Lilly Paes Barreto

Como? Tem 55 Anos E Ainda Não Morreu?

A novíssima geração  nasce sabendo tudo. Aos três anos, atende o telefone, decide se chama o pai, liga a televisão e impõe a sua vontade aos avós. Aos l6, dirige Vectra como ninguém e não admite críticas, exceto dos amigos que, evidentemente, “estão por dentro” . É natural que, aos 20 anos, sinta-se dona da situação. 0 passado passou, somente o  presente é real; os mais velhos  são quadrados e ultrapassados

 

Quando esses jovens entram no dificílimo  mercado de trabalho brasileiro, penam nos concursos, filas e agências de emprego. Desanimam-se diante dos inúmeros obstáculos que enfrentam. Sentem-se diminuídos e menosprezados. E como se alguém tivesse decidido, após conversar com o seu travesseiro,  na penumbra da madrugada: “Não vou facilitar a vida de ninguém, por que também  tive muitas dificuldades no início da carreira e ninguém me ajudou”

 

Um erro não justifica outro. É verdade que, no mundo inteiro, as pessoas são levadas a se aposentar cedo para deixar espaço aos jovens. com menos experiência e pretensões salariais mais modestas. Mas há países, em que as pessoas, ao se aposentar, têm perspectivas de uma vida útil, mesmo  em outro campo. Entre nós, é o contrário: a aposentadoria é uma espécie de morte em vida e aqueles que tentam novas oportunidades aos 55-60  anos, são vistos com incredulidade - 'podiam se dedicar a curtir e não fazer.

nada". 

 

É desagradável ler nos olhos dos outros a pergunta : “Por que quer trabalhar, se já passou da idade?” Ora, nos magazines suiços, senhoras de cabecinha branca trabalham em pé horas a fio e nem por isso faltam ao trabalho. Nos Estados Unidos, os executivos  maduros (“senior citizens”) são chamados para trabalhar em diversas empresas, para transmitir a sua experiência aos mais jovens. Na Alemanha, engenheiros recém formados trabalham lado a lado com profissionais mais velhos, sem   medo de que estes venham a ter infartos definitivos.

 

Infarto teve um importante executivo que, ao completar 60 anos, se viu obrigado a se desligar da empresa por ter atingido o limite para o exercício de cargos de diretoria. Não se conformou em ficar parado, logo ele, acostumado com um rítmo frenético, justo ele, que resolvia todos os assuntos importantes! Não conseguiu se adaptar à tranqüilidade da nova vida e acabou morrendo.

 

Entre outros, destaco a história do engenheiro com mais de 20 anos de trabalho em montagens industriais Viajou por todo o Brasil (inclusive para  Rondônia e interior do Mato Grosso, sem nenhum conforto), em detrimento, até, de sua vida familiar. Um dia, foi demitido e se aposentou por que a empresa onde trabalhava dispensou todos os engenheiros por falta de encomendas.  Hoje, ele vende carros e não quer mais saber de contar histórias de engenharia para a turma que se reune aos domingos para falar do passado. Mas não esquece que, na época em que foi demitido, conseguiu , com dificuldade, um emprego onde ganhava um salário de fome. E qual era o seu pecado capital? Ora, tinha 55 anos!

 

Vitória Margolin, Economista e Administradora de Empresas,  trabalha 12 horas por dia no escritório e em casa. “Afinal”, diz, “tenho que me preparar para o futuro: já estou com 30 anos”. Preparar-se é preciso, aprender o que fôr possível e tentar conhecer melhor o  mundo, mas desde já?

 

0utro  amigo, engenheiro químico, em áureos tempos ganhava o equivalente a 40 salários mínimos. Tudo muda. Perdeu o emprego. Depois de muito esforço, quando   visitou todas as indústrias da Rodovia Presidente Dutra, sentido Rio - São Paulo, finalmente conseguiu um emprego numa empresa de projetos onde ganharia 20 salários. No fim do mês, ao receber o seu cheque, surpresa, além de o valor ser inferior ao que tinha sido acertado, foram feitos descontos sequer imaginados. Era uma discriminação pelo fato de não ser mais um “novato” 0 que  fez? Continuou o seu trabalho, mas  processou a empresa.

 

Já Célia se aposentou como Gerente de Contabilidade de um banco. Tinha um filho casado. Residia em apartamento próprio e, embora a poupança não fosse aquela  maravilha, permitia-lhe alguns dias de descanso, em Araxá, duas vezes por ano e, esporadicamente, uma viagem ao Canadá, onde tinha amigos.  Aos 70  anos, com a vida estabilizada, ela poderia perfeitamente desfrutar das delícias da aposentadoria:  praia, passeios turísticos, cinema e muita diversão. Ao invés, montou uma firma de contabilidade, deu emprego a sete pessoas e, além de se sentir útil, faz um trabalho que lhe agrada. Não se sente antiga, nem jogada fora. Muito pelo contrário. 

 

Vamos todos à  praia.  Cruzemos os braços, esperando que alguém pague as contas. Esqueçamos o que sabemos e ensinemos o estômago a conviver melhor com o bolso. 0 dinheiro não é suficiente após a aposentadoria? Não tem problema. 0s ricos pagam, quando estão falidos? Pois não paguemos o IPTU, a taxa de lixo, a divida com o  “Leão”. Das duas, uma: tenhamos em  mente, uma vez por todas, que o mundo aqui embaixo é uma beleza e deixemos que os mais jovens ou o governo (há, há)  tomem onta de tudo, ou então, façamos um esforço para usar as nossas energias em outra direção, com o objetivo de tornar a vida melhor.


lillyleonie@terra.com.br
 

Consultora,Gestão de Pessoas   

Autora de “Como Se Livrar de Um Executivo Incômodo”

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