Lilly Paes Barreto

Antipatias Gratuitas

Sou comunicativa. Gosto de fazer novas amizades, embora o coração dispare, ainda no elevador, quando visito alguém pela primeira vez. Sinto-me bem em qualquer ambiente; já estive em casas modestas em favelas e fui a festas em mansões em condomínios fechados; orgulho-me de estabelecer uma empatia instantânea com quem converso.

 

Uma vez, me inscrevi num curso de controle da mente, ministrado por um padre gaúcho. Motivada, interessada, assisti às aulas que me ajudaram a ter uma sintonia melhor com as pessoas no mundo difícil em que vivemos. Ao comentar o teor do curso com o diretor de um banco, fiquei satisfeita quando ele disse: "Você não precisa disso, tem auto-confiança e poder de persuasão". Quanta boa percepção!

 

Não sou perfeita. Devo controlar as emoções e falar  calmamente com a atendente do meu cartão de crédito que fala sem parar e insiste no ponto da vista da empresa, que acompanha no terminal. Há alguns anos, visitei uma indústria de graxas e lubrificantes para carros onde tentei explicar o meu trabalho a uma das pessoas mais frias e desconfiadas que já conheci. Por que, então, me recebeu? Não consegui me comunicar e, preocupada com a perda do meu poder de persuasão, pensei que já estivesse no purgatório, sendo interrogada por uma alma do outro mundo, chefete das demais. A certa altura da difícil conversa, sugeri, uma pequena pausa, como "aquecimento" para continuarmos a conversar em bases mais amenas.

 

Consegui o cafezinho - vitória - servido na salinha apertada em que estávamos. Foi inútil: o clima continuava seco, talvez a diretoria estivesse escondida numa sala secreta de onde, através do espelho, podia observar se o gerente de Recursos Humanos estava traindo a empresa. Meia hora depois, fui embora, desapontada com o fracasso da reunião. Indignada, esperei o ônibus para a cidade, na calçada esburacada daquele quente subúrbio carioca. Nunca fora tratada com tanto azedume. Parecia, até, que era  tomadora dos riquinhos doláres do meu interlocutor, escondidos despretenciosamente no velho arquivo de ferro atrás da sua mesa.

 

No longo trajeto de volta ao escritório, num momento inusitado de compreensão para os meus semelhantes, refleti que talvez o gerente estivesse permanentemente à espreita de novos aborrecimentos. Quem sabe, talvez estivesse sempre estressado, com medo de ser chamado para as reuniões da diretoria, quando seriam exigidos mais cortes de pessoal, embora ele já tivesse cortado toda a gordura, chegando aos ossos. Podia ser, mas descartei rapidamente esses nobres pensamentos porque o espetáculo do assalto que estava acontecendo nos carros parados no sinal era mais emocionante.

 

A impressão inicial ficou, mas, como tenho disposição para trabalhar, procurei fazer uma nova aproximação, dois anos depois, agora com o presidente daquela empresa. As minhas fontes haviam me passado a importante informação de que ele estava procurando um controller e eu, como "caçadora de talentos", sabia que podia me desincumbir dessa missão com sucesso total.

 

Acompanhei a trajetória da minha carta de referências com a ansiedade com que se acompanha um processo na Justiça. Em meu primeiro telefonema, D. Kyoko, secretária executiva do presidente, me informou que a carta fora

repassada para outro departamento, não sabia qual. No segundo telefonema, ela se desculpou elegantemente: estava saindo naquele instante para uma consulta médica e não podia me dar atenção. A terceira vez, pediu detalhes da carta da qual já não se lembrava. Antes que ligasse pela quarta vez, aconteceu o inesperado: a própria secretária me ligou, informando que a carta fora repassada para o Departamento de Recursos Humanos.

 

Como as primeiras impressões são as que ficam, convenci-me da inutilidade de mais uma tentativa; o gerente de Recursos Humanos era o mesmo com quem conversara antes. Não se dignou me receber, ou me atender por telefone, mesmo que fosse para exigir que não o incomodasse mais. Achou, certamente, que essa modesta escriba não era merecedora de nenhuma consideração. Preferiu se esconder atrás do escudo forte e seguro da   secretária. Mandou dizer, pobre homem, que não 

estava interessado. Como? Por quê? Será que já conhecia, de antemão, os detalhes do meu novo assunto? Fiquei sem entender o seu claríssimo raciocínio porque perguntas diretas  só podem ser respondidas por pessoas que vêem os problemas objetivamente e que, ao se defrontar com uma situação indesejada, pensam e oferecem soluções.

 

A vida continua e o sol ressurge entre as nuvens de tempestade. Numa ação independente, o departamento de marketing da mesma empresa, sem saber da minha péssima impressão, resolveu premiar alguns de seus fiéis clientes e me enviou um elegante estojo contendo uma caneta e uma lapiseira, de ótima qualidade, que até hoje uso com satisfação e um sorriso irônico.Pois é, a mão esquerda não se comunicava com a mão direita e esta pouco se importava com a esquerda, embora ambas fossem usadas para lavar o  rosto.


lillyleonie@terra.com.br 
Consultora, Treinamento/Desenvolvimento Comportamental. 
Autora de “Como Se Livrar de Um Executivo Incômodo”

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