Lilly Paes Barreto

Agruras Nas Entrevistas

Compartilho das preocupações dos profissionais que vão a entrevistas nas empresas. Embora o entrevistador,  geralmente,  não esteja preparado para formular perguntas técnicas, encontra-se numa posição bastante confortável: está  empregado. Julga-se dono da situação. O candidato, não. Embora satisfeito com a perspectiva de uma boa entrevista, já sai de casa  preocupado com a escolha da  roupa. Irrita-se com a demora do ônibus. Na entrevista, não sabe se deve adotar um tom comedido ou ser sincero - e se arrepender depois. Não sabe se deve  relatar toda a sua vida profissional, se pode fumar e se deve ser discreto ou falante e fazer perguntantas. O seu estado de ânimo é perceptível e pode prejudá-lo no processo de recrutamento e seleção.

Talvez a astrologia funcione. Um estudo realizado na Alemanha, revela que as pessoas são influenciadas pelo seu seu signo zodiacal. Não acredito, mas segundo a pesquisa, os bons vendedores, por exemplo, são  principalmente aqueles que nascem numa determinada conjuntura astral. Além dos testes de personalidade, interpretação grafológica e outras variedades de testes, há  empresas que só contratam novos funcionários após  fazer e  seu mapa astral. E agora, dizem, será pior quando a tecnologia descobrir se o candidato está sendo sincero e a sua personalidade é tão interessante como parece !

Pobres candidatos; devem falar com simplicidade por que o entrevistador pode pensar: “Ele

quer o meu lugar”. Precisam adivinhar se estão falando com “o filho do homem” e, pior de tudo, cruzar os dedos para que o seu signo zodiacal combine com o mapa astral  da empresa. Conheço um candidato a gerente financeiro que foi entrevistado três vezes:  duas, por diretores, uma,

pelo vice-presidente. Sabem como se fazem cirurgias complicadas? 0s médicos discutem  os melhores procedimentos,  riscos e alternativas e dividem a responsabilidade. Nas empresas isso também acontece.

 As  longas entrevistas e as conversas sobre o perfil do  gerente financeiro deixavam entrever um final feliz. Ao invés, um desapontamento:  o candidato não foi contratado. Qual foi o problema?  Salário? Currículo? Incompetência  comentada por antigos empregadores? Nada disso!  O seu físico simplesmente  não condizia com  o que a diretoria imaginava: ele era  muito magro, parecia  raquítico. Embora  transmitisse  a segurança  de quem ocupava uma posição semelhante na empresa de onde queria sair, vestia-se  com o despojamento de quem só tem dois ternos. Estava em desacordo,  é claro,  com a postura dos outros  gerentes.  Não tinha, que pena, o famoso “physique du rôle” que se exige especialmente dos artistas de cinema e televisão  quando disputam  um papel.

Concluindo: a  empresa preferiu gastar mais tempo e dinheiro e virar  a página.  Tentou novamente buscar no mercado (inclusive nos concorrentes), um candidato com o mesmo perfil do anterior, mas mais próximo da realidade de seus gerentes

 As  mulheres sofrem mais nas entrevistas, inclusive por que as mulheres tem ciúme umas das outras. Pois não é que uma entrevistadora perguntou à candidata por que ficara tanto tempo sem trabalhar?  Ao ouvir que fizera um tratamento para engravidar, perguntou, com fingida inocência, para disfarçar a curiosidade: “E conseguiu?” Duvido se faria uma pergunta semelhante a um  recém operado da próstata. Mas ninguém é santo. No fundo,  temos os nossos complexos preferidos. Muitos homens gostariam,  por exemplo, que as mulheres pajeassem o fogão e se ocupassem  mais da criançada embora achem ótimo, e como, quando elas contribuem com o seu salário para o sustento da casa.

Tenho amigas que, nas entrevistas, já enfrentaram diálogos edificantes: 

-         Quantos anos tem?

-         Vinte e sete.

-         É casada? Quando pretende se casar?

-         Quero me casar, mas por enquanto não tenho namorado.

-     Assim fica difícil. Suponhamos que você se case. Terá filhos. Como poderá viajar e cuidar de tudo? E a empresa, como vai ficar? Você certamente não poderá trabalhar direito...

Contando, parece uma história banal de outros tempos, mas tudo pode acontecer quando o entrevistador quer se livrar de uma candidata. Chateada com tantas perguntas tolas,  a candidata não se conteve. Bastante alterada, bateu na mesa com a mão fechada e retrucou que,  àquela mesma hora, a esposa de algum executivo, também uma profissional, estava fazendo a mala para viajar, a serviço, sem o marido.

 

0thilia Dauster, Administradora de  Empresas, hoje conferencista e professora universitária, disse  na primeira entrevista: ”0 senhor pode confiar em mim. Tenho dois filhos, boa experiência e  não sou mais engravidável”. Foi contratada na hora.

 lillyleonie@terra.com.br

voltar