a uma família “coroada” proprietária de uma relação impressionante  de apartamentos, shopping center, um banco e alguns excelentes negócios. Entre outras propriedades, tem também uma ilha, digamos que se chame a Ilha dos Sonhos Prateados, por que lá, os convidados, mesmo quem está acostumado com luxo e mordomias,vivenciam sonhos esplêndidos, como os raios prateados do luar (o atual, não os futuramente provenientes das luas que os

americanos e russos pretendem lançar no espaço). Divertindo-se entre pessoas bonitas e interessantes, cercados de conforto e diversões inimagináveis, os hóspedes recebem total atenção por que os empregados sabem que boas gorjetas correspondem a um ótimo serviço.

 

0s hóspedes voltam encantados à sua rotina, pensando em fazer bons negócios com a família que os recebeu principescamente. Ninguém imagina que a realidade seja bastante diferente nos escritórios. Enquanto que, na ilha, aparentemente, não há controle de despesas, no escritório se controla até o papel higiênico. 0 gerente administrativo costuma reclamar com a assistente: “Como é possível gastar 10 rolos de Finesse por semana?” (é óbvio que desconsiderava o número de usuários e as necessidades individuais). Uma das duas: ou estava atravessando uma crise aguda de “puxa saquismo” junto a seus superiores ou então tinha uma pequena paranóia igual à do comandante do “Caine Mutiny” que exigia que se descobrisse, com urgência, o lugar onde fora guardado o produto de um roubo abominável - cinco galões de sorvete de morango.

 

Deixo os romances. A família "coroada" achava que, para reduzir os gastos, bastava demitir, principalmente “subordinados de pouca expressividade” Diziam alguns membros importantes; ”a vida é cheia de sacrifícios, não como eles pensam”. Quando os funcionários voltavam das férias, surpresa, recebiam a agradabílissima notícia de sua demissão. Aí, ficava difícil, com os bolsos vazios e a vergonha de encarar os filhos, logo eles que tinham insistido tanto na viagem de férias, paga em prestações a perder de vista. A história lembra um famoso milionário americano. Apesar de ter gasto fábulas de dinheiro em seu projeto na Amazônia, detestava ter que aprovar a compra de sapatos para os boys que, aliás, eram “escondidos” cada vez que ele vinha ao Brasil.

 

Soube de outro caso interessante  em que a proprietária da firma exigia vendas cada vez maiores, como nas reuniões comunistas de há uma década em que se pedia "voluntariamente"

maiores sacrifícios e melhor produção por parte da submissa e indefesa platéia. Por isso,  quando as vendas não atingiam o patamar desejado, a alta administração (composta de uma única pessoa) convocava uma assembléia geral com todos os “índios” da empresa. 

 

Nessa oportunidade, ela criticava asperamente o trabalho de todos e pedia mais, muito mais empenho. 0s funcionários saíam mal impressionados da reunião. era como se um estranho tivesse xingado a sua família. As consequências eram previsíveis: a empresária estava satisfeita e orgulhosa de sua capacidade de persuasão, os vendedores consternados e preocupados, enquanto que os chefes,  frustrados e humilhados, juravam intimamente procurar outro emprego. .

 

Nada se ganha com atitudes imperiais  e de desconsideração  com os outros que não pertencem. certamente, ao ambiente luxuoso em que as presidências trabalham. Quanto àqueles  interessados em manter o seu status quo a qualquer preço, sugiro que façam urgentemente um curso dinâmico

de inter-relacionamento pessoal, daqueles que transformam até adversários ferrenhos em simpáticos cordeiros. 

 lillyleonie@terra.com.br

Consultora, Treinamento/ Desenvolvimento Comportamental.

Autora de "Como se Livrar de Um Executivo Incômodo" 

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