Lilly Paes Barreto

Casos Parecidos, Óticas Diferentes

Era uma vez... Sim, mas a história aconteceu realmente. Conheci o Assessor de Marketing de uma indústria farmacêutica. Ambicioso, dinâmico, com ótimo relacionamento interpessoal, fizera carreira naquela empresa, onde entrara como mensageiro. Gostava do ambiente e do trabalho; tudo o que queria era progredir cada vez mais, por esforço próprio e conhecimentos profissionais. No entanto, as suas esperanças foram podadas no dia em que a empresa contratou um Gerente de Marketing que seria o seu superior.

Recusando-se a aceitar a nova situação, em que ele, entre outras atribuições, deveria passar informações ao seu novo chefe, o assessor passou a dormir e se alimentar mal. Começou a cultivar uma discreta gastrite e os exercícios físicos foram abandonados. Finalmente, resolveu se colocar no mercado através de uma consultoria de recursos humanos. Teve sorte: pouco depois, foi chamado para entrevistas numa empresa concorrente. De entrevista em entrevista, conseguiu a almejada gerência de marketing.

Pediu demissão. Antes de assumir o novo cargo, foi procurado em casa por dois diretores da antiga empresa que reconheceram a sua lealdade. Prometeram vantagens, prêmios e reconhecimento imediato, desde que voltasse atrás em sua decisão. Refletindo, o agora ex-funcionário lamentou que, só depois de muitos anos de dedicação, a diretoria tinha descoberto o quanto ele era útil. Calmamente, ponderou que já tinha se comprometido com outra empresa e a história terminou, para a decepção de uns e satisfação de outro.

Já Pedro Alonso, ex-colega de trabalho e amigo antigo, era gerente da filial Brasil de uma empresa suíssa. Um dia, foi convidado, a ocupar a diretoria administrativa de uma empresa americana. Depois de quatro entrevistas e três almoços prolongados, o acordo foi fechado, para alívio do Presidente e do Diretor de Recursos Humanos. A secretária providenciou o passaporte e reservou as passagens de avião para que o novo executivo visitasse a Matriz, no exterior. No dia seguinte, os gerentes foram informados da mudança. 

Mas o destino prega peças. A antiga empresa insistiu para que o Alonso desistisse da intenção de ingressar numa outra empresa. Coerente, responsável , mas preocupado em dar o passo certo, conversou com o seu consultor:­

- E agora, Alfredo, o que faço? Por mim, não volto atrás; já empenhei a minha palavra.
- Bem, vamos pensar. O que eles estão oferecendo?
- Uma gerência geral, férias anuais na Europa para duas pessoas, liberdade de ação e envolvimento com outros departamentos. . 
- Então jogue duro e peça logo uma diretoria. Se eles aceitarem, você fica. Eu me encarrego de pedir desculpas à empresa e dar o dito por não dito.

E assim foi feito. É desnecessário relatar com detalhes a fúria do Presidente da nova empresa, quando se viu sem o Diretor que acabara de contratar. Todo o planejamento deveria ser refeito, um novo processo de headhunting iniciado e o que era pior, precisava aplacar a reação dos acionistas que não veriam com bons olhos a sua avaliação do perfil de um novo executivo.
0 que aconteceu depois aos dois executivos? O de marketing trabalhou algum tempo, como Gerente, na filial de Curitiba. Meses depois, com saudades da praia, voltou para a antiga empresa, onde, afinal, "tinha passado a vida inteira". O segundo executivo foi, mais tarde, alçado ã presidência da empresa. É conceituado e respeitado até pelos concorrentes e, se apresenta queixas, o faz como todo empresário brasileiro que se preza.
(x) lillyleonie@terra.com.br 
Consultora, Treinamento/Desenvolvimento Comportamental. 
Autora de "Como Se Livrar de Um Executivo Incômodo" (Litteris)

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