Lilly Paes Barreto

Como Dói (Para os Outros) Ser Impontual 

Devido ao crescimento do mercado de informática, surgiram inúmeros bureaus de serviços, cada um com a sua proposta de trabalho, profissionais competentes e equipamentos mais ou menos modernos.

Com esse desenvolvimento, que no exterior já existe há duas décadas, empresas de médio e até pequeno porte passaram a contar com serviços especializados de informática. Um novo filão de traba­lho se abriu e muitos empregados se transformaram em empresários - de hardware, software e de  serviços.

Ao procurar oportunidades de negócios, os administradores desses bureaus ainda não entenderam que o computador não olha ninguém nos olhos e não resolve nenhum problema se para isso não tiver sido programado. Eles precisam saber que o homem ainda é a essência de tudo e não funciona como uma máquina fria e indiferente. 

Átila (Miranda, não o Rei dos Hunos) era dono de um bureau de serviços conceituado. No dia da nossa reunião, chovia a cântaros e a condução, como sempre no Ruio de Janeiro, era problemática. Roendo as unhas, nervosamente e acompanhando cada manobra do “comandante” do ônibus na travessia da “lagoa” da Praça da Bandeira, consegui chegar na empresa. Esperei meia hora, o tempo de secar os sapatos. Fui informada que o “doutor estava numa reunião, em outro andar” .

Foi quando a luz faltou, os computadores pararam e o ar condicionado, revoltado, deixou todos empapados de suor. 0 problema era geral. Na quase escuridão, tomei cafezinho com as secretárias e, quando a luz voltou, maravilha, fui convidada pelo telefone interno para subir para o outro andar onde, certamente, receberia honras militares. 

O que encontrei no 6o andar? Nada, além de desculpas esfar­rapadas (pobres secretárias que servem de escudo para a falta de cortesia dos chefes): o Dr. Átila  "tinha ido a uma reunião, urgentíssima, fora do prédio". Quer dizer: mal a luz voltou, enquanto eu subia, no elevador A, o meu anfitrião descia, esbaforido, suado, com o coração aos pulos, no ele­vador B, correndo pelas ruas em direção a  um compromisso inadiável, representando, quem sabe, a diferença entre fechar o bureau e conseguir uma boa parceria.

A moda pega: em outubro, a Gerente de Recursos Humanos de uma companhia de navegação não me recebeu, alegando estar "superatarefada com a mudança”. No ano seguinte, incrível, marcou uma reunião. Fui à empresa, mais por curiosidade de conferir se alguma coisa tinha mudado. Esperei, espe­rei, me desesperei e ... nada. Finalmente uma assistente "que não sabia de nada" explicou que a gerente tinha passado mal e estava impossibilitada de me atender.  Sinceramente, poderia ter tido a elegância de cancelar a reunião, a não ser que estivesse numa ambulância, com a sirene ligada, dirigindo-se a um hospital.

Um caso interessante aconteceu num banco estadual. Pedi uma reunião por escrito, mas tive que telefonar 11 vezes para obter uma posição. Finalmente, uma surpresa agradável ! A reunião fora marcada para o dia seguinte, às 15:00 horas, com o Diretor de Recursos Humanos da empresa. .

Desmarquei compromissos, remanejei outros e cheguei no banco na hora. Enquanto esperava, examinei o ambiente: ar refrige­rado funcionando a pleno vapor (estávamos em plena umidade invernal), bons móveis e vários elevadores supersônicos funcionando simultanea­mente. Um exército de mensageiros e contínuos estava ocupa­do em não fazer nada. Vi também vários carrinhos de chá que, me disseram,   percorrem todos os andares, cinco vezes ao dia. Muito luxo e pouca eficiência.

De repente, percebi que só seria atendida depois da hora marcada, pois isso fazia parte do jogo de mostrar ao mundo o acúmulo de trabalho da diretoria. Ãs 15:40 fui fi­nalmente informada que o "doutor" Morro Velho não poderia me receber (nunca soube a razão), mas que o "doutor" Fernandes estaria à  minha disposição. Pobre Dr. Fernandes. Arrancado, esse sim, de uma reunião, só pôde se desculpar e me dar exa­tamente dois minutos de atenção.

Como o seu pedido de desculpas era sincero e a secretária uma ótima relações públicas, saí “à brasileira”, isto é, consegui transformar a minha carranca num sorriso de total compreensão para com os problemas e o tempo limitadíssimo dos executivos dessa empresa governamental.

Se os ingleses respeitam os compromissos, por que os brasileiros deveriam ser diferentes? Marcou um jantar para às 7? É preciso comparecer na hora marcada, por que o  souflé pode despencar, quem sabe?

Uma vez, foi confirmada uma visita a uma fábrica de artefatos de couro, na Fazenda Botafogo, praticamente no  “fim do mundo”. Cheguei na hora, depois de tomar três conduções; não sou louca para dirigir até aquele fim do mundo onde 5 horas já é  terra  de ninguém e corre-se o risco de esbarrar com um cadáver na esquina.

Depois de uma espera de 10 minutos, foi agraciada com a seguinte explicação:

-     Dra. Janice não pode atender. Mandou dizer que a fábrica pegou fogo e está tomando providências.

Quer dizer: a fábrica estava em chamas, os funcionários estavam trabalhando normalmente e a Dra. Janice, era a única pessoa capaz de resolver o problema? Teria sido melhor se tivesse mandado a secretária com um pedido de desculpas mais coerente e o oferecimento de um água gelada. Furiosa, levantei-me para ir embora quando um outro diretor,  passando pela recepção e vendo o meu o olhar de ódio,  quis saber o que tinha acontecendo.

Não hesitei em dizer: “­É uma grosseria e falta de respeito. Aliás, a mesma coisa me aconteceu com o seu vizinho da Fazenda Botafogo, o Presidente da fábrica de adoçantes, que marcou, não cancelou e não me recebeu”.

-     Que dia era?

Consultei a agenda.

-     Uma quinta feira.

-     Nunca estaria. Religiosamente, o Presidente joga tênis no Inhangá às segundas e quintas.

(x) lillyleonie@terra.com.br 

Consultora, Treinamento/desenvolvimento Comportamental. 

Autora de “Como Se Livrar de Um Executivo Incômodo”

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