Lilly Paes Barreto

Dois Micro Empresários, Leões como Os outros

Cronica do livro novo da LILLY *

0 telefone toca, o fax dá sinal de vida e uma visita quase arrebenta a campainha da porta.0 microempresário descobre que está sozinho no escritório; os seus funcionários saíram para várias incumbências. Percebe, admirado, que tem apenas duas mãos (porque não usamos ambas?), mas só uma para escrever, mas tudo bem, o importante é anotar e agradecer o pedido do cliente.

 

Perder um pedido, uma concorrência? Isso não deve acontecer, nem nos pesadelos depois de um filme policial, daqueles que se tornam realidade meses depois. Aí, o empresário procura se “virar”, faz tudo ao mesmo tempo e recorre à clássica poupança para as despesas iniciais de um projeto mais elaborado que, a médio prazo, será lucrativo. Tem a veleidade de achar que pode resolver todos os problemas, mesmo que precise de um feedback rápido sobre situações semelhantes.

 

Era bom demais! A gerência de Desenvolvimento da Pessoa de uma multinacional gostou da minha proposta de um seminário, a ser realizado dentro de um mês. Solicitou uma proposta resumida, não um dossiê, mas com informações objetivas para apresentar à diretoria. Recebi a recomendação de que os temas mais polêmicos deveriam ser abordados superficialmente, para não ferir as suscetibilidades de alguns gerentes de departamentos, já assoberbados com mil outros problemas. Concordei com tudo, senti que fiz  um gol, embora o sexto sentido me alertasse para não me mostrar muito satisfeita; o bom humor podia ser interpretado como baixo nível de seriedade.

 

Enviei a proposta dentro do prazo estipulado. Descrevia os temas, seu desenvolvimento e desdobramento, os equipamentos áudio-visuais necessários e a duração do seminário, incluindo o tempo alocado para debates e sugestão de datas alternativas. Mais importante de tudo, a coluna dos custos incluía um desconto de 20%, por se tratar de um cliente novo que desconhecia a minha forma de trabalhar e precisava ser bem impressionado.

 

Aguardei uma resposta, que marcaria o início das negociações. Semanas depois, através da linguagem curta e indiferente de um e-mail, soube que a proposta fora recusada em favor de outro concorrente, mais comedido, digamos, em seus cálculos. Aceitei a indiscutível derrota, culpando a  frágil memória que não registrara que aquela era uma concorrência e prossegui com o meu trabalho rotineiro de microempresária. Tempos depois, alguém abriu os meus olhos enevoados: a gerência havia somado todas as parcelas referentes aos custos do meu projeto, incluindo o desconto, ao invés de analisar somente o valor final. Tivessem prestado mais atenção, seria eu., e não a outra, a empresária com a melhor proposta..

 

Com o cuidado de não melindrar um possível cliente (talvez no futuro próximo, daqui a uns 50 anos), expliquei por e-mail e telefone que um erro de interpretação havia sido cometido. Antes que alguém se aborrecesse com a minha petulância, desejei sucesso para o projeto da concorrente. Em resposta, recebi o silêncio de um túmulo abandonado. Pensei até, maldosamente, que a operadora tivesse cortado a ligação.

 

Procurei consolo nos ombros fortes de um amigo. Ele me contou a sua própria “desdita” e, assim, percebi que não era a única a me queixar. A reunião com a gerente administrativa de uma faculdade estadual fora confirmada. Ele chegara na hora, levando prospectos, orçamentos e outros papéis que julgava importantes. No portão, dois seguranças, mas somente um sabia onde ficava o gabinete da gerente. Finalmente, perguntando a todos que encontrava pelos longos corredores (não havia nenhum aviso ou cartaz), conseguiu chegar ao 5o. andar. 

 

 Uma outra reunião, urgentíssima, estava sendo realizada, pediram para aguardar. Renzo sentou-se num banco solitário encostado à parede de um corredor onde passavam dezenas de funcionários vestidos como se estivessem no churrasco domingueiro na casa do vizinho de quintal. Falavam alto e batiam as portas, já bastante danificadas, com o verniz descascado e as maçanetas quase, quase, despencando. Desanimado, pensou: “Aqui, pelo visto, o dinheiro anda escasso. Duvido que possa vender aqui os meus artigos diferenciados de escritório ”.

 

Passados quase  40 minutos, apareceu uma funcionária que, sorrindo educadamente, pediu para aguardar mais um pouco. “Tudo bem, mas quanto tempo?” A funcionária não sabia, podia ser meia hora ou duas horas e meia. Renzo, então, se levantou, esforçou-se para colar um sorriso em seus lábios esticados como linha de pipa e foi embora. Pequeno empresário, herói como tantos outros, precisava vencer as barreiras do desinteresse e descaso e realizar novos negócios urgentemente, antes que a concorrência aumentasse. “Há limite para tudo”, pensou, “até para a paciência de um autônomo sem carteira registrada, férias e outros direitos trabalhistas. Prometeu a si mesmo que não poria mais os pés naquela faculdade, a não ser que recebesse um pedido formal de desculpas.

 

Quanto a mim, reconheço que detesto a desculpa fácil das reuniões urgentes, “para daqui a pouco”, que, normalmente, exigem a preparação e apresentação de relatórios, dados, estatísticas, documentos do arquivo e muitas outras informações. São tão urgentes, necessitam de tanta atenção dos participantes, que impedem uma simples questão de organização e cortesia: telefonar e cancelar qualquer outra reunião com pessoas “de fora*

 

*     OS BIPEDES TAMBEM DEIXAM RASTROS               

www.lillypaesbarreto.com.br
(x) lillyleonie@terra.com.br 
Consultora, Treinamento/Desenvolvimento Comportamental. 
Autora de "Como Se Livrar de Um Executivo Incômodo" (Litteris)

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