Lilly Paes Barreto

Como Se Livrar De Um Executivo Incômodo

A fórmula, simples. Decidido o corte (por questões políti­cas, ordens da Matriz, ou baixa lucratividade) o executivo será enviado, "em missão especial" a uma das filiais da empresa, preferivelmente no ex­terior, para amenizar o golpe. Ao voltar, não deverá considerar a viagem como um prêmio à sua dedicação. Assim, para que se acos­tume com as agruras da vida, não encontrará mais a sua sala, ao passo que a secretária (constrangidíssima) estará asses­sorando outro executivo.

Antes que aceite o desafio de um trabalho mais simples, a alta direção deverá determinar que a sua mesa seja encostada na parede mais escura da menor sala da empresa, talvez no antigo almoxarifado. Finalmente, para que o agora infeliz executivo não pense demais na família e decida engulir este e outros "sapos", poderá se montar um pacote de soluções drásticas: conversar, rindo, com seus

subordinados (humilhação pura) e não chamá--lo mais para as reuniões diárias de Planejamento.

0utros métodos infalíveis de afastar silenciosamente o executivo, sem brigas e discussões, consistem em tirar-lhe o título do Iate Club, não lhe dar novas incumbências e falar, indireta mas insistentemente, sobre as dificuldades do mercado e a necessidade de cortar despesas. Esse plano sempre produz ótimos resulta­dos: o executivo não aguenta mais a pressão e a insônia se instala em seu organismo. Magro, nervoso e com dores de estômago, resolve apresentar sua carta de demissão, para alívio geral.

Situações desse tipo podem apresentar variantes. como aconteceu com um amigo, Controller de um grupo têxtil. ELE podia não saber dos planos da Presidência, mas os concorrentes es­tavam a par de tudo. Tanto estavam que um dia, ao voltar do almoço, recebeu a visita de um senhor bem vestido, de porte atlético e feições duras que, pisando firme, lhe comunicou:

- A partir de agora sou o novo Controller.

- Como? Não estou entendendo. Por favor, sente-se e vamos conversar melhor.

- Não temos nada para conversar. 0 próprio presidente me contratou e autorizou a minha transferência de São Paulo. Pode sair agora mesmo e não se esqueça de deixar as chaves da mesa. Ah sim, deixe tudo como está, examinarei a papelada depois.

Não havia nada de errado no trabalho executado, até então, pelo meu amigo. Errada era a atitude do seu substituto, cheio de empáfia e convencido de que era o dono do mundo. 0 cargo em questão precisava ficar disponível como resultado de uma negociação entre dois antigos concorrentes que resolveram trabalhar em conjunto num empreendimento novo.

Há outras soluções menos dolorosas e muito mais eficientes de demitir um executivo: falar francamente, agradecendo a dedicação e informando que será guilhotinado. Como este, além do choque, terá que conviver com a redução de seu status, é sempre interessante manter o seu plano de saúde e lhe oferecer meio salário por algum tempo. Caso ele possa ter um ataque cardíaco e desmaiar no tapete novo da sala do Presidente, sugiro outras alternativas:

Contratar um headhunter para um trabalho de outplace­ment, numa deferência para com o executivo que se sacrificou inúmeras vezes pela empresa. Com isso, a demissão será menos traumática.

.Conversar periodicamente com os executivos e funcionários, antevendo a necessidade de cortes.

Estabelecer um sistema de prioridades para demissões (difícil, por que o cunhado da tia da telefonista pode ser mais importante do que o gerente de contabilidade com 21 anos de empresa).

As reações a bruscas demissões podem variar: desde um protesto magoado, formulado educadamente pelo executivo que não compreende por que está sendo demitido, quando ontem mesmo foi elogiado. até à utilização pura e simples da peixeira, como forma de expressar a sua indignação. Chato é quando os diretores desaparecem repentinamente de circulação, não são vistos e somente vão trabalhar quando o executivo é afastado definitivamente. Na verdade, eles preferem evitar um confronto, em que forçosamente terão que encarar o demitido.

0 que eles dizem? 0ra, bobagens do tipo: “não há nada de pessoal, pois você é apreciado pela diretoria” ou “as portas da empresa estarão sempre abertas mas, infelizmente, terá que procurar novas oportunidades”. 0 que resta, então, ao executivo demitido? Nada, a não ser armar-se de coragem, preparar a família e começar tudo de novo.

lillyleonie@terra.com.br

voltar