Lilly Paes Barreto

Cultura Não Se Vende Em Supermercado

Consulto o caderno “gostoso” de se ler do meu jornal favorito. Entre uma extensa programação de exposições e peças de teatro leio, encantada, sobre um vídeo de ballel exibido numa boa sala, só que... pertencendo ao governo municipal. Um clássico, sem pagar ingressos? Era bom demais para ser verdade. De qualquer forma, achei melhor pegar a minha “voadeira” (ônibus carioca) para não perder o espetáculo. De repente, quem sabe, poderia começar na hora !

 

Na portaria, o funcionário de plantão, provavelmente entediado, ganhando pouco e achando que estava no direito de tratar as pessoas mal, mostrou as gengivas num sorriso de escárnio:

 ­ Hoje não tem nenhum vídeo. 0 projetor está quebrado.

­ E quando vai ser consertado?

 Quando a galinha tiver dentes!
 

Passou-se um ano. No fim do expediente, resolvi ir a um cinema, mas qual?

 

Todos tinham a violência como tema. Liguei para a tal sala, onde costumava haver uma boa programação. Sei que tudo muda - o idioma, os costumes, a cultura., mas no ãmbito governamental parece que o deserto de idéias e a falta de interesse permanecem incólumes. Primeiro, a funcionária, aparentemente prestativa, perguntou o filme que desejava ver. A pergunta não se justificava, pois ela já tinha a resposta preparada para qualquer indagação - coerente ou absurda: “ Hoje não tem nada, estamos em greve: ! “

 

 Vídeos? Cinema? A filha mais velha de uma família conhecida quer fazer cinema.

 

Todos gritaram : “0s artistas têm uma vida sacrificada, cheia de dificuldades, que não leva a nada, a não ser, é claro, quando se faz uma ponta na novela das 8”. Mas, quando o jovem acha que realmente nasceu para a música ou as artes dramáticas, tudo fará para alcançar seus sonhos, desde um esforço gigantesco para convencer a família de que só assim será feliz, até procurar estudar mais e ter uma  formação universitária. Ela sabe que a se tiver um bom embasamento, a sua sensibilidade será melhor transmitida aos 1000 espectadores que o assistirem no palco.

 
Hoje, os pais se dão por satisfeitos quando os filhos estudam sem se envolver com drogas e outros assuntos pesados. Mas, quando o filho predileto anuncia que quer fazer oceanografia, o pai pergunta com uma certa  dose de indignação-preocupação: “Por que,  se não tem campo? Outros pais aceitam quando os filhos, no penúltimo ano de uma faculdade, passam de uma área para outra.

 Concorda-se com (quase) tudo, mas o sorriso desaparece quando o filho informa que deseja ser professor. Como? Escolher Letras ou Pedagogia equivale a nadar num rio turbulento que deságua em brigas familiares e total incompreensão. E quando a mãe timidamente pergunta: Quem vai ensinar as crianças brasileiras?” Ora, os filhos dos outros.

 

Para transmitir cultura, é preciso que alguém a tenha. Para obter cultura, não se deve procurar o supermercado, pois não é vendida, enlatada, empacotada ou engarrafada. Precisamos de professores dedicados e amigos, que tenham a possibilidade de se aperfeiçoar. Mas, que coisa, eles precisam comer, sustentar a família e tentar ter uma vida digna. No Brasil, esses abnegados profissionais da cultura e ensino ganham mal, não se alimentam direito. Correm demais para “segurar” os seus quatro empregos. Não têm condições de fazer pesquisas.

 
No interior, os professores são mais respeitados, mesmo aqueles com pouca instrução. Toda a comunidade vivencia os mesmos problemas de abandono, pobreza e falta de perspectivas. Já nas cidades, o panorama é diferente; os professores são considerados idealistas fracassados, que nunca serão “alguém”.

Telefona-me uma senhora muito aflita. Diz que tem insônia há várias noites e padece de uma impotência anormal. É que está preocupada com o destino da sobrinha querida que mora com ela. Qual é o problema? Drogas, um amor proibido, talvez a idéia absurda e largar tudo e se missionária na Bósnia. Nada disso!
 

A jovem que ser professora e pior, de literatura francesa comparada.

 
Conversei com a moça. Comunicativa, estava adorando o seu primeiro ano de Letras. Era o que ela mais queria. Sabia que a sua vida profissional seria sacrificadas e que o seu salário nunca permitirá a aquisição de uma mansão  no Alto Gávea. Aí perguntei:

 
­ 0 que a família disse quando você entrou para a faculdade?

 
-Nada, mas levei uma surra.... depois de uma briga violenta.

 

- E o que você fez quando tentou o vestibular de Economia só para deixar todos felizes?

 

­ Não me apresentei, por que sabia que passaria, tinha estudado muito e estava preparada.

 

Quando a família soube, parece que não entendeu o espírito da coisa. Brigamos outravez, mas persisti no meu objetivo de ser professora.

 
Perguntar não ofende. Vale mais ser culto, mas com dinheiro contado na carteira ou espertalhão ignorante, que se gaba de ter ”mais cabeça do que muito doutor”? É possível vir a ser “alguém” apenas com o primário e sem a ajuda de ninguém? 0fereço um sorvete a quem responder sem pestanejar.

 
Contra-danças e contradições. Hoje, os nomes próprios são mais complicados e diferentes do que nunca. Sempre aparece alguém com um nome tão inusitado que é preciso anotá-lo rapidamente no caderninho para fixá-lo na memória. Assim, fui apresentada a uma carta Igne. Magra, fina, com feições nórdicas, ouviu em silêncio a apresentação do irmão. Achei o nome interessante e, enquanto entabulávamos  uma conversa, pensei: “0 nome deve vir de Ignácia, ou é uma corruptela de Ranghild”.

 

Adivinhando o meu pensamento, o rapaz me informou com desembaraço e presteza:

 

­ Igne, de ignorante. A minha irmã é a burrice personificada.

 

Fiquei calada. Nada contra shopping center, mas ele, e não a irmã, deveria ser da geração shopping center - paqueras, compras, muito surfe, danceterias e... nada mais.
                                                                

www.lillypaesbarreto.com.br
(x) lillyleonie@terra.com.br 
Consultora, Treinamento/Desenvolvimento Comportamental. 
Autora de "Como Se Livrar de Um Executivo Incômodo" (Litteris)

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