Lilly Paes Barreto

"Carlos? Qual Carlos"...O  Sonho Não vivido

Nos bons e inocentes tempos, quando se queria demonstrar ou conservar uma amizade profissional, trocava-se presentes abertamente, sem o risco de ser visto e interpretado por testemunhas marotas que se lembram, mais tarde, de repente, que presenciaram algo escuso que precisava ser comunicado ao mundo. Quando isso ocorre, inexiste qualquer sentimento de verdade ou justiça por parte do “palrador’’; o pensamento predominante é de tirar proveito da descoberta de um segredo, acham, guardado , até então, a sete chaves.

 

Gentil, Carlos Rodrigues resolveu cimentar a amizade com o meu sócio. Mandou-lhe uma caixa com 12 garrafas de vinho, acondicionados separadamente em caixas lacradas. 0 sócio, curioso e já imaginando sentir o aroma da bebida, disse: “Vamos abrir e comemorar”. Mais precavida, e sem vontade de comemorar algo inexistente, ponderei que aquele presente parecia ser fino demais para ser saboreado com o sanduíche de queijo quente de todos os dias.

 

Dias depois, visitei uma corretora, onde David McKay, meu amigo gerente, sempre me obsequiava com a sua atenção e explicações sobre o mercado de seguros. Levei, com cuidado, para não deixar cair no chão, um cilindro daqueles, mesmo desconhecendo a marca do vinho. Sinceramente, não vi nada demais, embora conheça algumas situações delicadas, como aquela  em que  apresentado, ao abrir o embrulho e esboçar o seu agradecimento, protestou: “0 que é isso, Flávio, eu é que lhe dei essa gravata no seu aniversário do ano passado!

 

Depois de uma conversa bastante produtiva, finalmente David abriu o presente. Examinou-o nitidamente, sorriu e olhando-me nos olhos, disse:

­

Eu não sabia que você é amiga do Carlos Rodrigues!

­Carlos? Qual Carlos? De quem você está falando? (Não sabia se ele estava se referindo ao Carlos Eduardo, da televisão, o amigo Carlos Arthur ou ao Carlinhos  Xavier, primo e cardiologista da família).

 0ra, Lilly, estou falando do Dr. Carlos Lima Rodrigues, o Vice-Presidente da maior seguradora do Brasil. Ainda ontem almocei com ele !

 

Senti o sangue congelar nas veias e depois gotejar, lenta e humilhantemente, no tapete amarelo da corretora. Fiquei vermelha. Perdi a voz. As mãos ficaram suadas de emoção e vergonha. Tentei me recuperar. Com um comentário qualquer sobre o ar condicionado, gaguejei uma desculpa e saí rapidamente. Deixei a impressão, estou certa, que ficara louca.

 

Cheguei no escritório como alma penada.  0 que fizera, passar adiante um presente, estava errado, mas como é que o McKay sabia que eu não comprara o vinho na delicatessen da esquina? Será que ele tinha poderes mediúnicos e podia, inclusive, saber a verdade bastando examinar uma simples garrafa de vinho?

 

De repente, as idéias se aclararam. 0 amigo engenheiro tinha personalizado as garrafas de vinho, de modo que, ao recebê-las, o feliz presenteado sabia que provinham da “Vinícola de Carlos Rodrigues”. Daí a confusão, sem solução, por que David McKay morreu sem ter recebido o meu sincero, mas atrapalhado, pedido de desculpas.

 

Fora por fora, alguns homens reconhecem os seus erros. 0utros persistem - não estão nem aí para críticas. Por experiência própria, sei como deve ter se sentido mal aquele executivo que, ao me telefonar para comentar o seminário da pequena empresa de que participamos naquela manhã,  perguntou:

 

Por que está  triste?

­Estou com saudade do meu marido.

­0ra, hoje em dia todo mundo viaja. Ligue para ele, vai ficar feliz.

­Infelizmente, não vai dar para telefonar.

­ Por quê?

­Ele está descansando no... São João Batista!

 

Já a terceira situação de equívocos, pesa negativamente para a diretora (e herdeira) de uma rede de revendedoras de carros. Soube que tinha se casado e, ao ligar para dar os parabéns - normais, creio - ouvi uma descompostura em regra. Senti-me como na Inquisição: a santa (eu) tinha virado bruxa e seria queimada na fogueira, em praça pública, tamanha a violência com que a diretora me respondeu. Para concluir e acabar de vez com qualquer vontade de prolongar essa amável conversa, disse-me, com a severidade de uma Madre Superiora de um colégio de freiras que surpreendeu as alunas em risinhos e cochichos fora de hora; “Não gosto de misturar assuntos pessoais com profissionais”.     


lillyleonie@terra.com.br
www.lillypaesbarreto.com.br
Consultora, Treinamento/Desenvolvimento Comportamental. 
Autora de “Como Se Livrar de Um Executivo Incômodo”

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