Lilly Paes Barreto

Fechar Ou Não Fechar O Botequim

Incrível! 0s capitalistas estrangeiros estão voltando!  Confiam e querem investir no Brasil! São feitas parcerias e fusões, empresas nacionais são vendidas rapidamente - o dinheiro estás mudando de mãos. É história recente:  cada vez que era divulgado um novo pacote econômico ou  “fritado”, perdão, demitido, um  Ministro da Fazenda, os executivos financeiros se “jogavam” num avião para os Esta­dos Unidos, Alemanha ou Canadá, para tentar explicar essas mudanças às respectivas empresas.

 E o que faz a classe  média que montou, com sacrifício, um negócio próprio  mas não consegue sobreviver com tantos impostos? Corre ao bispo? Pede empréstimos aos bancos, para pagar com o seu sangue? Convoca a ajuda (limitada e de má vontade)  dos parentes? Arruma um sócio capitalista que puxará o tapete quando fôr mais conveniente? Ou coloca as jóias da família no pe­nhor - exclusividade da Caixa Econômica?

 Determinado a vencer, Felipe de Araújo Leme montou uma malharia em Juiz de Fora, especializada em meias com desenhos exclusivos. Conseguiu comprar oito máquinas, contratar uma estilista, operários e vendedores. As máquinas trabalhavam a todo vapor, pratica­mente 24 horas por dia. As vendas eram boas e a família já estava vendo uma luz no final do túnel, embora houvessem ainda muitas parcelas do empréstimo bancário conseguido a muito custo.

Critica-se o governo quando os negócios vão  mal. É fácil ter um bode expiatório e culpar a administração central, mas é inegável que a instabilidade da economia brasileira sempre atrapalha, confunde e destrói os pequenos. Agora as coisas melhoraram, mas muita gente perdeu e ainda perde dinheiro. No caso da malharia, um novo congelamento manteve inalterado o preço das meias, ao passo que os fornecedores de fios, linhas e outras matérias primas aumen­taram os preços; tinham força para não atender a nenhuma imposição. Assim, foi impossível fingir que estava tudo sob controle e manter o rítmo anterior.

Felipe iludiu-se pensando que poderia vir a ser um bem sucedido empresário de porte médio. Sufocado pelos encargos sociais, taxas, tributos e impostos e com dificuldade de pagar a matéria prima em dia, dispensou os operários do segundo turno, depois os do primeiro turno. Vendeu as máquinas, mesmo sabendo que não poderia voltar atrás. Houve tumulto na porta da malharia: famílias inteiras pedindo, pelo amor de Deus, que não fechasse as portas.

 Acabou fechando; não agüentou a pressão dos fornecedores que , mesmo não sendo pequenos empresários como ele, se recusaram a fazer acordos. Preferiram esperar, esperar, até conseguir receber as dívidas na Justiça. Vieram outros governos, outros planos, vários “sábios” ministros. Hoje, esse mineiro tenta se colocar numa empresa e o que é pior, sem conseguir.

Luciano Moraes se criou praticamente numa farmácia. Chegou a ter a mais bem montada "botica" do Flamengo.Com a moda dos produtos naturais, as suas prateleiras também tinham mel, chás, guaraná em pó e remédios homeopáticos. Os seus filhos estudavam em colégio particular, tinham aulas de in­glês e se preparavam para carreiras “com futuro”.

 Veio mais um congelamento. Com menos dinheiro, as pessoas se esquecem  da saúde. Mesmo quando as vendas eram boas, as prateleiras da farmácia do Luciano continuavam vazias: sem capital de giro, com os juros altos e os laboratórios insensíveis, não  havia dinheiro suficiente para repor todas as mercadorias "de peso". Pressionado pelas dificuldades e achando que a sua experiência valia alguma coisa, conversou com a esposa e acabou fe­chando a farmácia - sua única fonte de renda.

Numa situação difícil, uma multinacional ou empresa de porte médio reduz as despesas, demite ou remaneja os funcioná­rios e executivos, e, se possível, investe em novas tecnologias. Via de regra, não  fecham. Por isso, aconselho os pequenos   empresários: façam  ne­gócios alternativos mas, enquanto nada acontece, não fechem o seu pequeno negó­cio próprio, sonho da classe média, sem ter algo de concreto nas mãos.  Afinal, quando se abre a gaiola do periquito da família, nada garante que o maravilhoso canário do vizinho pousará justamente no telhado de sua casa.

(x) lillyleonie@terra.com.br

Consultora, Treinamento/ Desenvolvimento Comportamental.

Autora de "Como se Livrar de Um Executivo Incômodo" 

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