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ENQUANTO A APOSENTADORIA NÃO NOS SEPARAR (do livro Os Bípedes também deixam rastros) Orgulho-me em dizer que trabalho desde os 14 anos. Aos 21, formei-me em engenharia metalúrgica pela Universidade de Minas Gerais. No penúltimo ano de faculdade, consegui sozinho um estágio. . Formado, penei quatro anos como assistente num departamento que não tinha nada a ver comigo. Finalmente, depois de um longo período como engenheiro, alguém observou o meu empenho e dedicação e me indicou para gerenciar o departamento técnico de uma grande siderúrgica onde sou um dos sócios. Às vezes, encontro na rua velhos (detesto esse rótulo, preciso me acostumar) colegas de faculdade. Conversamos rapidamente e antevejo a clássica pergunta atravessada na garganta. "Como é possível que ele, com a mesma idade, está em forma, ativo e trabalhando a todo vapor?" Apesar da idade, sinto-me bem. Estou feliz e acredito que as mulheres me acham atraente. Sinceramente, não planejo me aposentar. O que faria? Acompanhar a minha mulher na compra semanal de hortigranjeiros? Assistir ao noticiário das 12:30, com a tarde livre para não fazer nada? Que bobagem, não estou preparado para o dolce far niente. 0 trabalho é a minha vida e a empresa precisa de mim. Penso no Gussie Sumner, o executivo inglês que conheço há tanto tempo. É conceituadíssimo e tem uma excelente reputação no meio financeiro. Pois bem: foi demitido quando ocupava a diretoria financeira de um grupo importante. O presidente não se sentia à vontade com o seu executivo que se tornara incômodo por ser mais conhecido do que ele próprio. Quando se está no topo, a queda é mais violenta. Depois de várias tentativas frustradas de conseguir um cargo condizente com a sua experiência e personalidade, Gussie decidiu recomeçar a vida em outra área. Vendeu os seus livros de matemática financeira, desfez-se do belíssimo duplex na Gávea e se mudou, com a família e agregados para o seu sítio, duas horas do Rio de Janeiro, onde abriu uma ranicultura. “Este é um caso isolado”, refleti, “eu jamais poderia viver longe da siderúrgica. No meu caso, trata-se do amor ao trabalho e não de fuga do desconhecido, com seus riscos e improbabilidades”. Entre as fotografias emolduradas na minha mesa, observo a de meu sobrinho, Alexander, aos 37 anos. Ele se parece muito comigo; temos a mesma obstinação de transformar dificuldades em vantagens. O seu pai, professor de uma academia militar nos Estados Unidos, o incentivou a fazer o doutorado na Inglaterra, para completar o ciclo de estudos de Engenharia Mecânica. Conseguiu uma bolsa e viajou para a Inglaterra com a esposa que estudaria para a tese de doutorado. Quando voltou ao Brasil, com a mobília encaixotada e morando na casa dos sogros, procurou imediatamente um emprego. Foi entrevistado numa consultoria de recursos humanos. Calmo, falando baixo, explicou que o seu currículo, voltado para pesquisa, enfocava “fumaça”. “Como, fumaça?” Respondeu que pesquisava gases de combustão de motores diesel! “Ah, bom!” Estava difícil conseguir um emprego, mas Alexander nunca foi homem de desistir facilmente. Depois de peregrinar por montadoras, fabricantes de motores e de autopeças, conseguiu ser contratado como pesquisador de uma montadora de motores a óleo diesel, em Campinas. 0 tráfego está ruim, não consigo me concentrar na reunião de amanhã com os parceiros europeus. Estou cansado, o dia foi longo, com reuniões inúteis. Os pensamentos se voltam novamente para uma eventual e longínqua aposentadoria que, certamente, me afastará para sempre da carreira a que me dediquei. E vem à memória a história do advogado, cansado de batalhas jurídicas, algumas perdidas, outras ganhas, mas não recompensadoras financeiramente, que resolveu se livrar da sua papelada, dar baixa do registro no 0AB e ir pescar. Dizem, tenho as minhas dúvidas, que é um novo homem, feliz, bem disposto, até remoçou. Para competir com as grandes siderúrgicas, modernizei a minha empresa, abri o capital, levantei empréstimos (ah, os juros!) adquiri novos equipamentos e tecnologia de ponta. Foi um caminho árduo que agora está produzindo bons frutos. É verdade, reservo pouco tempo para a família. Carole, a minha mulher, quando me vê exausto, como estou agora, insiste na aposentadoria, como recompensa por uma vida de ausências. Faz comparações, conta casos, lembra como Catia Maria, nossa vizinha, farmacêutica-bioquímca, com uma bela carreira na indústria cosmetológica, deixou o emprego para acompanhar o marido. Ele era chefe de microbiologia de uma indústria farmacêutica e foi transferido para outro Estado, com um cargo melhor. Ouço, calado, e concluo que a vida da profissional mulher é diferente do homem; podem gritar, por mais que a mulher se esforce, jamais poderá competir com o homem em igualdade de condições. Não fumo e bebo whisky somente socialmente. Reconheço que sou um workaholic inveterado. Estou estressado, sim, e freqüentemente irritado com a plêiade de novos problemas. Trabalhar até os 80 anos e depois me aposentar? Porque não? Por mim, tudo bem, a não ser que, em última análise, os meus sócios queiram se livrar de mim e boicotem o trabalho pelas costas.
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