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Como Dói (Para os Outros) Ser Impontual Devido ao crescimento do mercado de informática, surgiram inúmeros bureaus de serviços, cada um com a sua proposta de trabalho, profissionais competentes e equipamentos mais ou menos modernos. Com
esse desenvolvimento, que no exterior já existe há duas décadas,
empresas de médio e até pequeno porte passaram a contar com serviços
especializados de informática. Um novo filão de trabalho se abriu e
muitos empregados se transformaram em empresários - de hardware, software
e de serviços. Ao
procurar oportunidades de negócios, os administradores desses bureaus
ainda não entenderam que o computador não olha ninguém nos olhos e não
resolve nenhum problema se para isso não tiver sido programado. Eles
precisam saber que o homem ainda é a essência de tudo e não funciona
como uma máquina fria e indiferente. Átila
(Miranda, não o Rei dos Hunos) era dono de um bureau de serviços
conceituado. No dia da nossa reunião, chovia a cântaros e a condução,
como sempre no Ruio de Janeiro, era problemática. Roendo as unhas,
nervosamente e acompanhando cada manobra do “comandante” do ônibus na
travessia da “lagoa” da Praça da Bandeira, consegui chegar na
empresa. Esperei meia hora, o tempo de secar os sapatos. Fui informada que
o “doutor estava numa reunião, em outro andar” . Foi
quando a luz faltou, os computadores pararam e o ar condicionado,
revoltado, deixou todos empapados de suor. 0 problema era geral. Na quase
escuridão, tomei cafezinho com as secretárias e, quando a luz voltou,
maravilha, fui convidada pelo telefone interno para subir para o outro
andar onde, certamente, receberia honras militares.
O
que encontrei no 6o andar? Nada, além de desculpas esfarrapadas (pobres
secretárias que servem de escudo para a falta de cortesia dos chefes): o
Dr. Átila "tinha ido a uma reunião, urgentíssima, fora do prédio".
Quer dizer: mal a luz voltou, enquanto eu subia, no elevador A, o meu
anfitrião descia, esbaforido, suado, com o coração aos pulos, no elevador
B, correndo pelas ruas em direção a
um compromisso inadiável, representando, quem sabe, a diferença
entre fechar o bureau e conseguir uma boa parceria. A
moda pega: em outubro, a Gerente de Recursos Humanos de uma companhia de
navegação não me recebeu, alegando estar "superatarefada com a
mudança”. No ano seguinte, incrível, marcou uma reunião. Fui à
empresa, mais por curiosidade de conferir se alguma coisa tinha mudado.
Esperei, esperei, me desesperei e ... nada. Finalmente uma assistente
"que não sabia de nada" explicou que a gerente tinha passado
mal e estava impossibilitada de me atender. Sinceramente, poderia ter tido a elegância de cancelar a
reunião, a não ser que estivesse numa ambulância, com a sirene ligada,
dirigindo-se a um hospital. Um
caso interessante aconteceu num banco estadual. Pedi uma reunião por
escrito, mas tive que telefonar 11 vezes para obter uma posição.
Finalmente, uma surpresa agradável !
A reunião fora marcada para o dia seguinte, às 15:00 horas, com o
Diretor de Recursos Humanos da empresa. . Desmarquei
compromissos, remanejei outros e cheguei no banco na hora. Enquanto
esperava, examinei o ambiente: ar refrigerado funcionando a pleno vapor
(estávamos em plena umidade invernal), bons móveis e vários elevadores
supersônicos funcionando simultaneamente. Um exército de mensageiros e
contínuos estava ocupado em não fazer nada. Vi também vários
carrinhos de chá que, me disseram, percorrem todos os andares, cinco vezes ao dia. Muito
luxo e pouca eficiência. De
repente, percebi que só seria atendida depois da hora marcada, pois isso
fazia parte do jogo de mostrar ao mundo o acúmulo de trabalho da
diretoria. Ãs 15:40 fui finalmente informada que o "doutor"
Morro Velho não poderia me receber (nunca soube a razão), mas que o
"doutor" Fernandes estaria à
minha disposição. Pobre Dr. Fernandes. Arrancado, esse sim, de
uma reunião, só pôde se desculpar e me dar exatamente dois minutos de
atenção. Como
o seu pedido de desculpas era sincero e a secretária uma ótima relações
públicas, saí “à brasileira”, isto é, consegui transformar a minha
carranca num sorriso de total compreensão para com os problemas e o tempo
limitadíssimo dos executivos dessa empresa governamental. Se
os ingleses respeitam os compromissos, por que os brasileiros deveriam ser
diferentes? Marcou um jantar para às 7? É preciso comparecer na hora
marcada, por que o souflé
pode despencar, quem sabe? Uma
vez, foi confirmada uma visita a uma fábrica de artefatos de couro, na
Fazenda Botafogo, praticamente no “fim
do mundo”. Cheguei na hora, depois de tomar três conduções; não sou
louca para dirigir até aquele fim do mundo onde 5 horas já é
terra de ninguém e
corre-se o risco de esbarrar com um cadáver na esquina. Depois
de uma espera de 10 minutos, foi agraciada com a seguinte explicação: -
Dra. Janice não
pode atender. Mandou dizer que a fábrica pegou fogo e está tomando
providências. Quer
dizer: a fábrica estava em chamas, os funcionários estavam trabalhando
normalmente e a Dra. Janice, era a única pessoa capaz de resolver o
problema? Teria sido melhor se tivesse mandado a secretária com um pedido
de desculpas mais coerente e o oferecimento de um água gelada. Furiosa,
levantei-me para ir embora quando um outro diretor,
passando pela recepção e vendo o meu o olhar de ódio,
quis saber o que tinha acontecendo. Não
hesitei em dizer: “É
uma grosseria e falta de respeito. Aliás, a mesma coisa me aconteceu com
o seu vizinho da Fazenda Botafogo, o Presidente da fábrica de adoçantes,
que marcou, não cancelou e não me recebeu”. -
Que dia era? Consultei
a agenda. -
Uma quinta feira. -
Nunca estaria.
Religiosamente, o Presidente joga tênis no Inhangá às segundas e
quintas. Consultora,
Treinamento/desenvolvimento Comportamental.
Autora
de “Como Se Livrar de Um Executivo Incômodo” |