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Cultura Não Se Vende Em Supermercado Consulto o caderno “gostoso” de se ler do meu jornal favorito. Entre uma extensa programação de exposições e peças de teatro leio, encantada, sobre um vídeo de ballel exibido numa boa sala, só que... pertencendo ao governo municipal. Um clássico, sem pagar ingressos? Era bom demais para ser verdade. De qualquer forma, achei melhor pegar a minha “voadeira” (ônibus carioca) para não perder o espetáculo. De repente, quem sabe, poderia começar na hora !
Na portaria, o funcionário de plantão, provavelmente entediado, ganhando pouco e achando que estava no direito de tratar as pessoas mal, mostrou as gengivas num sorriso de escárnio: Hoje não tem nenhum vídeo. 0 projetor está quebrado. E quando vai ser consertado?
Quando a galinha tiver
dentes! Passou-se um ano. No fim do expediente, resolvi ir a um cinema, mas qual?
Todos tinham a violência como tema. Liguei para a tal sala, onde costumava haver uma boa programação. Sei que tudo muda - o idioma, os costumes, a cultura., mas no ãmbito governamental parece que o deserto de idéias e a falta de interesse permanecem incólumes. Primeiro, a funcionária, aparentemente prestativa, perguntou o filme que desejava ver. A pergunta não se justificava, pois ela já tinha a resposta preparada para qualquer indagação - coerente ou absurda: “ Hoje não tem nada, estamos em greve: ! “
Vídeos? Cinema? A filha mais velha de uma família conhecida quer fazer cinema.
Todos gritaram : “0s artistas têm uma vida sacrificada, cheia de dificuldades, que não leva a nada, a não ser, é claro, quando se faz uma ponta na novela das 8”. Mas, quando o jovem acha que realmente nasceu para a música ou as artes dramáticas, tudo fará para alcançar seus sonhos, desde um esforço gigantesco para convencer a família de que só assim será feliz, até procurar estudar mais e ter uma formação universitária. Ela sabe que a se tiver um bom embasamento, a sua sensibilidade será melhor transmitida aos 1000 espectadores que o assistirem no palco.
Concorda-se com (quase) tudo, mas o sorriso desaparece quando o filho informa que deseja ser professor. Como? Escolher Letras ou Pedagogia equivale a nadar num rio turbulento que deságua em brigas familiares e total incompreensão. E quando a mãe timidamente pergunta: Quem vai ensinar as crianças brasileiras?” Ora, os filhos dos outros.
Para transmitir cultura, é preciso que alguém a tenha. Para obter cultura, não se deve procurar o supermercado, pois não é vendida, enlatada, empacotada ou engarrafada. Precisamos de professores dedicados e amigos, que tenham a possibilidade de se aperfeiçoar. Mas, que coisa, eles precisam comer, sustentar a família e tentar ter uma vida digna. No Brasil, esses abnegados profissionais da cultura e ensino ganham mal, não se alimentam direito. Correm demais para “segurar” os seus quatro empregos. Não têm condições de fazer pesquisas.
A jovem que ser professora e pior, de literatura francesa comparada.
- E o que você fez quando tentou o vestibular de Economia só para deixar todos felizes?
Não me apresentei, por que sabia que passaria, tinha estudado muito e estava preparada.
Q uando a família soube, parece que não entendeu o espírito da coisa. Brigamos outravez, mas persisti no meu objetivo de ser professora.
Adivinhando o meu pensamento, o rapaz me informou com desembaraço e presteza:
Igne, de ignorante. A minha irmã é a burrice personificada.
Fiquei calada. Nada
contra shopping center, mas ele, e não a irmã, deveria ser da geração
shopping center - paqueras, compras, muito surfe, danceterias e... nada
mais.
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